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18/01/2020 02:00 -03

Saída de Alvim não significa fim da 'cruzada' na Cultura contra 'esquerdismo'

Busca pelo fortalecimento do conservadorismo por meio de políticas culturais faz parte das diretrizes do governo Bolsonaro e será cobrada do próximo secretário de Cultura.

A queda do dramaturgo Roberto Alvim do comando da Secretaria Especial da Cultura está longe de significar o fim da “cruzada” contra o “esquerdismo” na Cultura, com o enaltecimento do conservadorismo e do ultranacionalismo.

Isso porque Alvim basicamente colocou no papel projetos - como o Prêmio Nacional das Artes - que estão amplamente em sintonia com o que defende o presidente Jair Bolsonaro para os meios culturais. E provavelmente será cobrado de seu sucessor na pasta que faça o mesmo.

Embora Bolsonaro não cite em nenhumas das 81 páginas da sua proposta de governo a palavra “cultura”, o termo tem um capítulo específico no programa de seu novo partido. O Aliança pelo Brasil se compromete a “lutar, na cultura, pela restauração dos valores tradicionais do Brasil”. Afirma que tais valores foram consolidados por grandes heróis do passado.

O discurso casa com o do dramaturgo no vídeo em que anunciou o Prêmio Nacional das Artes. Nele, Alvim fala que “a arte brasileira da próxima década será heróica e nacional (…) e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”. Frase é semelhante à do ministro nazista Joseph Goebbels: “a arte alemã da próxima década será heróica (…) e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”.

A repercussão do vídeo de Alvim levou à sua demissão. Mas, para o presidente, se não fosse a reação negativa - especialmente com a comunidade judaica -, o dramaturgo continuaria no cargo. Ele chegou a dizer que não havia motivos para o afastamento e que todo o “barulho” era “coisa da esquerda”. Na noite anterior à demissão de Alvim, ao lado do então secretário, Bolsonaro afirmou que seu objetivo para a área é fazer cultura para “a maioria”.

O presidente relatou que tinha se revoltado com muitos filmes e que mandou suspender qualquer concessão. “Afinal de contas, isso não é censura. Se o cara quer fazer um filme. (...)  Pode fazer, mas pode não com dinheiro público”. No meio do ano passado, o presidente vetou um edital que beneficiava entre outros a temática LGBT. O presidente nega censura, mas tem defendido uma seleção com base no mérito do conteúdo das obras para definir quais projetos serão beneficiados pelo governo. 

“A gente não quer investir em questão de ideologia, a gente quer fazer uma cultura sadia. E que você, pai e mãe, tenha prazer em assistir um filme, ir ao teatro, ao cinema. Saber que seus filhos menores, quando forem ao cinema, não vão ser agredidos com uma coisa que não condiz com a cultura e com a educação brasileira”, afirmou.

‘Bombardeio conservador’

É com essa diretriz que trabalham os subordinados do presidente que elaboram políticas para o setor. Dias antes dessa live, Alvim havia prometido a Bolsonaro um “bombardeio de arte conservadora”. Na quinta (16), ao lado do presidente, Alvim afirmou que a secretaria está tentando criar um “cinema sadio, ligado aos nossos valores, princípios e alinhado com essa ideia de conservadorismo em arte, que, na verdade, é uma arte que dignifique o ser humano, que dignifique a condição humana”.

A “cruzada” na Cultura, com objetivo de varrer a ideologia de esquerda, no entanto, é essencialmente ideológica, atada ao conservadorismo. E essa orientação ideológica direcionada pelo presidente é a mesma que levou à saída de Henrique Pires, um dos antecessores de Alvim, do comando da Cultura. Por não concordar com a suspensão do edital que contemplava a temática LGBT, Pires deixou o cargo. 

De saída, disparou: “Eu não vou fazer apologia a filtros culturais. Para mim, isso tem nome: é censura. Se eu estiver nesse cargo e me calar, vou consentir com a censura. Não vou bater palma para este tipo de coisa. Eu estou desempregado. Para ficar e bater palma pra censura, eu prefiro cair fora”.

À época, em agosto do ano passado, ele denunciou a existência de um controle hierárquico, que o coagia a adequar a produção cultural à visão do governo. Afirmou ainda que tinha conseguido contornar algumas iniciativas, mas que, no caso do edital LGBT, criaram uma situação para não premiá-los. Pouco antes da saída de Pires, Bolsonaro havia anunciado que a Cultura teria um “filtro”.

Adriano Machado / Reuters
Bolsonaro nega censura, mas tem defendido uma seleção com base em questões ideológicas para definir quais projetos serão beneficiados pelo governo.

Esvaziamento da Cultura

A saída de Alvim também expõe a falta de rumo do setor no governo Bolsonaro. Segundo a assessoria do órgão, não se sabe se o Prêmio Nacional das Artes terá continuidade. A concessão da honraria vinha sendo apontada como uma das marcas da gestão de Alvim, que assumiu o posto em novembro do ano passado. Agora, o futuro da premiação é incerto.

A incerteza tem sido uma tônica na área. O governo também se mostrou desnorteado com o futuro da Ancine (Agência Nacional do Cinema). Chegou a anunciar seu fim, com o argumento de que o “poder público não tem que fazer filme”, mas não tirou a ideia completamente do papel. Transferiu a sede do órgão do Rio de Janeiro para Brasília.

Nas mãos de quem deixar a Cultura também tem se demonstrado um problema. Em pouco mais de um ano de governo, a área teve ao menos quatro chefes e foi do Ministério da Cidadania para o guarda-chuva do Ministério do Turismo. Sua estrutura, no entanto, ainda segue perdida. As demandas da imprensa, por exemplo, têm sido direcionadas ainda à assessoria de imprensa da Cidadania.

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