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08/07/2020 08:01 -03 | Atualizado 08/07/2020 08:15 -03

Teste positivo de Bolsonaro para covid-19 abre novo capítulo de debate sobre cloroquina

Presidente disse que sentiu melhora após tomar medicamento sem evidências científicas para tratamento da infecção pelo novo coronavírus.

O diagnóstico positivo para covid-19 anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro abriu mais um capítulo da polarização em relação ao direcionamento que vem sendo dado ao combate à pandemia no Brasil. Bolsonaro trouxe de volta ao debate o uso da cloroquina, medicamento usado para malária, sem evidências científicas para tratamento da infecção pelo novo coronavírus. 

Ao anunciar o resultado do exame, o presidente acrescentou que está tomando hidroxicloroquina e azitromicina e que, graças a esse combinado, já se sente melhor. Tanto cientistas quanto a OMS (Organização Mundial da Saúde) frisam que não há comprovação científica do remédio. O uso sem acompanhamento médico da cloroquina aumenta risco de arritmia cardíaca e complicações cardiovasculares.  

O próprio presidente reconheceu que faltam evidências, mas disse que está dando certo para ele. Em um vídeo publicado no Facebook, ele aparece tomando o medicamento, dizendo: “eu confio, e você?”. ”Sabemos que hoje em dia existem outros remédios que podem ajudar a combater o coronavírus, sabemos que nenhum tem a sua eficácia cientificamente comprovada, mas [sou] mais uma pessoa que está dando certo”, disse. 

 

O presidente é um entusiasta do medicamento. Por determinação do governo, o Exército brasileiro produziu mais de 1,8 milhão de comprimidos de cloroquina. A quantidade é cerca de 18 vezes do que é geralmente produzido em um ano. A propaganda do presidente fez o termo “cloroquina” voltar a ser um dos mais comentados nesta terça-feira (7) nas redes sociais.

Ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, ao desejar melhoras a Bolsonaro, afirmou que “graças ao tratamento com hidroxicloroquina e à força do presidente, ele ficará bem”. 

Segundo o epidemiologista Jamal Suleiman, do Instituto Emilio Ribas, existe a preocupação de que o País volte a um debate que parecia superado. “O presidente volta com um discurso ultrapassado de um medicamento que não tem eficácia nem em doente grave menos ainda em casos que não são graves”, diz. Na avaliação dele, este era um momento para um estadista reconhecer a fragilidade do ser humano diante de uma doença tão disseminada. 

O médico chama atenção para o fato de o presidente ter tirado a máscara para falar com os jornalistas após saber que está com covid-19. “Isso passa uma interpretação errada da doença e é irresponsável. O básico para controle de uma doença respiratória é o isolamento. Bolsonaro não precisava comunicar, poderia ter chamado o porta-voz”, diz. 

Desprezo pela pandemia

O presidente continuou com o comportamento que tinha antes de testar positivo para o novo coronavírus. Nesta semana, Bolsonaro ampliou o veto à obrigatoriedade do uso de máscaras em todo o Brasil. Ele desobrigou o uso do equipamento de proteção em presídios e barrou a determinação para que empresas forneçam máscara aos funcionários. A justificativa dele é que cabe a estados e municípios editar esse tipo de norma ― o que reforça uma resposta heterogênea do País em relação à pandemia. 

Ao longo dos últimos meses, foi comum vê-lo sem o acessório. A cada semana em que o Ministério da Saúde de seu governo anunciava altas taxas da doença, ele saia às ruas, cumprimentava populares e frequentava ambientes que deveriam estar funcionando apenas para delivery, como padarias de Brasília.

Sempre que saia às ruas provocava aglomerações. Multidão que nunca deixou de ser estimulada na porta do Palácio da Alvorada. Ele criou o hábito de conversar com a militância e, mesmo na pandemia, não deixou de fazê-lo. São pessoas que estão na rua, aglomeradas na esperança de falar com o presidente. 

Adriano Machado / Reuters
Em março, o presidente afirmou que devido ao seu “histórico de atleta", caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria se preocupar. 

O fato de o presidente sempre ter minimizado o vírus e ter tratado de forma irônica a pandemia tornou ainda mais difícil uma resposta positiva da população que tem dificuldade em respeitar o isolamento social e em tomar cuidados básicos, como usar a máscara. 

Parte da população insatisfeita com o comportamento do presidente usou as armas dele nesta terça para tratar o resultado do exame. O principal comentário no Twitter é que é que ele vai se recuperar logo porque é só uma “gripezinha”. E se o quadro de saúde do presidente se agravar, não tem problema, é só tomar cloroquina. E se ele morrer, esse é o destino de todos, dizem.

Os comentários refletem palavras usadas pelo próprio presidente para tratar a pandemia. Até no momento em que anunciou que testou positivo, ele tratou a doença com desdém. Afirmou que “esse vírus é quase como uma chuva. Vai atingir você”. Já a parte da população que apoia o presidente tem criticado o comportamento da esquerda e perguntado “cadê o amor” àqueles que desejam a morte de Bolsonaro. 

Ainda em março, quando a política de isolamento começou a ser adotada, Bolsonaro foi à cadeia nacional de rádio de TV dizer que pelo seu “histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar”. “Nada sentiria ou teria. Quando muito, seria acometido por uma gripezinha ou um resfriadinho”, disse. 

Desde então ele tem acusado governadores que optam por políticas de isolamento de serem radicais. Esse choque de informações deixou a população confusa. Uma parte insiste em seguir o que diz o presidente, mesmo com os números em ascensão do coronavírus pelo País. O Brasil é o segundo país com mais diagnósticos confirmados da doença, são 1,6 milhão, e também é o segundo com maior número de mortes, são 65 mil — em ambos os casos, apenas atrás dos Estados Unidos.

O avanço da pandemia foi muito rápido no último mês e o País ainda está longe do pico. No início de junho, o Brasil ocupava o quarto lugar no ranking mundial. Ao longo do mês, ultrapassou Itália e Rússia.A previsão da OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) é que o ápice da pandemia no Brasil será em agosto

O exemplo de Bolsonaro deu munição para que a população fizesse o mesmo. Algumas cidades começaram a reabertura do comércio, como bares e restaurantes, e algumas pessoas se sentiram no direito de desrespeitar as regras. No último fim de semana, um casal no Rio de Janeiro, sem máscara, enfrentou fiscais da vigilância sanitária que estavam trabalhando em prol da saúde pública.