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16/03/2020 05:59 -03 | Atualizado 16/03/2020 07:37 -03

'Neurose', 'histeria' e outros absurdos ditos por Bolsonaro sobre coronavírus

Após sair de isolamento e expor manifestantes em frente ao Planalto, presidente disse à CNN Brasil que há 'interesse econômico' na 'histeria'.

SERGIO LIMA via Getty Images
Contra todas as orientações de infectologistas, Bolsonaro sai do isolamento e cumprimenta apoiadores; Ele fará novo teste do coronavírus nesta semana.

Já são 10 os integrantes da comitiva de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos que tiveram a infecção pelo coronavírus confirmada. Entre eles, o secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, a advogada de Bolsonaro, Karina Kuffa, o senador Nelsinho Trad (PSD-MS), outros membros da equipe e seguranças.

O presidente, cujo resultado deu negativo na última sexta (13), terá que refazer os exames nesta semana, devido ao tempo em que esteve ao lado de Wajngarten na viagem. Até lá, a orientação era de que permanecesse em isolamento.

Ele, no entanto, num ato de extrema irresponsabilidade, desobedeceu a orientação e abraçou e cumprimentou apoiadores em frente ao Planalto neste domingo (15).

À noite, ao se justificar, em entrevista à CNN Brasil, classificou os cuidados e orientações para evitar a disseminação do coronavírus como “histeria” e “neurose” e disse haver, por trás delas, “interesse econômico”.

O coronavírus já matou 5.735 pessoas em todo o mundo. No Brasil, foram confirmados 176 casos pelo Ministério da Saúde no domingo, dobrando o aumento visto nos dois dias anteriores. A expectativa, no entanto, é que haja uma explosão de casos nos próximos dias.

Na Itália, onde mais de 1.800 já morreram, a população está toda em quarentena. O mesmo procedimento foi adotado pela Espanha. A França ordenou o fechamento de bares e restaurantes e a Alemanha fechou suas fronteiras neste domingo. Os Estados Unidos declararam emergência nacional.

Mas, para Bolsonaro, “não podemos entrar numa neurose, como se fosse o fim do mundo”.

A entrevista à CNN Brasil foi recheada de declarações absurdas sobre o coronavírus, inclusive. Veja algumas delas. 

Muitos pegarão isso independente dos cuidados que tomem. Isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Devemos respeitar, tomar as medidas sanitárias cabíveis, mas não podemos entrar numa neurose, como se fosse o fim do mundo.

Para justificar sua atitude deste domingo, Bolsonaro minimiza os cuidados que são orientação do próprio Ministério da Saúde e diz que “muitos pegarão” coronavírus independentemente de seguirem ou não as recomendações. 

É uma realidade. Você vê os metrôs cheios, os ônibus cheios, a barcaça no Rio de Janeiro, Rio-Niterói, estádio de futebol. O carnaval foi uma coisa  inacreditável até o que aconteceu. Agora é um vírus que você vai ter que enfrentar mais cedo ou mais tarde.

O presidente compara as aglomerações da manifestação de domingo com as que o brasileiro enfrenta diariamente. A diferença é que a população precisa usar o transporte público para continuar trabalhando (e mesmo assim, o Ministério da Saúde orientou empregadores a mudarem os horários dos funcionários para diminuir o fluxo no transporte público nos horários de pico).

Bolsonaro também compara as manifestações com o Carnaval, quando ainda não havia orientação para evitar aglomerações. O primeiro caso de coronavírus no Brasil, inclusive, foi confirmado na noite da terça-feira de Carnaval.  

Outros vírus muito mais perigosos e letais aconteceram no passado e não tivemos essa crise toda. Há um interesse econômico envolvido nisso tudo para que se chegue a essa histeria. (...) Em 2009, 2010, teve crise semelhante, mas, aqui no Brasil, era o PT que estava no poder e, nos Estados Unidos, eram os Democratas, e a reação não foi nem sequer perto do que está acontecendo hoje em dia no mundo todo.

Em 2009, a OMS declarou pandemia de contaminação por H1N1, responsável pela gripe suína e países também adotaram severas medidas restritivas. Em outubro de 2009, o então presidente americano Barack Obama também declarou estado de emergência nacional nos EUA por conta da gripe suína.

Certas medidas tomadas por governadores, temos que ver até que ponto vão afetar a nossa economia, que vem, em grande parte, aqui do ‘povão’. Quando você proíbe jogo de futebol, entre outras coisas, você está partindo para o histerismo, no meu entender.

Na Europa, especialmente Inglaterra, França e Alemanha, todos os campeonatos foram cancelados. A UEFA suspendeu, na última semana, jogos da Liga Europa e da Champions League. Nos Estados Unidos, os jogos da NBA também foram cancelados.

Não, não estou preocupado [em ter mantido contato com as pessoas em frente ao palácio]. Eu tomo as minhas devidas precauções.

Entre as principais recomendações do próprio Ministério da Saúde estão evitar aglomerações e evitar cumprimentos com apertos de mãos, abraços e beijos. Além de ignorar todas essas orientações, Bolsonaro ainda quebrou o período de isolamento, já que ainda terá que passar por novos testes, e expôs seus apoiadores ao risco. 

Porque não vai, no meu entender, conter a expansão desta forma muito rígida. Devemos tomar providências porque pode, sim, transformar em uma questão bastante grave a questão do vírus no Brasil, mas sem histeria. A economia tem que funcionar. (...) O desemprego leva pessoas que já não se alimentam muito bem a se alimentar pior ainda, aí vão ficar mais sensíveis, uma vez sendo infectadas, levar até a óbito.

Exemplos de outros países que passaram pela onda de contágio antes do Brasil mostram que onde as regras foram mais rígidas, como Taiwan, Singapura e Hong Kong, houve menos disseminação.