OPINIÃO
25/03/2020 10:53 -03 | Atualizado 25/03/2020 17:26 -03

O tom errado na hora errada: Bolsonaro ignora mortes e vai na contramão da sensatez

'Não pode ser só ignorância. De nada adianta isolar os idosos em casa se, da porta pra fora, o vírus se propaga numa velocidade assustadora.'

Reprodução/ Youtube

A autoridade máxima do país decide fazer um pronunciamento em rede nacional de TV em meio à pandemia decoronavírus que já matou milhares em todo o mundo e que ainda ameaça fortemente sua população:

“Isso é sério. Levem isto a sério também. (…)

Só há uma coisa que podemos fazer, que é retardar a propagação do vírus, esticá-la ao longo dos meses e assim ganhar tempo. Tempo para desenvolver um medicamento e uma vacina. Mas, acima de tudo, tempo para que aqueles que adoecem possam receber o melhor cuidado possível. (…)

Então: o objetivo é retardar o vírus em sua rota. E, ao fazê-lo, temos de contar com uma coisa, que é fundamental: parar, ao máximo possível, a vida pública. Naturalmente, de forma racional e senso de proporção, porque o Estado continuará funcionando, o abastecimento continuará assegurado e queremos preservar o máximo de atividade econômica possível.”

Uma pena que quem assistiu a esse pronunciamento foi o povo alemão, na última semana, e não os brasileiros. A chanceler Angela Merkel falou por 12 minutos à população de seu país: pediu paciência, ressaltou a importância do isolamento e dos esforços de todos. O tom certo na hora certa.

Por aqui, o que nós vimos na noite de ontem em cadeia nacional foi um discurso desequilibrado de Jair Bolsonaro, beirando a loucura.

Num momento em que todos os grandes líderes mundiais defendem o isolamento como forma de frear a rápida expansão do coronavírus, Bolsonaro defende “voltar à normalidade”, diz que governadores devem “abandonar o conceito de terra arrasada, como proibição de transporte, fechamento de comércio e confinamento em massa”. Afirma que a imprensa “espalha o pavor”, “tendo como carro chefe o anúncio de um grande número de vítimas na Itália, um país com grande número de idosos e com um clima totalmente diferente do nosso”.

Como um bicho adestrado, Bolsonaro imita Donald Trump, o único líder que teve o desatino de defender que as pessoas voltem a trabalhar em meio à curva crescente de contágio. Horas antes, Trump havia dito que “a cura não pode ser pior do que o problema”. A declaração foi dada depois de a OMS (Organização Mundial de Saúde) dizer que os Estados Unidos têm potencial para se tornarem o novo epicentro da pandemia de coronavírus.

O discurso de Bolsonaro continua com um show de horrores: “o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos, então por que fechar escolas?”; “raros são os casos fatais de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade - 90% de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine”; “no meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”.

Não pode ser só ignorância. O próprio Ministério da Saúde já explicou incontáveis vezes: de nada adianta isolar os idosos em casa se, da porta pra fora, o vírus se propaga numa velocidade assustadora.

Além disso, o que dizer para a mãe que perdeu o filho por covid-19 sem estar no grupo de risco? Há casos no Brasil.

Aliás, alguém poderia lembrar isso ao presidente, que falou por pouco mais de 4 minutos e não teve a dignidade de endereçar as famílias dos 46 brasileiros que morreram até agora por conta da doença?

O argumento principal tanto de Trump quanto de Bolsonaro é econômico: manter os empregos. E é justo e imperativo pensar estratégias para impactar o menos possível a economia e o sustento das famílias - e esse não é um desafio só aqui.

Realmente, as perspectivas econômicas não são nada boas. E será preciso pôr na balança, nas próximas semanas e nos próximos meses, o custo-benefício das medidas restritivas. Mas essa não é a hora de voltar às ruas - é só ver como estão os países europeus, que estão alguns dias à frente do Brasil na curva de contaminação.

Mais urgente agora é garantir que as pessoas não morram.

Minimizar as possíveis milhares de mortes diante dos enormes impactos econômicos que se avizinham é mais do que irresponsável. É cruel. Quem o faz talvez pense que as mortes ocorrerão longe de seu núcleo familiar e de amigos. Só que o coronavírus já mostrou que não respeita barreiras, nem mesmo as do Palácio do Planalto.

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