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17/04/2020 18:21 -03 | Atualizado 18/04/2020 12:23 -03

O que está por trás do que Bolsonaro chama de 'conspiração' de Maia, STF e Doria

Presidente diz a aliados que existe articulação política contra ele. Interlocutores afirmam ser um “cuidado com as instituições democráticas” e rejeitam ideia de impeachment

Handout . / Reuters
São normais conversas para falar da necessidade de defender a democracia, as instituições democráticas, e fortalecer o papel delas. Presidente chama isso de conspiração. 

Depois de gerar uma nova crise política em torno das ações adotadas pelo ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta na condução da crise do coronavírus e demiti-lo com a escalada de popularidade do antigo subordinado, o presidente Jair Bolsonaro mudou o foco de ataques e, agora, diz que há uma “conspiração” para tirá-lo do poder.

Ele acusa o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o governador de São Paulo, João Doria, e integrantes do STF (Supremo Tribunal Federal) de se articularem contra ele, segundo informações da Folha de S.Paulo

Em nota divulgada pelas redes sociais, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República negou que o presidente tenha um dossiê sobre uma “suposta conspiração contra sua gestão”, como informou o jornal nesta sexta-feira (17).

Desde a intensificação do discurso contrário às orientações do Ministério da Saúde e da OMS (Organização Mundial da Saúde) de isolamento social, cresceu o nível de alerta na cúpula do Legislativo e do Judiciário. Fontes disseram ao HuffPost que há uma preocupação com a democracia no país, diante da possibilidade de que o presidente estivesse estimulando um “caos social” para ter espaço “para implementar um projeto de poder”.  

Bolsonaro defende com falas e atos o fim do isolamento social necessário para não colapsar o sistema de saúde. Seu argumento é de que a crise econômica e os desempregos gerados pelas medidas restritivas terão mais impacto sobre a população que o próprio coronavírus. 

Junto a isso, Bolsonaro eleva o tom contra adversários políticos e, internamente, manda que estados governados por adversários recebam menos dinheiro de benefícios anunciados pelo governo. Nas redes sociais, sua equipe, liderada pelo filho Carlos, segue ativa no combate a todos que discordam de suas ideias e tornam, diariamente, hashtags com ataques aos “inimigos” as mais populares no Twitter. 

O conjunto de ações incisivas e provocações de Bolsonaro, que se tornou um modus operandi de governar já conhecido, é assunto de conversas entre integrantes do Legislativo, Executivos estaduais e Judiciário.. 

São frequentes encontros entre Maia, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), seu vizinho, o presidente do STF, Dias Toffoli, e o ministro do STF Gilmar Mendes. Entre os assuntos, estão a necessidade de defesa da democracia, a atenção ao papel das instituições democráticas e o fortalecimento delas.

Quando em Brasília, João Doria costuma ir a essas reuniões. Outros parlamentares e, por vezes, juristas também participam. Segundo apurou o HuffPost, são jantares e cafés agendados não com objetivo de discutir a postura de Bolsonaro, “mas o tema acaba surgindo”, segundo um dos participantes. 

É a isso que Bolsonaro se refere quando fala de conspiração. 

Interlocutores negam, dizem ser um “cuidado com as instituições democráticas” e rejeitam a ideia de impeachment. A palavra não está “na ordem do dia” de Rodrigo Maia, a quem cabe avalizar o início de um processo como esse na Câmara dos Deputados. 

E não é apenas o presidente da Casa que rejeita o afastamento de Bolsonaro por impeachment. De modo geral, nem mesmo a oposição é a favor disso, apesar de vozes dissonantes falarem no assunto vez ou outra. Acredita-se que é preciso focar na crise do coronavírus. Um processo de impeachment é longo, fruto de enorme crise política e praticamente paralisa o País. Há um entendimento na cúpula dos poderes Legislativo e Judiciário de que o Brasil não precisa disso agora. 

Contudo, em posicionamentos públicos, Maia, Alcolumbre e Toffoli têm atuado de forma conjunta. Não à toa, por exemplo, quando Bolsonaro faz um pronunciamento na TV sobre coronavírus em que os demais poderes são instados a se posicionar, há entre eles uma consonância de discurso.

No dia 24 de março, quando o mandatário elevou o tom, defendeu o fim do isolamento social e a cloroquina, foi Alcolumbre quem soltou uma nota oficial primeiro, já que é sempre Maia quem parte para os embates públicos. É uma atuação pensada e bem dividida entre eles. 

Encontro entre Mandetta e Caiado irritou presidente 

Um encontro em especial irritou Bolsonaro. No último domingo (12), o então ministro Mandetta esteve na fazenda do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, antes aliado fiel do presidente, mas recentemente rompido com ele devido à condução da crise do coronavírus por Bolsonaro. Os dois, que se conheceram na faculdade de medicina e são do mesmo partido — foi pelas mãos do chefe do executivo goiano, inclusive, que Mandetta chegou ao governo federal — falaram da situação política atual. Termos como “antidemocrático” foram usados para se referir a algumas atitudes do presidente. 

Ao saber da visita de seu então ministro da Saúde ao colega de partido, o presidente teria ficado “irado”, segundo relato de interlocutores. Foi ali que Bolsonaro teria decidido que Mandetta deixaria o governo na semana que passou. Isso ocorreu antes mesmo da entrevista que o ex-subordinado concedeu ao Fantástico, da TV Globo, em que lhe mandou vários recados. 

Na época em que houve uma escalada de “militarização” do governo, com a posse do general Walter Braga Netto para a Casa Civil no lugar de Onyx Lorenzoni, tornado a cúpula do Palácio do Planalto toda com formação militar, também ocorreu uma intensificação dessas conversas sobre as instituições democráticas, uma vez que Bolsonaro nunca escondeu seu apreço pela ditadura militar. 

Considerado pelo mandatário como um dos “conspiradores”, Doria disse que “quem agride a Câmara” e o Judiciário “não respeita a democracia”. 

“Transmito minha solidariedade ao poder Legislativo. Quem agride a Câmara agride a democracia. Também transmito solidariedade ao poder Judiciário, em especial ao STF. Quem ataca o Judiciário não respeita a democracia. O governo de São Paulo transmite ao STF e ao Congresso Nacional sua irrestrita solidariedade. Viva a democracia! Vamos defendê-la”, afirmou Doria, em entrevista coletiva na sexta-feira (17).

Porta aberta com presidente do Senado

Apesar de atacar de um lado, Bolsonaro sabe que precisa do Congresso para passar alguns temas de interesse do governo, como a MP verde-amarela, que trata de contratos de trabalho e é uma das prioridades da equipe de Paulo Guedes, ministro da Economia. Além disso, nesta época da pandemia, o Congresso tem se reunido remotamente para analisar uma série de propostas também enviadas pelo governo.

Por isso, o presidente tenta manter uma porta aberta com Davi Alcolumbre, que comanda o Senado. Eles ainda conversam por telefone vez ou outra. Foi, por exemplo, uma ligação de Alcolumbre que convenceu em definitivo Bolsonaro a demitir Roberto Alvim da Secretaria de Cultura em janeiro, após vídeo polêmico em que este mencionou trechos do discurso de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista de Hitler.

Alcolumbre é judeu e, antes mesmo de emitir nota, falou por telefone com o presidente que não aceitaria que o então secretário fosse mantido no governo. Até então, Bolsonaro havia somente chamado a atenção do ex-subordinado, mas não pensava em dispensá-lo.

Já com Maia, Bolsonaro vem implodindo todas as pontes. Em entrevista à CNN nesta quinta (16), voltou a atacar o presidente da Câmara, a quem acusou de “falta de patriotismo” e de “humanismo”. 

“Lamento muito a posição do Rodrigo Maia, que resolveu assumir o papel do Executivo. Ele tem que me respeitar, como chefe do Executivo. Qual o objetivo do senhor Rodrigo Maia? Resolver o problema ou atacar o presidente da República? O sentimento que eu tenho é que ele não quer amenizar os problemas. Ele quer atacar o governo federal, enfiar a faca. Isso que o senhor está fazendo não se faz com o nosso Brasil. Isso é falta de patriotismo, falta de um coração verde e amarelo, falta de humanismo com este País maravilhoso que se chama Brasil.”

A Câmara aprovou a proposta de socorro aos estados e municípios no valor de R$ 89,6 bilhões como forma de compensar as perdas de arrecadação de ICMS e ISS que os entes federados estão tendo diante da pandemia. “Parece que a intenção é me tirar do governo. Quero crer que esteja equivocado”, completou Bolsonaro. 

Nesta manhã, em entrevista a uma instituição financeira transmitida pela internet, o presidente do STF, Dias Toffoli elogiou os presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP), e disse que eles “têm tido uma atuação muito responsável”. 

“Nós não estamos perdendo as premissas da responsabilidade fiscal, isso é importante. O País não está autorizando estados a se endividarem do ponto de vista de lançar endividamento público através de títulos de crédito, como acontecia no passado e gerava descontrole fiscal. O endividamento vai acontecer, mas está sendo feito de maneira coordenada”, afirmou Toffoli segundo registro do jornal O Globo