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21/07/2019 02:00 -03

Visitas frequentes de Bolsonaro ao Congresso são insuficientes para melhorar relação

Apesar da média de uma visita por mês, considerada elevada para um chefe do Executivo, 1º semestre foi marcado por troca de farpas entre governo e deputados.

Adriano Machado / Reuters
Relação de Jair Bolsonaro e do Congresso azedou bastante durante o 1º semestre.

Em pouco mais de sete meses de governo, o presidente Jair Bolsonaro esteve, em média, uma vez por mês no Congresso Nacional, o que é considerado por técnicos do Legislativo um recorde em tão pouco tempo no cargo. Não apenas a frequência das visitas ao outro lado da rua chama a atenção, como também a natureza dos eventos aos quais o chefe do Executivo comparece — incluindo aqueles em que nem mesmo o quórum de parlamentares é alto.

Na última segunda-feira (15), nem 30 deputados participavam da sessão solene em homenagem ao aniversário do Comando de Operações Especiais do Exército Brasileiro no plenário da Câmara. Mas o presidente estava lá, na mesa principal, homenageando a corporação a que já serviu — Bolsonaro é capitão reformado do Exército.

Essa não foi de longe a vez em que ele mais chamou a atenção numa visita ao Congresso. Não eram 9h30 do dia 29 de maio, uma quarta-feira — dia da semana em que as duas Casas Legislativas costumam ter bastante movimento — quando a Polícia da Câmara foi avisada de que o presidente estaria no plenário da Casa em poucos minutos para cumprimentar o humorista Carlos Alberto de Nóbrega, que era homenageado no plenário. Uma movimentação improvisada, embora já ensaiada para ocasiões de idas do chefe de Estado, precisou ocorrer às pressas.

Mais inovadora do que a aparição surpresa daquele dia foi a forma como ela se deu — o que se repetiu: Bolsonaro resolveu atravessar a rua do Palácio do Planalto até o Congresso a pé. Um trajeto de menos de 350 metros, que não durou cinco minutos.

Para efeito de comparação, em seu primeiro mandato, a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) fez a sua terceira visita ao Congresso somente no terceiro ano de governo. Mesmo as dificuldades de diálogo com o Legislativo não eram suficientes para a presidente buscar os parlamentares.

Michel Jesus/Câmara dos Deputados
Bolsonaro prestigia homenagem a Carlos Alberto de Nóbrega na Câmara.

Liturgia do cargo

Segundo aliados, a frequência com que o presidente tem comparecido ao Congresso demonstra uma disposição de conversar e ouvir os parlamentares. Ele intensificou as idas frente às recentes dificuldades de relacionamento enfrentadas com o Legislativo, especialmente ao longo da tramitação da reforma da Previdência.

″É uma forma de dizer com simplicidade e espontaneidade: ‘Pelo amor de Deus, me digam como eu posso melhorar a relação com vocês’. Ele montou ministérios de forma não convencional. Mas vai para dizer que é presidente, está do outro lado da rua, mas segue com o mesmo objetivo. Foi deputado por 28 anos”, destacou o líder do PSL, partido de Bolsonaro, no Senado, Major Olímpio (SP).

“Uma vez baixo clero, sempre baixo clero”, ironizou Randolfe Rodrigues (Rede-AP), para quem as visitas constantes do presidente não são “uma deferência ou homenagem aos parlamentares”.

Apesar da frequência constante no plenário em sessões solenes ou no gabinete do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), entregando projetos — levou pessoalmente a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da reforma da Previdência em 20 de fevereiro, o projeto de lei que altera as normas previdenciárias dos militares um mês depois e outro PL que muda o Código de Trânsito —, a avaliação nos bastidores é que a postura diferenciada de Bolsonaro não soluciona questões “mal-resolvidas com parlamentares”.

“O ex-presidente [Michel] Temer recebia 200 deputados por semana, seja no [Palácio do] Planalto, seja no [Palácio da] Alvorada. Vir ao Congresso mas não se abrir ao diálogo verdadeiro não é uma disposição real, não é demonstração de nada”, afirmou sob condição de anonimato um deputado próximo a Rodrigo Maia, considerado até mesmo por governistas o responsável pela aprovação, em primeiro turno, da PEC da Previdência.

Bate e assopra

Para garantir a aprovação da reforma da Previdência, considerada a principal bandeira da agenda econômica, o governo Bolsonaro liberou na semana da votação R$ 1,5 bilhão em emendas parlamentares, apesar dos discursos constantes do presidente contra o chamado “toma lá, dá cá”.

No fim de junho, ao vetar o trecho que trata de lista tríplice para indicação das presidências de agências reguladoras, Bolsonaro reclamou que o Congresso tem cada vez “mais superpoderes”. “Querem me deixar como rainha da Inglaterra?”, provocou.

Em março, logo no início da tramitação da reforma, Bolsonaro protagonizou um bate-boca com Rodrigo Maia ao tecer seguidas críticas por meio de suas redes sociais, atacando o que seria a “velha política”.

“Os atritos que acontecem no momento, mesmo eu estando calado e fora do Brasil, acontecem na política lá dentro porque alguns, não são todos, não querem largar a velha política”, destacou em 23 de março. Na ocasião, a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), primeira instância onde a PEC da Previdência foi analisada, nem sequer havia sido instalada.

Nos bastidores, Maia demonstrou profunda irritação com as indiretas do presidente ao longo dos últimos meses. Considerado o grande fiador da PEC, avaliava com os mais próximos que já carregava muito desgaste com as articulações da proposta, mas que a tramitação não poderia ficar somente “em suas costas”.

Em discurso na última quarta-feira (10), antes de abrir o painel que revelou o placar do primeiro turno de votação - 379 a 131 votos - Rodrigo Maia chamou para si e para o Parlamento a responsabilidade pela aprovação da PEC.

“O Centrão é essa coisa que ninguém sabe o que é, ‘mas é do mal’. Mas é o centrão que está fazendo a reforma da Previdência, esses partidos que se dizem do centrão”, destacou.

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