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14/09/2019 05:00 -03

'Familiar' e ideológica, estratégia de comunicação do governo se transformou em 9 meses

Presidente promoveu mudanças no Planalto, esvaziou ala militar, acatou sugestões do 02 e, apesar de divergências internas, mantém seu estilo pessoal.

Reprodução/Facebook/@cbolsonaro
Carlos esteve no Holls Royce com o pai na posse e também no 7 de setembro, quebrando os protocolos previstos para ambas as cerimônias.

Vestido dos pés à cabeça de verde e amarelo para ver seu “Donald Trump brasileiro” passar no desfile cívico de 7 de setembro em Brasília, Marconi Rosa, 50, mantém-se atento a tudo que Jair Bolsonaro fala. Contou ao HuffPost que se sente instigado a cada nova frase do presidente. “Quando ele abre a boca, já é conhecimento. Ele provoca você. Te estimula a mais”, disse o entusiasta do presidente da República. 

Há exatamente uma semana, o bolsonarista relatou à reportagem ter se interessado em estudar sobre como a França trata a questão ambiental após os desentendimentos protagonizados por Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron, devido aos incêndios que tomaram a Amazônia desde meados de agosto. 

O mandatário francês acusou o brasileiro de ter mentido sobre as medidas do governo para a preservação ambiental. Macron colocou o assunto como central na reunião do G7. Para o presidente do Brasil, a iniciativa da França visava a uma “intervenção” na Amazônia. Ele usou a rede nacional de televisão para dizer que “incêndios florestais existem em todo o mundo” e “não podem ser pretexto para sanções internacionais”. 

Questionado sobre as falas de Jair Bolsonaro - inclusive as postagens em redes sociais e a polêmica envolvendo a primeira-dama da França, Brigitte Macron - Marconi Rosa completou: ”É bom que ele [Bolsonaro] continue respondendo a tudo que perguntam e se posicionando. Até porque as perguntas da imprensa são provocativas. Se ele ficar calado, ele vira uma marionete. E foi com ele desse jeito que ele chegou lá”.

Débora Álvares/HuffPost Brasil
Marconi Rosa, 50, eleitor de Jair Bolsonaro, no desfile de 7 de setembro de 2019, em Brasília

Eleito com 57,7 milhões de votos, apesar das pesquisas apontarem queda na popularidade — DataFolha divulgado na primeira semana de setembro apontou aumento de cinco pontos percentuais na reprovação a Jair Bolsonaro —, é para eleitores como Marconi que o presidente fala quase diariamente, ao contrário de seus antecessores. 

A postura pode passar um impressão atabalhoada, mas conta com uma estrutura por trás: o filho Carlos e o secretário de Comunicação, Fábio Wajngarten, indicado pelo 02. E, claro, o próprio presidente que, como já disse, ”é o rei do xadrez”. 

Estratégia de comunicação de Bolsonaro 

De repente, desde o início de agosto, Bolsonaro deu início a falas diárias aos jornalistas. Em geral, independentemente do que se pergunta, a pauta é ele próprio quem comanda. Foram poucas as vezes em que o presidente respondeu, de fato, a uma pergunta. “O objetivo era pautar o noticiário. Tanto que, perceba, ele mudava de assunto de repente”, afirmou uma fonte do Palácio do Planalto ao HuffPost. 

Funcionou. As falas, a maioria polêmicas, ocuparam as manchetes do noticiário nacional e, muitas vezes, internacional. 

A estratégia foi sugerida por Fábio Wajngarten, mas desagradou ao porta-voz, general Otávio Rêgo Barros, desvinculado da Secretaria de Comunicação (Secom). Não é segredo para ninguém que Barros e Wajngarten não se dão. 

A “nova mania” do presidente, como se referiu um assessor palaciano às falas diárias de Bolsonaro no Alvorada, acaba “estourando no colo do porta-voz”.

“É ele quem fica com o problema final, que é encarar a imprensa e desmentir quando tem alguma coisa errada, ou quando algo é polêmico demais e merece um esclarecimento, uma ponderação”, completou a fonte. 

Nas páginas do mundo

Foi assim, por exemplo, quando Bolsonaro atacou o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, ao afirmar que ele não iria “querer ouvir a verdade” sobre o desaparecimento de seu pai, Fernando. O mandatário acrescentou que o sumiço não foi provocado pelos militares, mas pelo “grupo terrorista Ação Popular”.

Semanas antes, a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos havia alterado o atestado de óbito de Fernando Santa Cruz e destacou que a morte ocorreu “de forma não natural, violenta e causada pelo Estado brasileiro”.

SIPA USA/PA Images
General Otávio Rêgo Barros é porta-voz de Bolsonaro, mas desvinculado da estratégia de comunicação do governo.

A repercussão negativa foi tamanha que o governo se viu obrigado a uma manifestação formal. Horas depois das falas do chefe, Rêgo Barros assumiu seu lugar no púlpito instalado no segundo andar do Palácio do Planalto e disse que Bolsonaro “expressou sua opinião” ao falar sobre o desaparecimento de Fernando Santa Cruz. 

Em mais uma declaração na frente do Alvorada, essa mais recente, o chefe do Executivo questionou as intenções das ajudas internacionais oferecidas para combater as queimadas na Amazônia. “Macron promete ajuda de países ricos à Amazônia. Será que alguém ajuda alguém, a não ser uma pessoa pobre, né, sem retorno? Quem é que está de olho na Amazônia? O que eles querem lá?”, dando continuidade à polêmica com o presidente da França. A troca de farpas virou notícia mundial.

Conectado nas redes sociais

As redes sociais, claro, são um diferencial no qual o presidente aposta. Enquanto outros partidos ainda estudam estratégias para as próximas campanhas, o PSL de Bolsonaro tem uma estrutura capilarizada, apesar de orgânica, que lhe é fiel. 

Nas últimas semanas a comunicação do Planalto notou insatisfação de parte desse eleitorado com o presidente. Havia uma cobrança de uma defesa mais enfática por parte dele em alguns temas. E também, nos últimos dias, com a escolha de Augusto Aras para substituir Raquel Dodge na PGR (Procuradoria Geral da República).

A comunicação palaciana tem tentado atacar o descontentamento em duas frentes. Uma é por meio de Olavo de Carvalho, a quem o secretário Fábio Wajngarten recorreu para pedir ajuda. Sabe-se que o escritor tem influência sobre as camadas mais extremistas do bolsonarismo. Outra via foi o lançamento da página SecomVc, no Twitter, com a aposta de expor a pauta positiva. 

Mas a grande audiência da rede mesmo são os perfis pessoais, não apenas do presidente, mas de toda a família Bolsonaro. E lá, é cada um por si.  

Quem é próximo “do Jair” afirma de forma categórica: “Não adianta. É o jeito dele e ele não vai mudar”. O eleitor, como Marconi, comemora. O presidente, também. “Ele sabe o que está fazendo”, finaliza amigo de Bolsonaro.

Influência de Carlos

Carlos Bolsonaro nega, mas quem participa do dia a dia no Palácio do Planalto, especialmente da rotina na Secretaria de Comunicação, vê claras influências do 02 nas estratégias adotadas. 

Aqueles que estão perto resumem: quanto mais próximo o filho está, mais o presidente fala, de forma mais enfática. “Sem nunca abandonar o jeitão”, fez questão de ressaltar uma pessoa próxima ao mandatário.

Ainda na campanha eleitoral, em claro tom belicoso, todos sabiam que era o vereador agora licenciado Carlos quem tomava conta da comunicação do pai. 

Passado esse período de Bolsonaro eleito, mais calado, com a equipe sendo montada, teve início a guerra entre o 02 e Gustavo Bebianno, que veio a assumir a Secretaria-Geral da Presidência. Este caiu em menos de cinco meses justamente pelas rixas com o filho do presidente. Os desentendimentos entre os dois foram um dos motivos que impediram Carlos de assumir formalmente a comunicação do governo. 

No início do governo ficou clara a tentativa do filho 02 de sobressair sobre a estratégia comunicacional do pai. Os militares que compunham o governo, porém, conseguiram emplacar no início um ambiente de mais tranquilidade. 

Nos bastidores, e depois explicitamente, olavistas e militares se enfrentavam. Veio a queda do general Carlos Alberto Santos Cruz da Secretaria do Governo em junho. Ele queria, como explicou um auxiliar palaciano, fazer que a Secom, liderada indiretamente por Carlos Bolsonaro, se subordinasse a ele. O substituto, general Luiz Ramos, está focado no relacionamento com o Congresso.

No meio desse troca-troca, a secretaria de imprensa virou um problema. O posto ficou vago até 20 de fevereiro, quando foi ocupado pelo coronel do Exército Alexandre Lara, exonerado em maio. Em seguida, o cargo passou para o jornalista Fernando Diniz. Após divergências com o secretário de Comunicação, ele deixou o posto em menos de um mês para o ingresso do jornalista Paulo Fona, que ocupou a cadeira por uma semana e foi exonerado. 

No Planalto, a saída de Fona foi tratada como demissão, mas Bolsonaro mandou que ele fosse mandado embora devido a críticas de seguidores por sua ligação anterior com MDB, PSDB e PSB. O episódio causou um desgaste para Fábio Wajngarten, que o havia levado para lá. 

Em agosto, por fim, veio uma reviravolta final. O porta-voz, Rêgo Barros, deixou de se reportar à Secom, passando a tratar com a Secretaria de Governo. 

Essa mudança específica na estrutura do Planalto está associada à saída de Santos Cruz e à chegada de Fábio, e ainda à licença do 02 da Câmara dos Vereadores do Rio para acompanhar Jair Bolsonaro no hospital enquanto ele se recupera da cirurgia à qual foi submetido no último domingo (8). É a evidência da tendência de afastamento do núcleo militar e fortalecimento da ala ideológica na comunicação do governo.

“Tudo mostra um alinhamento mais forte da estratégia familiar, muito menos algo planejado pela equipe técnica do Planalto, assessores”, analisou mais uma fonte ao HuffPost.