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17/04/2020 13:33 -03

‘Essa briga de começar a abrir o comércio é um risco que eu corro’, diz Bolsonaro em posse de Teich

Em discurso, presidente orienta novo ministro da Saúde: ‘junte eu e o Mandetta e divida por dois’; Bolsonaro diz ainda que discutiu com Moro reabrir fronteiras.

Andressa Anholete via Getty Images
Jair Bolsonaro na posse de seu novo ministro da Saúde, Nelson Teich.

Na posse do novo ministro da Saúde, Nelson Teich, nesta sexta-feira (17), o presidente Jair Bolsonaro voltou a defender que o comércio reabra as portas e disse ter conversado com o ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, sobre a reabertura de fronteiras. Segundo Bolsonaro, essa defesa é um risco que ele corre e que, se a situação sanitária diante da pandemia do coronavírus se agravar, a responsabilidade recairá sobre ele.

“Essa briga de começar a abrir para o comércio é um risco que eu corro. E se agravar, vem para o meu colo”, disse Bolsonaro, acrescentando que “muita gente já está tendo consciência de que tem que abrir”.

A pressão de Bolsonaro contra o isolamento social — orientação máxima da OMS (Organização Mundial da Saúde) e de cientistas de todo o mundo para conter a disseminação do vírus que já matou mais de 130 mil pessoas - levou à escala de tensão com o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, culminando com sua demissão na quinta-feira.

Tanto no pronunciamento de ontem quanto hoje, o presidente adotou um tom amistoso em relação a Mandetta. Ressaltou, por outro lado, que o dia da substituição no Ministério da Saúde era um “dia de alegria”.

“Aqui não tem vitoriosos nem derrotados. A História lá na frente vai nos julgar e eu peço a Deus que nós dois [ele e Mandetta] estejamos certos lá na frente”, disse Bolsonaro.

O presidente disse ter “certeza” de que Mandetta “fez o que achava que tinha que ser feito”, até porque ele afirmou ter dado “liberdade aos ministros para buscar o melhor para o Brasil por meio do seu ministério”.

“Tenho certeza que ele [Mandetta] sai com a consciência tranquila. Então por que substituí-lo? É uma decisão minha um pouco diferente do ministro, que está focado no seu ministério. A minha visão tem que ser mais ampla. Os riscos maiores, logicamente, estão sob minha responsabilidade. Eu tenho o dever de decidir, eu não posso me omitir, eu tenho que buscar aquilo que, segundo o povo que acreditou em mim, deve ser feito”, afirmou.

Bolsonaro completou que “em um time, de vez em quando alguns jogadores são substituídos”. “Por vezes, por cansaço, por vezes, naquele jogo, porque a partir daquele momento a gente precise modificar o placar. Não é demérito para ninguém neste momento, e todos torcem pelo time chamado Brasil.”

EVARISTO SA via Getty Images
Bolsonaro e Mandetta brincam na cerimônia de posse do novo ministro, após escalada de tensão das últimas semanas. Apesar de discurso amistoso, presidente não poupou ex-ministro de alfinetadas.

Ao novo ministro, deu o recado de que continua pregando o fim das restrições de circulação de pessoas: “Desde o começo eu tinha uma visão - e ainda tenho - de que nós devemos abrir o comércio, porque o efeito colateral do combate ao vírus não pode ser, no meu ponto de vista, mais danoso que o próprio remédio”.

Bolsonaro recomendou que o novo ministro “junte” o que ele defende e o que Mandetta defende “e divida por dois”. “Pode ter certeza que você vai chegar àquilo que interessa para todos nós: vencer a pandemia e deixar o Dr. Paulo Guedes [ministro da Economia] para solucionar as consequências de um povo sem dinheiro, sem salário e quase sem perspectiva em função de uma economia que está sofrendo sérios reveses.”

O presidente acrescentou que o sucesso de Teich no ministério “poupará vidas e pessoas que possam ser jogadas ao desemprego e poderá, no nosso entender, buscar uma alternativa a isso”.

Segundo Bolsonaro, ele conversou com Moro sobre a possibilidade de começar a reabrir fronteiras, enquanto o Brasil ainda vê sua curva de casos de covid-19 e de mortes crescer. 

O presidente deu os exemplos das fronteiras com o Paraguai e com o Uruguai. “A gente pergunta: por que [a fronteira] está fechada, se é uma fronteira seca e não temos como fiscalizá-la? Se for escrever alguma coisa, é para ser cumprido.”

No que depender de mim, nenhum cidadão seria preso por descumprir o isolamento.

Críticas a governadores

Bolsonaro usou a oportunidade para criticar também, indiretamente, os governadores do Rio, Wilson Witzel, e de São Paulo, João Doria. No Rio, Witzel determinou que a Polícia Militar dê voz de prisão a quem não cumprir isolamento. Em São Paulo, Doria disse que poderia tomar decisão semelhante.

“Essas prisões mais que ilegais atingem a alma de cada cidadão brasileiro. Não podemos admitir isso. Não vou pregar a desobediência civil, mas medidas como essas têm que ser rechaçadas por todos nós”, disse Bolsonaro.

“Aquelas cenas de prender mulheres na praia, em praça pública, ou um cidadão também bastante forte sendo jogado no chão, colocado de algemas, eu não consigo entender isso aí”, disse.

Ele, contudo, reconheceu que “não pode intervir em muita coisa”, porque o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que a competência sobre isso é dos estados e municípios.

“No que depender de mim, nenhum cidadão seria preso no Brasil por causa disso”, disse. “[Mas] Vamos respeitar as decisões dos Supremo, porque estamos numa democracia.”