POLÍTICA
05/04/2019 08:23 -03

Abraços e desculpas por 'caneladas': Bolsonaro recebe líderes, mas partidos querem mais

"Tem que ter essa interface com a liderança, falar francamente e deixar de discutir ideologia", diz líder do PSD no Senado.

Marcos Corrêa/PR B
"Sou médico ortopedista e disse ao presidente ‘faça com anestesia porque, com dor, todo mundo vai gritar'", brincou Otto Alencar, líder do PSD no Senado.

Distante da articulação política durante os 3 primeiros meses de mandato, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) deu o primeiro passo na quinta-feira (4) para melhorar o diálogo com o Congresso. Bolsonaro, que foi deputado federal por 28 anos, recebeu no Planalto presidentes de partidos como DEM, MDB, PSDB e PSD em busca de apoio para a reforma da Previdência.

Apesar de reconhecerem o esforço, parlamentares da base, no entanto, ainda pedem ajustes no relacionamento. Após as reuniões, apenas o presidente do DEM, ACM Neto, mostrou mais abertura em consolidar apoio ao governo. 

Nos encontros, o presidente prometeu criar dois conselhos políticos, com reuniões mensais, segundo relatos dos presentes. Um grupo contaria com Bolsonaro, presidentes das legendas e o ministro Onyx Lorenzoni. E outro com os dois integrantes do Executivo e líderes no Congresso.

As agendas têm uma importância simbólica, diante da resistência do presidente ao que chama de “velha política”. Diferente do antecessor, Michel Temer, Bolsonaro não recebe parlamentares com frequência. Deputados do próprio PSL, sigla de Bolsonaro, relatam que não têm acesso a ele desde antes do segundo turno.

Segundo o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que participou de todos os encontros com os líderes partidários, Bolsonaro se desculpou “por uma canelada aqui e acolá”.

“Todos concordaram que é momento de passar por cima das nossas diferenças, passar por cima do que aconteceu durante o período eleitoral. O presidente, com a sua humildade, se desculpou por uma canelada aqui e acolá. E a gente vai conseguir uma coisa que é muito importante, unir todos que são verde e amarelo a favor do Brasil”, afirmou.

Ao lado de Kassab na reunião no Palácio do Planalto, o líder do PSD no Senado, Otto Alencar (PSD-BA), brincou com a situação. “Sou médico ortopedista e disse [ao presidente] ‘faça com anestesia porque, com dor, todo mundo vai gritar’. Essas relações políticas têm que ter harmonia, respeito, linguagem parlamentar”, afirmou a jornalistas.

Na avaliação do senador, a aproximação de Onyx com parlamentares é um ponto positivo. Desde a semana passada, o ministro tem se dedicado a reuniões no Congresso. Nesta semana, ele foi à liderança do governo no Senado.

“Tem que ter essa interface com a liderança, falar francamente e, de alguma forma, deixar de discutir ideologia - saber se foi revolução ou golpe, porque ninguém está interessado em saber isso, cada um tem sua consciência - e discutir as coisas importantes”, completou Alencar, em referência à negação, por Bolsonaro e membros de seu gabinete, ao golpe militar de 1964.

O clima na véspera das reuniões era de apreensão entre os presidentes dos partidos, devido à postura de Bolsonaro de ataques aos políticos. No início de março, ele reclamou de “pressões enormes da velha política”, após encontro com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), em um episódio no início da série de troca de farpas entre os dois.

Para governistas, liberar a indicação de cargos no Executivo em troca de votos no Parlamento é a principal crítica ao modelo de articulação dos poderes até o momento. Segundo Bolsonaro, o assunto não foi tratado nas reuniões desta quinta.

Na próxima semana, Bolsonaro deve se encontrar, no Planalto, com líderes de mais 6 partidos: Avante, Novo, Solidariedade, Podemos, PR e PSL.

 

Artilharia solitária na Câmara

A atuação inexpressiva de governistas no debate com o ministro da Economia, Paulo Guedes, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, foi vista como resultado da falta de articulação de líderes do governo.

Sem mobilização da base, o economista ficou exposto a críticas da oposição durante a maior parte das sete horas de audiência pública, na última quarta-feira (3).

Na avaliação do deputado Alceu Moreira (MDB-RS), titular na CCJ e favorável à reforma, o episódio foi fruto da inexperiência dos líderes do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), e no Congresso, Joice Hasselman (PSL-SP).

“Se tivesse um líder mais antigo, saberia que tinha que construir com bons debatedores para dar conforto ao ministro. Não fizeram isso. Confiaram em quem ia estar lá e deu no que deu”, afirmou à reportagem.

O parlamentar destaca não ter havido orientação do governo antes da reunião. “Cada deputado tem sua agenda. Se eles [líderes] não coordenam isso e com a relação que o governo têm, que não é via bancada, acaba não tendo essa articulação tão fácil assim”, completou.

Apesar de Guedes ter sido sabatinado praticamente só pela oposição e deixado a audiência após vários momentos de tensão, Bolsonaro celebrou nas redes sociais sua ida à CCJ. “Ao ser provocado, Paulo Guedes dá choque de realidade na esquerda”, escreveu o presidente ao postar um vídeo no qual o ministro cobra os parlamentares da oposição sobre cortes de privilégios nos governos anteriores.

Sem garantias de votos pela Previdência

No primeiro movimento junto a parlamentares para aprovar a reforma da Previdência, Bolsonaro se reuniu nesta quinta, ao lado do ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil), com Gilberto Kassab (PSD), Geraldo Alckmin (PSDB), ACM Neto (DEM), Ciro Nogueira (PP) e Romero Jucá (MDB), mas não há apoio integral da base à PEC.

O presidente do PSD, Gilberto Kassab, negou que irá fechar questão, decisão partidária que permitiria punições a quem votasse contra o texto. “O partido tem uma posição muito clara com a sua independência em relação ao governo, essa posição continuará”, disse Kassab a jornalistas após a reunião no Planalto.

O presidente do PSDB, Geraldo Alckmin, também reforçou que a sigla é contra a redução do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e a idade mínima igual para homens e mulheres na aposentadoria rural.

Os dois partidos fazem parte de um grupo de 13 siglas que assinou no final de março uma declaração parcial de apoio à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que muda as regras de aposentadoria.

Além de serem contra alterações no BPC e na previdência rural, os deputados também são contrários à proposta do governo de retirar as principais regras sobre o tema da Constituição. Isso facilitaria futuras alterações, que seriam feitas por leis complementares, o que exige um número menor de apoio no Congresso.

Para aprovar a PEC, são necessários 308 votos, em dois turnos, na Câmara. Se aprovado, o texto segue para o Senado. O parecer da reforma deve ser votado na CCJ da Câmara até 17 de abril. De lá, segue para análise em uma comissão especial, antes de ir para o plenário.

Antonio Cruz/ Agência Brasil
O presidente do PSDB, Geraldo Alckmin, reforçou que a sigla é contra a redução do BPC e novas regras da aposentadoria rural.