POLÍTICA
20/05/2019 17:06 -03 | Atualizado 20/05/2019 17:14 -03

Em evento para empresários, Bolsonaro diz que o problema do Brasil é a classe política

Presidente participou de evento para empresários na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), nesta segunda-feira (20).

Ricardo Moraes / Reuters
Bolsonaro também afirmou que “não há briga entre Poderes, o que há é uma grande fofoca”, que por vezes inviabiliza e atrasa o Brasil.

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta segunda-feira (20) que a classe política é o grande problema que impede o Brasil de dar certo, acrescentando que algumas pessoas querem mais do que apenas conversar, em declaração que pode desagradar parlamentares no início de uma semana crucial para o governo no Congresso.

Bolsonaro criticou a classe política, na qual se incluiu, em discurso a empresários na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) dias após ter compartilhado um texto anônimo que classifica o país como “ingovernável fora de conchavos”.

Ao afirmar que Câmara dos Deputados e Senado devem colocar em votação projetos que considerarem melhores do que aqueles enviados pelo Executivo, o presidente afirmou: “O que eu mais quero é conversar, mas sei que tem gente que não é apenas conversar”.

Bolsonaro também afirmou que “não há briga entre Poderes, o que há é uma grande fofoca”, que por vezes inviabiliza e atrasa o Brasil.

″É um país maravilhoso que tem tudo para dar certo. Mas o grande problema é a nossa classe política. Somos nós, Witzel, somos nós, Crivella, sou eu Jair Bolsonaro, é o Parlamento, em grande parte, é a Câmara Municipal, a Assembleia Legislativa. Nós temos que mudar isso”, afirmou o presidente, ao lado do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), e do prefeito da capital fluminense, Marcelo Crivella (PRB).

Segundo Bolsonaro, a maior contribuição que os governantes e parlamentares podem dar aos empresários é “não atrapalhar” diante do que chamou de enorme burocracia e das dificuldades existentes no país.

As declarações do presidente sobre a classe política vêm num momento em que o governo coleciona derrotas no Congresso e no início de uma semana decisiva, em que o Planalto precisará conquistar votos no Parlamento para impedir que medidas provisórias importantes percam validade.

Sobre o andamento da reforma da previdência

Ricardo Moraes / Reuters
O presidente Jair Bolsonaro ao lado do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC).

Bolsonaro também aproveitou o discurso aos empresários para destacar a importância da aprovação da reforma da Previdência, que disse ser “salgada para alguns”, mas que combaterá privilégios.

“Não podemos desenvolver muita coisa por falta de recursos. Por isso precisamos da reforma da Previdência”, afirmou. “Não dá para continuar mais o Brasil com essa tremenda carga nas suas costas. Se não fizermos isso, em 2022, 2023, no máximo 2024, vai faltar recursos para pagar quem está na ativa”, disse.

No entanto, apesar da importância destacada pelo presidente, a tramitação do projeto tem preocupado os investidores, que consideram haver uma falta de articulação política do governo para fazer o projeto avançar.

Em um novo sinal de problemas na interação do governo com o Congresso, o presidente da comissão especial da Reforma da Previdência, Marcelo Ramos (PR-AM), disse também nesta segunda-feira que o governo não consegue construir maioria para liderar o processo, mas que o país não pode ficar refém disso e o Congresso vai fazer a reforma andar independentemente do governo.

Ramos já havia afirmado na semana passada que a Câmara dos Deputados irá assumir a dianteira das negociações e produzirá um novo texto, a partir de emendas apresentadas e da proposta original.

Questionado se Bolsonaro apoia a intenção do Congresso de apresentar um novo texto para a reforma da Previdência, o porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, reiterou que o presidente considera a proposta enviada pelo governo como a melhor, mas que está aberto a negociações com o Congresso.

“A proposta que o presidente identifica como a melhor proposta é aquela que ele já elevou ao Congresso Nacional. Não obstante, ele se coloca parceiro nesse processo de discussão e de avaliação para juntos, Congresso e Poder Executivo, darmos um andamento àquilo que vai tirar o Brasil de um precipício que muito rapidamente se aproxima”, disse.

A reação da Câmara dos Deputados

EVARISTO SA via Getty Images
Maia também aproveitou para tecer críticas ao que chamou de “radicalismos”, que se sobrepoem ao diálogo no governo.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou nesta segunda-feira que o Parlamento é a Casa do diálogo e a garantia da democracia e das instituições, em um momento em que o Congresso tenta se colocar como protagonista político diante da inabilidade do governo de Jair Bolsonaro em articular a aprovação de medidas no Legislativo.

Um dos fiadores da reforma da Previdência, Maia, assim como o chamado centrão e o Congresso, de uma maneira geral, vêm sinalizando ao governo que precisará dialogar com parlamentares se quiser ver suas medidas aprovadas.

Ao receber do presidente da OAB Nacional, Felipe Santa Cruz, nesta segunda-feira, um estudo sobre pacote anticrime apresentado pelo governo, Maia afirmou que a atitude é uma “sinalização clara que o Parlamento brasileiro é a Casa do diálogo, a Casa da representação da sociedade, da garantia da nossa democracia, garantia das instituições”.

Maia também aproveitou para tecer críticas ao que chamou de “radicalismos”, que se sobrepoem ao diálogo.

“Principalmente nas redes sociais, aonde quem está no extremo tem mais espaço para aparecer do que aquele que quer construir consensos, como é o natural em uma democracia.”

O presidente da Câmara defendeu ainda a prerrogativa do Legislativo de discutir e modificar, se for o caso, as propostas encaminhadas à Casa.

“Aqueles que entendem que aquilo que chega ao Parlamento não precisa ser debatido, muitas vezes até rejeitado, se a proposta não for boa, são aqueles que entendem que apenas uma parte da sociedade tem direito de participar dos debates e da construção das soluções para o nosso país.”

O presidente da comissão especial da reforma da Previdência, deputado Marcelo Ramos (PR-AM), já havia adiantado na sexta-feira que a Câmara irá assumir a dianteira das negociações sobre o tema e produzirá um novo texto a partir das emendas apresentadas e da proposta original.

Maia tem articulado, apoiado pela maioria dos líderes da Câmara, uma atuação do Congresso mais descolada do governo, sem que a Casa deixe de fazer a sua parte. O deputado também não perde a oportunidade de deixar clara sua posição favorável à reforma da Previdência e à agenda econômica do ministro Paulo Guedes.

Na sexta-feira, o presidente da Câmara disse que anunciará nesta semana ou na seguinte uma agenda “muito racional, muito objetiva” de reestruturação do Estado, em parceria com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e “sem ficar olhando para a internet”.

Nesta segunda, no encontro com o presidente da OAB, afirmou que o Estado brasileiro vive uma crise “muito aguda” desde a Constituição de 1988, quando corporações privadas e públicas “foram capturando o Orçamento público federal”.