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11/08/2019 02:00 -03 | Atualizado 11/08/2019 09:28 -03

O que acontece quando um ‘negador da ciência’ se torna presidente

“Os negadores da ciência sempre estiveram por aí. Essas pessoas não aumentaram de volume, mas — com o presidente — ganharam mais autoconfiança.”

Adriano Machado / Reuters

Para o presidente Jair Bolsonaro, a preocupação com o meio ambiente é “psicose” e os dados sobre o desmatamento no Brasil são “mentirosos”.

A relação do presidente com a Ciência causa certa apreensão desde a época da campanha, mas tem se intensificado com as suas últimas declarações.

Na sexta (9), ele chegou a sugerir que um repórter fizesse “cocô um dia sim, um dia não” para diminuir o impacto ambiental.

No entanto, existe um grupo específico de influenciadores digitais que vem se organizando principalmente nas redes sociais para apresentar contra-argumentos aos discursos do presidente.

Para os divulgadores científicos ouvidos pelo HuffPost Brasil, as falas de Bolsonaro legitimam ideias como a da terra plana e a de que o aquecimento global seria uma invenção de ambientalistas.

No entanto, para eles, o presidente se torna um alvo fácil de desconstrução quando decide questionar fatos tão básicos quanto a importância de manter as florestas para a melhoria do agronegócio no País.

“Os negadores da ciência sempre estiveram por aí. O fato é que agora um deles se tornou o presidente, e não o contrário. Essas pessoas não aumentaram de volume, mas ganharam mais autoconfiança”, analisa Paulo Pedrosa, biólogo e autor do livro Darwin sem frescura.

Há 9 anos, Pedrosa, mais conhecido como Pirulla, ajuda a divulgar dados científicos no Youtube e no Instagram. 

Em seu canal, onde tem mais de 800 mil inscritos, ele trata de temas como o debate se existe ou não uma ideologia de gênero, explica como acontece a evolução das espécies e quais são as influências da religião na ciência. 

Pirulla diz que sempre recebeu críticas dos chamados negacionistas quando apresentava dados sobre aquecimento global, por exemplo.

Porém, em sua opinião, o grupo de pessoas que defende que a Terra é plana é o único que tem aumentado consideravelmente nos últimos dois anos. Uma pesquisa do Datafolha feita em julho de 2019 monstrou que 7% dos brasileiros acreditam que a Terra é plana.

Para o divulgador científico, esse crescimento não pode ser ligado diretamente à eleição de Jair Bolsonaro, mas faz parte de um movimento que é anterior ao próprio presidente.

“Existe um movimento negador da Ciência que já se perpetua em todo o mundo. Eu me preocupo muito mais com o impacto das ideias de Olavo de Carvalho, por exemplo. Acompanho ele desde 2012 e, em 2014, sinalizei que ele estaria começando um movimento importante. As pessoas riram de mim e me disseram que ele era um velhinho lunático”, diz.

O efeito Olavo de Carvalho no governo

Carvalho, tido como “guru ideológico” do governo Bolsonaro, já recebeu elogios do presidente e nos primeiros meses deste ano protagonizou conflitos entre as alas militares e seus seguidores no governo.

Filósofo conservador, em seus cursos e redes sociais, o “guru” já acusou Isaac Newton de “espalhar burrice” e chamou a teoria da evolução de Charles Darwin de “tosca” e “confusa”.

Para Estevão Slow, divulgador científico no Canal do Slow, ao se aproximar de Olavo de Carvalho, o governo Bolsonaro passou a validar um discurso “obscurantista e anti-iluminista”. 

Questionar metodologias faz parte do método científico. O problema é quando esse questionamento tem uma base política e não científica.Estevão Slow, divulgador científico

“Parece que existe uma guerra cultural para se fazer valer certas ideias esdrúxulas. E eu me questiono o quanto desse movimento de desinformação é intencional ou não para confundir as pessoas”, diz.

Segundo Slow, os discursos anti-científicos ganham ainda mais força na internet, em que “todo mundo pode ter uma voz”. 

“A internet é nova e deu muito espaço para muita gente. Mas às vezes, são opiniões sem qualquer embasamento científico, simplesmente porque ‘é legal ser do contra’”, analisa.

De acordo com Slow e Pirulla, muitas pessoas que acessam os vídeos no Youtube e no Instagram não têm conhecimento sobre alguns fatos científicos e acabam se informando nos canais. 

“As pessoas têm dificuldade em entender o funcionamento das coisas. É díficil, por exemplo, compreender a evolução das espécies”, explica Slow. 

O ataque aos dados e à produção científica

Ao questionar a Ciência e colocar a fala do presidente acima da de especialistas, o governo cria um “estardalhaço” para que que os bolsonaristas repercutam a desinformação.

Essa é a leitura de Leonardo Carvalheira, biólogo e apresentador do canal Dispersciência. 

“Existe um padrão de comentários em temas como o formato da terra e as mudanças climáticas. Há uma enxurrada de críticas aos dados científicos e a gente questiona se existem grupos articulados para atacar a divulgação de dados que vão contra as posições do governo, por exemplo”, reflete Carvalheira. 

Na tentativa de combater a desinformação, os divulgadores científicos se uniram para fortalecer o selo Science Vlogs Brasil, uma espécie de “atestado de qualidade científica” que é atribuído aos de canais no Youtube.

Especialistas influentes, como o médico Drauzio Varella, se uniram ao movimento para divulgar os conteúdos produzidos pelos canais que fazem parte do selo. 

″É um movimento de resposta que estamos tentado articular para que as falas do presidente que firam os dados científicos tenham sempre um contra-argumento disponível para o público”, explica Carvalheira.

Mais do que os ataques online, no entanto, preocupa aos divulgadores científicos a situação de cientistas no Brasil.

Para Pirulla, há um sentimento de descrédito da Ciência que atinge as instituições, como as universidades, e coloca os pesquisadores em uma posição delicada.

“Agora, quem produzir dado científico que for discordante do governo será alvo de autoritarismo?”, questiona.

O que pensa o presidente

A opinião de Bolsonaro em relação à Ciência se tornou mais evidente nos últimos dias nos discursos sobre meio ambiente. Ao falar sobre aquecimento global, o presidente diz, às vezes em tom irônico, acreditar nos dados da Ciência

“Eu acredito na ciência e ponto final. Agora o que que a Europa fez para manter as suas florestas, as suas matas ciliares? O que que eles fizeram? Querem dar palpite aqui?”, afirmou o presidente. 

Em outro momento, Bolsonaro se declarou “defensor do meio ambiente”, mas não de uma forma “xiita”. O presidente também questiona a atuação de pesquisadores e instituições em defesa das pautas ambientais.

“Não vou admitir mais Ibama sair multando a torto e a direito por aí, bem como ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). Essa festa vai acabar”, declarou.

Ele também tem brigado com os dados de desmatamento. Recentemente,disse que os números do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) sobre desmatamento são incorretos. 

O sistema do Inpe é reconhecido mundialmente, com monitoramento diário de desmatamento e detecção de queimadas.

Na ocasião, o presidente afirmou que deseja “preservar o meio ambiente mas não vamos entrar na psicose ambiental”.