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19/03/2020 15:22 -03 | Atualizado 19/03/2020 16:48 -03

Ofendido com resposta chinesa ao filho, Bolsonaro quer retratação

Após Eduardo Bolsonaro culpar a China pela pandemia de coronavírus, governo teme retaliações em âmbito comercial e em negociações para auxílio no combate à covid-19.

POOL New / Reuters
Presidente chinês, Xi Jinping, esteve em Brasília em novembro do ano passado para os BRICS. 

Integrantes do governo brasileiro estão preocupados com o efeito das acusações do deputado Eduardo Bolsonaro contra a China sobre a pandemia de coronavírus. Ninguém sabe ao certo o que esperar após as respostas contundentes do embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, que exigiu retratação e disse que as declarações do filho 03 “vão ferir a relação amistosa China-Brasil”.

Segundo o HuffPost Brasil apurou com fontes do governo, o principal temor é de retaliações no nível econômico. A China é o país com o qual o Brasil tem mais superávit comercial.

Mas há ainda o receio de suspensão da ajuda que estava em negociação no âmbito sanitário, relacionada ao coronavírus, pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. 

Eduardo retuitou, na noite de quarta, uma postagem que dizia que “a culpa pela pandemia de Coronavírus no mundo tem nome e sobrenome. É do Partido Comunista Chinês”. O deputado federal e filho do presidente ainda acrescentou: “Quem assistiu Chernobyl vai entender o q ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. +1 vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas q salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução”.

O perfil da Embaixada da China no Brasil, por sua vez, respondeu que Eduardo, “ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infectando a amizades entre os nossos povos”.

A postagem de Eduardo acabou virando uma crise de proporção tamanha que o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi acionado nesta quinta (19).

O presidente Jair Bolsonaro sentiu-se ofendido porque a Embaixada da China no Brasil retuitou não só as respostas do diplomata chinês a Eduardo, como também algumas repercussões dela na rede social, todas de opositores ao governo, como da cineasta Petra Costa. 

Contrariado, o mandatário exigiu uma reparação. Ernesto então procurou Yang Wanming para transmitir o descontentamento brasileiro e, em seguida, emitiu uma nota na qual afirma que houve “ofensa” ao chefe de Estado do Brasil e que as postagens de Eduardo “não refletem a posição do governo brasileiro”. 

“Cabe lembrar, entretanto, que em nenhum momento ele [Eduardo] ofendeu o Chefe de Estado chinês”, escreveu Araújo. “A reação do Embaixador foi, assim, desproporcional e feriu a boa prática diplomática”, destaca o texto do chanceler. 

“Temos expectativa de uma retratação por sua repostagem ofensiva ao Chefe de Estado”, diz Araújo.

Pouco depois foi a vez de Eduardo Bolsonaro também emitir uma nota em suas redes sociais para amenizar o princípio de uma crise diplomática provocada por ele mesmo. 

Segundo escreveu, sua “intenção, mais uma vez, nunca foi a de ofender o povo chinês ou de ferir o bom relacionamento existente entre os nossos países”. 

“Não creio que um tweet isolado de um parlamentar levantando questionamentos sobre a conduta de um governo estrangeiro tenha condão para tanto”, acrescentou”

“Não desejamos problemas com a China e certamente, o país asiático também não busca conflitos com o Brasil.”

A Embaixada da China, longe de responder diretamente o governo mencionando o ocorrido, repostou um vídeo do ministro Mandetta de fevereiro, em que ele fala sobre a importância de não tratar chineses com preconceito na questão do coronavírus. 

 À Folha de S.Paulo, o vice-presidente Hamilton Mourão ressaltou que a opinião de Eduardo Bolsonaro não reflete o pensamento do governo. 

“O Eduardo Bolsonaro é um deputado. Se o sobrenome dele fosse Eduardo Bananinha não era problema nenhum. Só por causa do sobrenome. Ele não representa o governo”, disse à Folha. “Não é a opinião do governo. Ele tem algum cargo no governo?”

As insinuações feitas por Eduardo, contudo, fazem parte da rotina de conversas do clã bolsonarista desde o surgimento das primeiras notícias sobre o vírus e se intensificaram nas últimas semanas. 

Meses após o retorno da viagem, porém, não é uma postura pragmática que se vê no núcleo mais próximo ao presidente Jair Bolsonaro. Segundo amigos, em trocas de mensagens do próprio presidente, ele tem endossado as teorias que o filho esboçou nas redes sociais. 

Para os chineses, esse tipo de insinuação não só é desrespeitosa - e foi esse o tom dado pelo embaixador Yang Wanming -, como vai na contramão do que os quadros técnicos do governo vem afirmando. O próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, já havia desautorizado culpar qualquer país pela pandemia. 

Medo de retaliações

Nos bastidores, a diplomacia brasileira está temerosa e impressionada com o tom dado, tanto na nota do chanceler brasileiro, quanto pelo “rompante” de “irresponsabilidade” do filho do presidente. 

Avaliações destacam que embates deste tipo, com Eduardo - que não bastasse ser filho do mandatário, é o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara - desgastam muito a relação e “que a China já teve muita paciência”.

Do lado da saúde, vinha sendo negociado pelo ministro Mandetta o envio de equipamentos hospitalares utilizados no tratamento da covid-19 em estágio avançado, como máscaras e respiradores. A China é um dos poucos países que têm se oferecido no auxílio aos demais. Semana passada, Pequim enviou uma equipe médica à Itália, onde o número de mortos passa de 3,4 mil. 

Sobre questões econômicas, teme-se embargo a produtos brasileiros. A China é atualmente o maior parceiro comercial do Brasil. Em 2019, o país asiático importou US$ 63,35 bilhões em produtos brasileiros. Em outubro, Jair Bolsonaro esteve por lá numa tentativa de demonstrar que o discurso ideológico da campanha, quando disse que a China estava “comprando o Brasil” havia ficado de lado, e que prevaleceu o pragmatismo. 

Na ocasião, acordou-se investimentos chineses no Brasil. A ministra da Agricultura, Teresa Cristina, que acompanhou Bolsonaro na ocasião, acertou também vários negócios com o país. De acordo com interlocutores do Planalto, estavam em andamento conversas para exportação de excedentes agrícolas.