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24/10/2019 12:41 -03

Depois de criticar a China, Bolsonaro chega ao país asiático para buscar investimentos

Presidente quer pacificar mal-estar. Na campanha, então candidato disse que a China estava “comprando o Brasil”.

José Dias/PR
Presidente Jair Bolsonaro conversa com a Imprensa antes da cerimônia de entronização do Imperador do Japão

Depois de ter criticado a China na campanha eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro desembarca nesta quinta-feira (24) no país asiático com objetivo de apaziguar o mal-estar e mostrar disposição do Brasil em abrir as portas ao aliado comercial. 

No centro, está o setor agrícola, protagonista em negócios com os chineses com a soja. Há espaço ainda para a carne, minério de ferro, petróleo e intenção de diversificar os investimentos.

A ministra da Agricultura, Teresa Cristina, chegou antes ao país para reuniões prévias aos encontros de Jair Bolsonaro. Ela negocia exportações de frutas brasileiras e se dispôs a elevar a quantidade de frigoríficos que hoje podem vender carne para a China, além de trabalhar para liberar as exportações de farelo de soja. 

O ministro de Infraestrutura, Tarcísio Gomes, disse ao HuffPost que a ministra ”é a craque do governo” e que o País não poderia estar melhor representado. 

Apesar de transporte, área de Tarcísio ser contemplada na viagem, e da passagem do presidente pelo país asiático contar com um jantar com grandes empresários chineses e brasileiros, oferecido pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, e um encontro empresarial organizado pela Apex Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), nem o ministro da Infraestrutura, nem o da Economia, Paulo Guedes, estão na comitiva presidencial.

Um tema sobre o qual havia expectativa, mas não será abordado nas conversas oficiais é a tecnologia 5G. Por outro lado, energias renováveis podem também entrar no ramo das relações bilaterais a serem definidas antes da partida de Bolsonaro ao próximo destino, Abu Dhabi.  

A agenda de Bolsonaro de sexta (25) prevê encontro com o presidente da China, Xi Jiping, assinatura de atos e posterior declaração à imprensa.

José Dias/PR
Encontro com a comunidade brasileira no Japão.

Fazendo as pazes

O encontro dos dois chefes de Estado foi amplamente negociado após Jair Bolsonaro ter elevado o tom durante a época de campanha, quando chegou a dizer que a China “não está comprando no Brasil, está comprando o Brasil”. 

A indisposição gerou uma reação de Pequim, verbalizada em editorial do jornal China Daily, por vezes usado pelo governo chinês como porta-voz, publicado logo após o segundo turno. Nele, o presidente do Brasil é chamado de “Trump Tropical”, em referência ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Rejeitar a China, que Bolsonaro já descreveu como um parceiro excepcional, pode servir a algum propósito político específico. Mas o custo econômico pode ser duro para a economia brasileira, que acaba de sair de sua pior recessão na História”, destacou o editorial assinado em outubro de 2018.

Empossado, o presidente mudou sua retórica e passou a olhar o cenário com mais racionalidade, agora para os números. A China atualmente é o maior parceiro comercial do Brasil. Só no ano passado, o país asiático importou do Brasil quase US$ 64 bilhões, segundo dados da OMC (Organização Mundial do Comércio) — o que gerou para o Brasil um superávit de US$ 29,5 bilhões.

A viagem então, além de ampliar os laços comerciais, visa desfazer de vez qualquer desentendimento e demonstrar a disposição do lado do Brasil em manter os chineses como parceiros de longo prazo. 

Última parte da viagem

No sábado (26), Bolsonaro embarca para Abu Dhabi, onde segue com uma agenda voltada para atração de investimentos. Ainda no Oriente Médio, passa por Doha, Riade, Las Palmas. Tem previstas reuniões com empresários, encontros com representantes dos Estados, e fará ainda um discurso, na quarta (30), no evento conhecido como “Davos no Deserto”, a Iniciativa para Investimentos Futuros (Future Investment Initiative, em inglês). O desafio é convencer os árabes a apostar em concessões no Brasil. 

A edição do ano passado do “Davos no Deserto” sofreu um forte boicote internacional devido ao assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, na Turquia, dias antes. Crítico da Arábia Saudita, o jornalista foi morto em um consulado árabe em Istambul e o príncipe herdeiro saudita, Mohammad bin Salman, foi apontado como responsável pelo crime desde o primeiro momento.

Há um encontro do presidente com o príncipe ainda por confirmar na terça (29), um dia antes do evento com investidores. Aliados do presidente no Palácio do Planalto não acreditam que a edição de 2019 sofrerá boicotes como ano passado. 

Além da ministra Teresa Cristina, também acompanham o presidente na viagem à Ásia e Oriente Médio os ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Bento Albuquerque (Minas e Energia), Osmar Terra (Cidadania), Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e o general Augusto Heleno (GSI). O ministro Paulo Guedes pode se juntar ao grupo na parte final, já nos Emirados Árabes.