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28/05/2020 14:09 -03

Bolsonaro: 'Não teremos mais um dia igual a ontem. Chega! Estou com as armas da democracia'

Um dia após operação no âmbito do inquérito das fake news contra aliados, presidente acusa ministro do STF de abuso de autoridade.

NurPhoto via Getty Images
Para presidente, ministros Alexandre de Moraes e Celso de Mello, do STF, estão cometendo abuso de autoridade.

“Obviamente, ordens absurdas não se cumprem. E nós temos que botar um limite nessas questões.” A declaração é do presidente Jair Bolsonaro nesta quinta-feira (28), um dia após uma operação da PF contra aliados no âmbito do inquérito das fake news no STF (Supremo Tribunal Federal). A elevação do tom, que sobe cada vez mais, ocorreu no dia da ação policial com seu filho Eduardo Bolsonaro falando em “ruptura” — não de “se”, mas de “quando isso vai ocorrer”. 

“Até entendo quem tem uma postura moderada para não chegar num momento de ruptura, de cisão ainda maior, de conflito ainda maior. Eu entendo essas pessoas que querem evitar esse momento de caos, mas falando abertamente, opinião de Eduardo Bolsonaro, não é mais uma opinião de se, mas de quando isso [ruptura] vai ocorrer. Essas reuniões aqui que o Allan [do Santos] está falando de altas autoridades, até mesmo de dentro de setores políticos, a gente discute esse tipo de coisa”, afirmou o deputado em uma live ao lado de 2 dos atingidos pela ação de ontem. 

Por determinação do ministro do STF Alexandre de Moraes, que relata o inquérito das fake news na Corte, houve busca e apreensão de aparelhos, determinação de depoimentos e de quebra de sigilos fiscais e bancários, além de se ter mandado bloquear as redes sociais dos envolvidos. Na decisão, o magistrado os classificou como possíveis integrantes de uma associação criminosa.

Em recados indiretos ao magistrado, Bolsonaro criticou a operação de ontem que atingiu bolsonaristas. 

As coisas têm um limite. Ontem foi o último dia. Eu peço a Deus que ilumine as poucas pessoas que ousam se julgar melhor e mais poderosas do que os outros, que se coloquem no seu devido lugar, que nós respeitamos e dizemos mais: não podemos falar em democracia sem um Judiciário independente, sem um Legislativo também independente, para que possam tomar decisões, não monocraticamente por vezes, mas as questões que interessam ao povo como um todo, que tomem, mas de modo que seja ouvido o colegiado.

O presidente continuou: “Acabou, porra! Me desculpem o desabafo. Acabou! Não dá para admitir mais atitudes de certas pessoas individuais, tomando de forma quase que pessoal certas ações”.

Repito, não teremos outro dia igual ontem. Chega! Chegamos no limite. Estou com as armas da democracia na mão. Eu honro os meus compromissos no juramento que fiz quando assumi a Presidência da República. Respeito o Supremo Tribunal Federal, respeito o Congresso Nacional, mas para esse respeito continuar sendo oferecido da minha parte, tem que respeitar o poder Executivo também.

O presidente disse que os brasileiros esperam “patriotismo” e “compromisso com o Brasil”. “Pelo amor de Deus, o objetivo dessa ação é atingir quem me apoia. Se eu tivesse feito algo contra a esquerda, estariam dando pancada em mim. Eu convivo com a esquerda, posso não suportar, mas convivo”, afirmou. 

Estão perseguindo gente que apoia o governo de graça. Querem tirar a mídia que eu tenho, a meu favor, sob o argumento mentiroso de ‘fake news'.

Em reunião emergencial convocada pelo mandatário na noite de quarta-feira, cerca de 12 horas após o início das buscas pela Polícia Federal, Bolsonaro determinou a auxiliares que elevassem o tom contra o Judiciário, em especial Moraes e Celso de Mello, que é responsável pela investigação na qual o presidente é peça central.  

Está nas mãos do decano do STF o inquérito 4831, que apura as acusações de Sergio Moro contra Jair Bolsonaro sobre suposta interferência política na Polícia Federal. Por conta dessa investigação, foi liberado o vídeo da reunião entre ministros de 22 de abril, que acabou viralizando pelas falas, não apenas do presidente, recheada de palavrões, mas de seus auxiliares. O chefe da Educação, Abraham Weintraub, por exemplo, fez ataques ao Supremo e usou termos preconceituosos

Nesse encontro emergencial, decidiu-se entrar com um habeas corpus para impedir o depoimento de Weintraub à Justiça. Ele foi enquadrado por Alexandre de Moraes no inquérito das fake news por suas declarações nessa reunião de 22 de abril. “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF”, disse na ocasião. 

A ideia do governo costurada na reunião de ontem é barrar qualquer nova iniciativa do Supremo sobre o governo e aliados, classificadas por Bolsonaro como “abuso de autoridade”. 

Em frente ao Palácio da Alvorada, o mandatário opinou sobre o inquérito das fake news, que disse ter sido criado em cima de factoides: 

Dizer a vocês que inventaram o nome do gabinete do ódio, alguns acreditaram e outros foram além: abrir processo no tocante a isso. Não pode um processo começar em cima de um factoide. Em cima de uma fake news. Respeitamos os demais poderes, mas não abrimos mão que nos respeitem também.

O presidente diz que há uma tentativa de censurar as mídias sociais e criminalizar a ação de blogueiros em sua defesa. “Essa mídia social me trouxe à Presidência. Sem ela, não estaria aqui”, ressaltou.

Não existe pessoa mais do que eu que é achincalhada, humilhada, agredida e ofendida nas mídias sociais. E nem por isso eu levantei uma só palavra no sentido de controlar quem quer que se seja.

Enquanto o presidente convocava seus ministros às pressas para determinar que eles falem contra o Supremo, o Brasil chegava a mais de 25 mil mortos por coronavírus e 414 mil pessoas infectadas pela covid-19, conforme o último balanço divulgado na quarta. 

Tom de ameaça crescente

Na live da qual participou na noite de ontem, Eduardo Bolsonaro, que já falou em outros momentos em AI-5, afirmou algumas vezes a possibilidade de adoção de “uma medida enérgica”. 

Para o deputado, é necessário punir o ministro Alexandre de Moraes por abuso de autoridade. ”Suspender esse inquérito não basta. A gente vai ter que punir, isso é abuso de autoridade”, acusou, listando em seguida ações do STF, nas quais também mencionou medidas tomadas pelo ministro Celso de Mello e acrescentou: “quem é o ditador nessa história?”.

Criticando o encaminhamento feito pelo decano do Supremo à Procuradoria-Geral da República sobre a apreensão do celular de Jair Bolsonaro — o procurador-geral, Augusto Aras manifestou-se contra isso nesta quinta —, Eduardo aproveitou para falar em “confusão de papéis” no inquérito das fake news.

“Falam: ‘não, mas juridicamente é de praxe encaminhar o pedido’. Meus caros: é de praxe que nenhum processo se inicie pelas mãos de um juiz, como a gente tá vendo agora no STF.” O 03 pontuou “ter certeza” de que esse inquérito chegará à sua casa no futuro. “Hoje esse inquérito está aqui, entrando na casa do Allan [dos Santos, alvo da operação da PF], mas não tenho nem dúvida que amanhã vai ser na minha casa, eu não tenho nem dúvida que, se eles se sentirem confortáveis e nós tivermos uma posição colaborativa, né, Bia? Amanhã eles vão entrar na nossa casa, dando risada”, disse, conversando com a deputada Bia Kicis (PSL-DF), também alvo da operação de quarta.