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03/06/2020 14:30 -03

Bolsonaro diz que grupos antifascistas contrários a seu governo são ‘terroristas’

Para o presidente, o movimento “não é democracia nem liberdade de expressão”. “Isso no meu entender é terrorismo”, disse.

Andressa Anholete via Getty Images
Bolsonaro classificou as manifestações contra seu governo de “terrorismo”, e usou os protestos que aconteceram no Chile, no início deste ano, como exemplo do que não quer que aconteça.

O presidente Jair Bolsonaro classificou de “marginais” e “terroristas”, os grupos antifascismo que têm organizado manifestações pela democracia e contrárias a seu governo, acrescentando que a polícia precisa de “retaguarda legal” para agir com o crescimento “desse tipo de movimento”.

Bolsonaro falou em frente ao Palácio da Alvorada a alguns jornalistas na noite de terça-feira (2) e apoiadores que o esperavam e foi perguntado sobre o que achava das manifestações nos Estados Unidos.

“Começou aqui com os Antifas em campo, com motivo no meu entender político, diferente (dos EUA). São marginais, no meu entender, terroristas, e tem ameaçado agora domingo fazer movimentos pelo Brasil, em especial aqui no DF.”

Bolsonaro repete a retórica do presidente norte-americano, Donald Trump, que foi às redes sociais acusar o Antifa ―movimento antifascista que não tem nem organização, nem líderes claros, mas milhares de apoiadores e voluntários pelo mundo― de estar por trás dos protestos contra o racismo nos Estados Unidos. Em sua conta no Twitter, retuítada por Bolsonaro, Trump disse que iria classificar o Antifas como movimento terrorista.

Em sua fala, Bolsonaro acusa o grupo de estar por trás dos protestos pró-democracia feitos por torcidas organizadas em São Paulo, no último domingo. O movimento na verdade partiu de torcidas organizadas de times de futebol da capital paulista.

Com um grupo pró-Bolsonaro também com um protesto marcado para o mesmo dia e local, a manifestação terminou em confusão e confronto com policiais militares.

Já na segunda-feira (1º), o presidente havia dito a apoiadores que não fossem às ruas no próximo domingo. Grupos contrários ao governo têm prometido novas manifestações.

“Eu já disse que não domino, não tenho influência e nunca convoquei ninguém para ir às ruas. Eu agradeço de coração essas pessoas que estão na rua apoiando nosso governo, agora precisamos de uma retaguarda jurídica para que nosso policial possa bem trabalhar em se apresentando um crescente esse tipo de movimento que não tem nada a ver com democracia”, disse.

Novos protestos contra o governo estão sendo organizados para este final de semana em São Paulo e outras capitais.

Bolsonaro classificou as manifestações contra seu governo de “terrorismo”, e usou os protestos que aconteceram no Chile, no início deste ano, como exemplo do que não quer que aconteça.

“Isso não pode chegar aqui, não podemos deixar que o Brasil se transforme no que foi há pouco tempo o Chile, não podemos admitir isso daí. Isso não é democracia nem liberdade de expressão. Isso no meu entender é terrorismo. A gente espera é que esse movimento não cresça, porque o que a gente menos quer é entrar em confronto com quem quer que seja”, disse.

Sobre os movimentos nos Estados Unidos, Bolsonaro afirmou que “lá o racismo é um pouco diferente do Brasil, está mais na pele”.

“Então, houve um negro lá que perdeu a vida. Vendo a cena, a gente lamenta. Como é que pode aquilo ter acontecido? Agora, o povo americano tem que entender que, quando se erra, se paga”, disse, acrescentando que não quer que aconteça o mesmo tipo de protestos no Brasil.

“Logicamente que qualquer abuso você tem que investigar e, se for o caso, punir. Agora, este tipo de movimento, nós não concordamos.”

 

O que é o fascismo?

O fascismo é um movimento que surgiu na Europa no século 20 e cresceu principalmente na Itália, quando Benito Mussolini chegou ao poder por meio do Partido Fascista, no final da 1º Guerra Mundial.

O regime fascista italiano sobreviveu até o momento em que a Itália foi derrotada na 2ª Guerra Mundial. Durante o período de 21 anos, o fascismo foi a denominação do regime político italiano que se definia como antiparlamentar, antidemocrático, antiliberal e antissocialista.

Após esse período, alguns outros regimes foram chamados de fascistas por associação, como por exemplo o regime de Antonio Salazar, em Portugal, e o de Francisco Franco, na Espanha.

O movimento político fascista italiano definiu-se por ter um líder de extrema direita, apesar de a carreira política de Mussolini ter sido iniciada no partido socialista. Por ter sido concebido em um momento posterior à 1ª Guerra, as ideias extremamente nacionalistas soavam como uma resposta à devastação que alguns países tinham sofrido no conflito.

O fascismo também é populista por definição. O movimento tem na figura carismática a solução de todos os males. No fascismo, a nação é entendida como uma unidade de valores, dada pela identidade e não pela diferença.

Nesse tipo de regime, entende-se que os valores tradicionais estão em risco porque existe algum agente político que se movimenta de maneira oculta na sociedade, corrompendo o sistema e corroendo os valores que dão autenticidade para o povo.

Outro elemento do fascismo é o uso da violência como meio de lidar com conflitos.

“O adversário não é alguém que tenha uma pauta política legítima que possa ser disputada no espaço público democrático. Ele é um inimigo”, explica Paulo Henrique Cassimiro, da UERJ.

Os alvos do fascismo, na época, passaram a ser os movimentos considerados comunistas. Na Itália, registrou-se a organização de milícias disciplinadas que lideravam o uso da violência, como o grupo que ficou conhecido de “Camisas Negras”

Para o filósofo americano Jason Stanley, autor de How Fascism Works: the Politics of Us and Them (sem tradução em português), o fascismo não é uma ideologia, mas um método de “fazer política” baseado na produção de mentiras que atrapalham a compreensão da realidade.

George Orwell, em sua obra, é mais cauteloso em sua descrição: “tudo que se pode fazer no momento é usar a palavra com certa medida de circunspecção e não, como em geral se faz, degradá-la ao nível de um palavrão”.