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29/03/2019 01:00 -03

As metáforas de Bolsonaro com 'casamento' e 'namoro' foram longe demais

Bebianno, Guedes, Maia... e agora a ditadura militar. O presidente tem que simplesmente parar de fazer essas comparações.

ASSOCIATED PRESS

Gustavo Bebianno, Paulo Guedes, Rodrigo Maia. O que esses três têm em comum? Para Bolsonaro, a relação com eles, em algum momento, já pôde ser resumida a uma comparação com o casamento - ou o namoro.

A metáfora amorosa tem sido uma constante no repertório do presidente, que tenta explicar qualquer dificuldade com seus interlocutores políticos de uma forma que qualquer brasileiro possa entender: afinal, quem nunca brigou com o parceiro? 

O uso mais recente havia sido com Maia, presidente da Câmara, com quem Bolsonaro se confrontou publicamente, por meio de declarações ríspidas, nos últimos dias. O presidente comparou Maia à namorada com quem se precisa conversar para retomar um relacionamento.  

Nesta quinta (28), usou outras metáforas poéticas para tentar melhorar o clima: disse que o embate com Maia foi “uma chuva de verão”, mas que “agora o céu está lindo”.

O problema - além da escolha duvidosa das outras comparações - é que nos últimos 2 dias Bolsonaro teve a infelicidade de comparar também a ditadura militar (1964-1985) a um casamento. 

Primeiro, disse em entrevista ao programa Brasil Urgente, na TV Bandeirantes, que, assim como em um casamento, a ditadura teve uns “probleminhas”.

“Temos de conhecer a verdade. Não quer dizer que foi uma maravilha, não foi uma maravilha regime nenhum. Qual casamento é uma maravilha? De vez em quando tem um probleminha, é coisa rara um casal não ter um problema, tá certo?”, disse.

Nesta quinta, ao ser questionado sobre a ausência de um mea-culpa dos militares nas homenagens que estão sendo preparadas para o 31 de março, aniversário do golpe que instaurou a ditadura, Bolsonaro usou a metáfora mais uma vez.

“Vamos supor que fôssemos casados, tivéssemos um problema, resolvêssemos nos perdoar lá na frente. É para não voltar naquele assunto do passado, que houve aquele mal entendido entre nós. A Lei da Anistia está aí e valeu para todos”, afirmou.

Só que desta vez a comparação foi longe demais, presidente. A ditadura militar não teve alguns “probleminhas”, como já mostrou o relatório da Comissão Nacional da Verdade em 2014. Foram reconhecidas 434 mortes e desaparecimentos, e mais de 1.800 pessoas foram torturadas. Apenas pare.

Ricardo Moraes / Reuters

Veja abaixo todas as comparações feitas por Bolsonaro com relacionamentos amorosos: 

 

 ‘Namoro no bom sentido’ com Guedes

Adriano Machado / Reuters

Ainda na primeira semana de governo, Bolsonaro tentou amenizar o clima após uma crise desencadeada por uma declaração dada por ele mesmo.

O presidente falou que aumentaria o IOF e diminuiria a alíquota do imposto de renda. Aparentemente, isso não tinha sido combinado com Guedes, e o secretário especial da Receita Federal, Marcos Cintra, acabou desmentindo publicamente o presidente.

Após a confusão, Bolsonaro deu declarações sobre a amizade que tinha com Guedes. “Nasceu ali uma amizade. (...) Tenho certeza, sem qualquer demérito, que eu conheço um pouco mais de política que Paulo Guedes, e ele conhece muito mais de economia do que eu”, afirmou, classificando a relação como um “namoro no bom sentido”.

 

 Um fim ‘prematuro’ com Bebianno

MAURO PIMENTEL via Getty Images

No fim de fevereiro, Bolsonaro resumiu todo o conturbado processo que levou à demissão do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno com o fim de um casamento.

“Lamento o ocorrido [com Bebianno], mas não poderia ter tomado outra decisão”, afirmou Bolsonaro. ”É quase um casamento que infelizmente prematuramente se desfez.”

O ex-presidente do PSL, partido do presidente, é acusado de envolvimento em esquema de desvio de dinheiro envolvendo candidaturas laranja. A crise no governo ficou exposta após o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), um dos filhos do presidente, acusar Bebianno de mentir ao dizer que falou com o pai. Carlos chegou a divulgar um áudio privado que seu pai gravou e enviou por WhatsApp para Bebianno, dizendo que não falaria com o ministro.

A partir daí, a relação dos 2 - que tinham uma proximidade grande e uma cumplicidade desde as eleições - só foi ladeira abaixo.

 

O ‘namoro’ com Rodrigo Maia

NELSON ALMEIDA via Getty Images

Na última semana, o clima esquentou e Maia e Bolsonaro trocaram alfinetadas públicas. O presidente da Câmara teria chegado a telefonar para o ministro da Economia, Paulo Guedes, para dizer que deixaria as negociações para fazer avançar a reforma da Previdência na Casa.

Diante disso, Bolsonaro disse, em viagem a Santiago, no Chile, não saber por qual motivo Maia dizia estar abandonando as negociações. Questionado como faria para o presidente da Câmara voltar à mesa, o capitão reformado respondeu:

“Só conversando. Você nunca teve uma namorada? E quando ela quis ir embora o que você fez para ela voltar, não conversou? Estou à disposição para conversar com o Rodrigo Maia, sem problema nenhum”, disse.

Nesta quinta, Bolsonaro voltou a sorrir ao falar de Maia. “Para mim isso foi uma chuva de verão e agora o céu está lindo. O Brasil está acima de nós”, disse. “Da minha parte não tem problema nenhum. Vamos em frente. Página virada.” 

 

‘Casamento’ entre patrão e empregado

Não foram só as relações de Bolsonaro com seus interlocutores que foram comparadas por ele a casamentos e namoros. O presidente, que está no seu terceiro casamento, usou a metáfora para falar de direitos trabalhistas, durante sua primeira entrevista como presidente, ao SBT. 

“A mão de obra do Brasil é muito cara. É pouco para quem recebe e muito para quem paga”, afirmou. 

E comparou a relação entre patrão e empregado à de um casal: “É como um casamento, se tem excesso de ciúmes não dá certo”.

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