POLÍTICA
14/02/2019 01:00 -02

De volta ao Planalto, Bolsonaro enfrenta revolta de ‘aliados’ na Câmara

“O governo não consegue formar base só com frase no Twitter”, diz o ex-líder do DEM, Efraim Filho (PB).

Ueslei Marcelino / Reuters

De volta ao Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro terá de dobrar esforços para montar uma base aliada sólida na Câmara dos Deputados.

Enquanto Bolsonaro esteve internado para remoção da bolsa de colostomia ― que havia sido colocada na operação após o ataque a faca que ele sofreu na campanha presidencial―, uma rebelião se instaurou com o retorno dos trabalhos do legislativo. Parlamentares têm reclamado, principalmente, de falta de diálogo.

Nos últimos dias, a fratura foi exposta com uma reunião esvaziada convocada pelo líder do governo, Major Vitor Hugo (PSL-GO), com o anúncio de independência do PRB - que era tido como aliado -, e com as notícias de que outros partidos como PSD, PP e MDB poderiam seguir o mesmo caminho.

Há entre integrantes dessas siglas a reclamação de que, após a eleição, houve apenas uma conversa com o presidente. Até o momento, apenas o PR declarou adesão ao governo.

Deputados reconhecem que um ou outro colega teve mais contato com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, mas argumentam que falta uma orientação clara.

Líder do DEM na Câmara no período de transição de governo, o deputado Efraim Filho (PB) é um dos que alegam que interlocução precisa ser aprimorada. “Tem que ter articulação. Ainda não houve essa demonstração. Há uma sintonia de agenda, o que facilita. Mas é preciso ter engenharia política. O governo não consegue formar base só com frase no Twitter.”

É preciso ter engenharia política. O governo não consegue formar base só com frase no Twitter.Efraim Filho, ex-líder do DEM na Câmara

O deputado, entretanto, destaca que está em tempo de fazer a aproximação. “Estavam todos esperando [que as rodadas de conversa continuassem. Houve uma em janeiro]. A gente ainda espera que aconteça.”

O próprio líder do governo reconhece que o Planalto ainda não tem base. Na segunda-feira (11), o deputado se esquivou de responder aos jornalistas o tamanho do apoio que Bolsonaro tem Casa. “Qualquer número seria precoce. Até porque eu não quero caracterizar que exista já uma base, a base vai ser construída”, disse o Major Vitor Hugo.

Não quero caracterizar que exista já uma base. A base vai ser construída.Major Vitor Hugo, líder do governo na Câmara

Na quarta-feira (13), ele acrescentou que vai investir na aproximação com líderes de partidos que comporão a base. “Nós vamos construir essa base que, com certeza, trará ao País segurança para a aprovação das matérias de que tanto precisamos (...) e para resolver tantas outras necessidades do nosso povo”, disse no plenário. 

Reprodução/Twitter/MajorVitorHugo
Líder do governo, Major Vitor Hugo (PSL-GO) em reunião do colégio de líderes, comandada pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

A primeira reunião convocada pelo líder na semana passada foi frustrada e irritou integrantes de partidos que têm afinidade com o governo. Ao HuffPost Brasil, a deputada Bia Kicis (PSL-DF) minimizou as críticas ao colega. “O Major Vitor Hugo tem todo apoio do PSL e confiança do presidente. Não reflete falta de apoio.”

A deputada também citou como exemplo de que as conversas estão em curso justamente uma reunião entre ruralistas e integrantes da articulação política do governo convocada para resolver um impasse gerado na ausência do presidente (leia mais abaixo).

Ela, entretanto, reconheceu o peso da ausência do mandatário. “Claro que, com o presidente de volta, vai melhorar.”

Claro que, com o presidente de volta, vai melhorar.Deputada Bia Kicis (PSL-DF)

 

Revolta nas bancadas

O bate-cabeça na relação com o presidente atinge ainda uma das principais bancadas aliadas, a ruralista. No início desta semana, com Bolsonaro no hospital, o ministro da Economia, Paulo Guedes, não renovou a tarifa de 14% para o leite em pó que vem da União Europeia e da Nova Zelândia. A atitude do ministro causou revolta.

O deputado Domingos Sávio (PSDB-MG) considerou a decisão “um erro do ministro”. “É uma facada no peito do setor que primeiro apoiou Bolsonaro e disse que queria um Brasil melhor. Não vai ser tirando emprego do produtor de leite, do trabalhador de leite, que vamos melhorar o Brasil. É um equívoco isso.”


A irritação tomou conta do plenário da Câmara dos Deputados na terça-feira (12). Parlamentares do PP e do PDT engrossaram as críticas: “O governo tem que voltar atrás. Nós precisamos disso com clareza, com firmeza. Não podemos matar a galinha dos ovos de ouro dos produtores que são os nossos produtores de leite”, disse Pompeo de Mattos (PDT-RS).

A pressão mobilizou a articulação política e fez com que o presidente determinasse uma solução para o impasse. No Twitter, depois de dizer que uma notícia que informava que iria voltar a atrás era uma “canalhice”, o presidente anunciou o recuo. “Comunico aos produtores de leite que o governo tendo à frente a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, manteve o nível de competitividade do produto com outros países”, disse no Twitter.

Na bancada evangélica, há um movimento semelhante. Parlamentares reclamam da falta de incentivo às pautas sociais. Ao HuffPost Brasil, o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) afirmou que o presidente não pode relegar as pautas que o elegeram. Na avaliação dele, essa lista inclui, além da pauta de segurança pública, a conservadora, com projetos contra a ideologia de gênero, a favor da Escola sem Partido e do Estatuto da Família.

Bolsonaro tem sido aconselhado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a focar apenas na reforma da Previdência para não aborrecer os parlamentares.