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24/09/2019 12:00 -03 | Atualizado 24/09/2019 14:36 -03

Na ONU, Bolsonaro ataca mídia, França, Alemanha e defende soberania do Brasil

Presidente fez chamado aos chefes de Estado para conhecer o Brasil "real", não o disseminado por "mentiras" da imprensa sobre Amazônia.

Lucas Jackson / Reuters
O mandatário brasileiro abriu a 74ª Assembleia Geral da ONU.

Em sua estreia na ONU (Organização das Nações Unidas) nesta terça-feira (24), o presidente Jair Bolsonaro fez um discurso agressivo, ao contrário do que havia prometido, em que disse apresentar “um novo Brasil” aos chefes de Estado e representantes presentes. 

Apresento aos senhores um novo Brasil, que ressurge depois de estar à beira do socialismo. Um Brasil que está sendo reconstruído a partir dos anseios e dos ideais de seu povo”. Essa foi a primeira frase do mandatário brasileiro, que abriu a 74ª Assembleia Geral da ONU.

Ao longo de seu discurso, por diversas vezes, Bolsonaro atacou a imprensa internacional, à qual acusou de disseminar notícias falsas sobre queimadas e desmatamento na Amazônia. “Problemas qualquer país os tem. Contudo, os ataques sensacionalistas que sofremos por grande parte da mídia internacional devido aos focos de incêndio na Amazônia despertaram nosso sentimento patriótico”. 

Sem mencionar diretamente o mandatário francês, Emmanuel Macron, com o qual protagonizou polêmicas em meio à crise na região amazônica, Jair Bolsonaro rebateu afirmações de que a floresta é “patrimônio da humanidade” e disse que por trás dessas alegações há interesses “disfarçados de boas intenções”. 

“Valendo-se dessas falácias, um ou outro país, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa, com espírito colonialista. Questionaram aquilo que nos é mais sagrado: a nossa soberania!”, completou o presidente.

A Alemanha, que suspendeu investimentos na floresta no auge das polêmicas sobre desmatamento, não foi poupada. Bolsonaro fez questão de se voltar ao país e novamente mencionar a França.

“A França e a Alemanha, por exemplo, usam mais de 50% do seu território para agricultura. Já o Brasil usa apenas 8% de terras para a produção de alimentos. 61% do nosso território é preservado. Nossa política é de tolerância zero para com criminalidade, aqui incluídos os crimes ambientais. Quero reafirmar minha posição de que qualquer inciativa de ajuda ou apoio à Floresta Amazônica ou a outro bioma deve ser tratado com pleno respeito à soberania brasileira”, disse o presidente, em um recado claro aos chefes de Estado dos países europeus, Angela Merkel e Macron. 

Nesse contexto, fez um sinalização ao presidente dos EUA, Donald Trump, a quem se referiu nominalmente, agradecendo-o pelo empenho para barrar no G7, em agosto, uma sanção ao Brasil pela política ambiental implementada. Segundo Bolsonaro, o líder americano “sintetizou o espírito que deve reinar entre os países da ONU: respeito à liberdade e à soberania de cada um de nós”. 

O presidente brasileiro abordou ainda a situação indígena. Segundo ele há 14% de reserva indígenas no País e não há intenção de aumentar esse número. Ao contrário, deixou clara a intenção de facilitar a exploração nessas áreas. 

“Infelizmente, algumas pessoas, de dentro e de fora do Brasil, apoiadas em ONGs, teimam em tratar e manter nossos índios como verdadeiros homens das cavernas. O Brasil agora tem um presidente que se preocupa com aqueles que lá estavam antes da chegada dos portugueses. O índio não quer ser latifundiário pobre em cima de terras ricas. Especialmente das terras mais ricas do mundo. É o caso das reservas Ianomâmi e Raposa Serra do Sol. Nessas reservas, existe grande abundância de ouro, diamante, urânio, nióbio e terras raras, entre outros”. 

Bolsonaro chegou a Nova York em meio a um cenário desfavorável: queimadas na floresta amazônica, ações de desestímulo às fiscalizações e aplicações de multas por crime ambiental pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), reiterados questionamentos da cúpula do governo a dados sobre desmatamento. Tudo isso levou a França a censurar o Brasil publicamente há cerca de um mês e também a Noruega e a Alemanha a suspenderem repasses ao País para preservação ambiental.

Politicamente correto

Sem deixar as questões ideológicas de lado, Jair Bolsonaro fez questão de mencionar a facada da qual foi vítima em setembro do ano passado durante a campanha eleitoral, dizendo ter sido “vítima de um militante de esquerda”. Segundo o presidente, houve uma tentativa, nos últimos anos, de impor um “sistema ideológico de pensamento que não buscava a verdade, mas o poder absoluto”. 

“O politicamente correto passou a dominar o debate público para expulsar a racionalidade e substituí-la pela manipulação, pela repetição de clichês e pelas palavras de ordem. A ideologia invadiu a própria alma humana para dela expulsar Deus e a dignidade com que Ele nos revestiu. E, com esses métodos, essa ideologia sempre deixou um rastro de morte, ignorância e miséria por onde passou”.

Aproveitou o contexto para fazer uma cobrança à ONU. Para Bolsonaro, a entidade pode “ajudar a derrotar o ambiente materialista e ideológico que compromete alguns princípios básicos da dignidade humana”. 

“Não estamos aqui para apagar nacionalidades e soberanias em nome de um “interesse global” abstrato. Esta não é a Organização do Interesse Global! É a Organização das Nações Unidas. Assim deve permanecer!”, disse o presidente já ao fim de um discurso de 30 minutos.

Conforme a tradição que ocorre desde 1949, é o chefe de Estado brasileiro o responsável pelo discurso e abertura da Assembleia Geral da ONU. Antes dele, fizeram uso da palavra o secretário-geral da organização, António Guterrez, e o presidente da Assembleia Geral, o diplomata nigeriano Tijani Muhammad-Bande, que organiza a sessão.

Ditaduras na América Latina

Como previsto, Jair Bolsonaro teceu ataques à Cuba e à Venezuela. Nesse contexto, mencionou o programa Mais Médicos, que agora pretende substituir pelo Médicos pelo Brasil. Bolsonaro disse que “um acordo entre o governo petista e a ditadura cubana trouxe ao Brasil 10 mil médicos sem nenhuma comprovação profissional”. 

A retórica foi a mesma que utiliza no Brasil, inclusive no discursos do Palácio do Planalto na ocasião do lançamento do programa, no início de agosto. “Foram impedidos de trazer cônjuges e filhos, tiveram 75% de seus salários confiscados pelo regime e foram impedidos de usufruir de direitos fundamentais, como o de ir e vir. Um verdadeiro trabalho escravo, acreditem...”

Ao falar da Venezuela, o mandatário brasileiro disse que “o Brasil também sente os impactos da ditadura venezuelana”, mencionando os refugiados. “Trabalhamos com outros países, entre eles os EUA, para que a democracia seja restabelecida na Venezuela, mas também nos empenhamos duramente para que outros países da América do Sul não experimentem esse nefasto regime”. 

Pauta caseira na ONU

De forma surpreendente - embora a presidente Dilma Rousseff (PT) também já tenha se voltado a assuntos internos, como numa prestação de contas -, Jair Bolsonaro mencionou questões eminentemente caseiras, como taxa de homicídios, mortes de policiais militares, apreensões de drogas. 

“Em meu país, tínhamos que fazer algo a respeito dos quase 70 mil homicídios e dos incontáveis crimes violentos que, anualmente, massacravam a população brasileira. A vida é o mais básico dos direitos humanos. Nossos policiais militares eram o alvo preferencial do crime. Só em 2017, cerca de 400 policiais militares foram cruelmente assassinados. Isso está mudando. Medidas foram tomadas e conseguimos reduzir em mais de 20% o número de homicídios nos seis primeiros meses de meu governo. As apreensões de cocaína e outras drogas atingiram níveis recorde.”

O mandatário mencionou ainda acordos bilaterais que facilitam a retirada de vistos para turistas dos Estados Unidos, Japão, Austrália e Canadá, como estudo de outros já em andamento para outros países.  

“Com mais segurança e com essas facilidades, queremos que todos possam conhecer o Brasil, e em especial, a nossa Amazônia, com toda sua vastidão e beleza natural. Ela não está sendo devastada e nem consumida pelo fogo, como diz mentirosamente a mídia. Cada um de vocês pode comprovar o que estou falando agora. Não deixem de conhecer o Brasil, ele é muito diferente daquele estampado em muitos jornais e televisões”, completou o mandatário.

Ainda nesse cenário, chegou a mencionar o ministro de Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, com quem sua relação tem estado desgastada

“Há pouco, presidentes socialistas que me antecederam desviaram centenas de bilhões de dólares comprando parte da mídia e do parlamento, tudo por um projeto de poder absoluto. Foram julgados e punidos graças ao patriotismo, perseverança e coragem de um juiz que é símbolo no meu país, o Dr. Sérgio Moro, nosso atual Ministro da Justiça e Segurança Pública”.

Agenda enxuta

Antes de discursar, o presidente se reuniu com o secretário-geral da ONU, António Guterrez, que falou antes dele, e encontrou-se brevemente com o mandatário dos EUA, Donald Trump, cuja exposição ocorreu logo após a sua, ao deixar o plenário da ONU. 

De acordo com sua agenda oficial, Jair Bolsonaro só acompanharia o discurso de Trump. À tarde, está prevista uma conversa breve com o ex-prefeito de Nova York Rudolf Giulianil, que advoga para o mandatário dos EUA.