NOTÍCIAS
25/08/2020 08:36 -03 | Atualizado 25/08/2020 08:36 -03

Fim do Bolsonaro 'paz e amor': Recaída por impulso ou aceno à militância?

Após período de aparente tranquilidade, presidente volta a atacar imprensa e subir o tom; Segundo ministro, 'torcedores do caos perderam', porque 'a paz continua'.

SERGIO LIMA via Getty Images

Não durou muito. No domingo (23), uma pergunta de um repórter do jornal O Globo sobre R$ 89 mil repassados por Fabrício Queiroz e sua mulher à primeira-dama, Michelle, rompeu de vez a “fase paz e amor” do presidente Jair Bolsonaro com a imprensa e seu tom mais ameno nas redes sociais. “Minha vontade é encher tua boca na porrada, tá?”, respondeu Bolsonaro ao repórter, e as investidas do presidente contra a imprensa continuaram em seus perfis no Facebook e no Twitter e em uma cerimônia oficial no Planalto.

Desde o domingo, Bolsonaro ignorou a enxurrada de tweets que o questionavam sobre os cheques de Queiroz e publicou 4 posts contra a rede Globo – 2 deles citando o caso do doleiro Dario Messer, que teria afirmado em delação premiada que fez repasses de dólares em espécie para os irmãos Marinho em várias ocasiões. O presidente também aproveitou o evento “Brasil vencendo a Covid-19”, na segunda-feira, para chamar os jornalistas de “bundões”. 

“Aquela história de atleta, né, que o pessoal da imprensa vai para o deboche, mas quando pega [covid-19] num bundão de vocês, a chance de sobreviver é bem menor”, disparou, se dirigindo aos jornalistas.

Um dos principais articuladores da fase “paz e amor”, o ministro das Telecomunicações, Fábio Faria, não demorou a se abordar a mudança de tom de Bolsonaro nas redes sociais. Segundo ele, os “torcedores do caos e do conflito diário perderam”, porque “a paz continua”.

Faria foi um dos responsáveis por acabar com a prática de Bolsonaro de falar quase que diariamente com jornalistas no “cercadinho” da imprensa no Palácio da Alvorada. Parte da imprensa já havia deixado de comparecer ao local após ameaças de apoiadores do presidente, por questões de segurança.

A nova estratégia também envolvia usar as redes sociais do presidente mais para divulgação de feitos do governo do que para polêmicas e ataques a adversários políticos. A postura contida, avaliam alguns, contribuiu para o recorde de popularidade de seu governo (37% de aprovação, segundo a última pesquisa Datafolha divulgada em 14 de agosto). 

“Pode ter sido um ato de desinteligência isolado, uma recaída de um desequilibrado, ou faz parte de alguma novidade em termos estratégicos, talvez para recuperar o apoio da militância que ele perdeu”, diz o cientista político Humberto Dantas, do Centro de Liderança Pública.

Esta não foi a primeira vez que perguntas sobre sua família ou sobre o caso do ex-assessor de Flávio Bolsonaro Fabrício Queiroz tiraram Bolsonaro do sério. Em julho de 2019, por exemplo, ele encerrou uma entrevista coletiva em Goiânia logo no início depois de uma repórter da Folha de S. Paulo o questionar sobre o uso de um helicóptero da Força Aérea Brasileira (FAB) para levar seus familiares ao casamento do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), no Rio de Janeiro.

“Tem familiares meus aqui, eu prefiro vê-los do que responder uma pergunta idiota para você”, disparou ele na ocasião. Quando repórteres perguntaram, no fim do ano passado, se ele tinha os comprovantes do empréstimo que teria feito a Queiroz, Bolsonaro, irritado, declarou a um jornalista: “Você tem uma cara de homossexual terrível, mas nem por isso eu te acuso de ser homossexual”.

Facebook x Twitter

Mesmo no período “paz e amor”, a aparente sobriedade de Bolsonaro em seu perfil no Twitter não foi seguida no Facebook. Foi na rede social em que o presidente acumula mais de 13 milhões de seguidores que ele seguiu criticando adversários e a imprensa – com menor frequência, é verdade – nas últimas semanas. 

Além de ser a plataforma de uma live semanal em que Bolsonaro costuma ainda fazer ataques, o Facebook é também o espaço em que ele alimenta a militância com as teorias que defende, como a defesa da cloroquina e as críticas a políticas de isolamento social.

No último dia 16, por exemplo, o presidente publicou só no Facebook o link para um “estudo” que comprovaria que “a maioria das pessoas seria imune” à covid-19. O documento, classificado por ele como “um dos melhores estudos” sobre a doença, também concluiria que “a política de ‘fechar tudo’ teria sido baseada em ciência falha, e as consequências danosas à sociedade serão sentidas por décadas”.

Só que, em vez de postar o link do estudo do neurocientista Karl Friston, o presidente publicou um link para o site “Frontliner” com informações distorcidas. Como mostrou o Estadão Verifica, o próprio Friston disse que o modelo tem uma série de limitações, e que a análise não oferece “respostas definitivas”.

Foi também por lá que ele acusou “parte da grande imprensa tradicional” de ter virado “partido político de oposição ao atual governo”, negando que defendesse furar o teto de gastos em meio à polêmica com o ministro da Economia Paulo Guedes. “Apenas posso lamentar essa obsessão pelo ‘furo jornalístico’ onde a verdade é a primeira vítima nesses órgãos de comunicação, que teimam em desinformar e semear a discórdia na sociedade”, disse.

O doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), João Kamradt, diz que “não é de hoje” que Bolsonaro usa as diferentes redes sociais de forma distinta.

“O conteúdo e a forma de se comunicar muda tanto no Twitter quanto no Facebook e no Instagram, mas isso [estratégias diferentes para Facebook e Twitter] não é de hoje, e não foi algo que começou após ele ser eleito. Isso vem pelo menos desde as eleições. Bolsonaro era o único candidato que tinha conhecimento claro das diferenças e das sutilezas de cada ferramenta disponível em cada uma das redes sociais”, afirma Kamradt.

Para o pesquisador, cuja tese de doutorado foi sobre o uso de táticas de celebridades em redes sociais aplicadas às páginas de políticos, “se fala muito em bot, em uso inorgânico, mas isso é uma parte menor – os outros políticos também usam bots”. “O que há é o fato de que o Bolsonaro compreendeu que as redes sociais não precisam ter uma lógica clara. É por isso que ele não apresentou plano de governo nas redes, não era necessário.” 

Segundo o especialista, Bolsonaro “segue a lógica da cultura do remix, do copia e cola, falando diferentes coisas para diferentes públicos”. “Muitas vezes coisas contraditórias para quem olha de fora, mas não para quem consome das redes sociais dele.”