POLÍTICA
14/01/2019 08:53 -02 | Atualizado 14/01/2019 16:25 -02

Estratégia de Bolsonaro, que inclui fake news e ataques à imprensa, é 'problemática'

Ao fazer das redes sociais canal oficial de comunicação do governo, presidente se mantém no palanque e evita questionamentos.

Adriano Machado/Reuters
O presidente Jair Bolsonaro tem compartilhado conteúdo postado por perfis falsos em seu Twitter.

O uso das redes sociais como canal oficial de comunicação, o compartilhamento de conteúdo falso ou duvidoso e os ataques à imprensa profissional são estratégias do presidente Jair Bolsonaro (PSL) para manter seu eleitorado mobilizado, evitar questionamentos de repórteres e, de quebra, alavancar a desconfiança dos brasileiros em relação à imprensa.

Essa é avaliação de especialistas procurados pelo HuffPost Brasil para comentar a estratégia de comunicação do novo presidente em duas semanas de governo, que inclui o compartilhamento irresponsável, no Twitter, de perfis fake que imitam contas de jornais e jornalistas para divulgar notícias falsas.

Para o cientista político Eduardo Grin, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas), a estratégia é “problemática”. Segundo ele, desinformação com verniz de notícia desorienta e confunde.

“Existe praticamente filtro zero das pessoas para checar a veracidade de uma informação. Nas redes sociais, isso gera confusão, porque versões de fatos acabam adquirindo, perante as pessoas, uma autoridade que não deveria existir. Isso se torna ainda mais perigoso quando nós temos a figura institucional do presidente mantendo esse tipo de prática”, afirma Grin.

Na avaliação de Rosane Borges, jornalista e professora do Colabor ECA-USP (Centro Multidisciplinar de Pesquisas em Criações Colaborativas e Linguagens Digitais), o combate às fake news no Brasil esbarra na precária estrutura educacional da população. 

“Nosso País tem um déficit educacional, e as pessoas acreditam muito naquilo que recebem pelo WhatsApp, não há preocupação em checar”, diz Borges.

“Quando o presidente da República adota essa estratégia, sabendo que os perfis são falsos, ele cria um ambiente em que a imprensa, de partida, é inimiga. Ele estabeleceu uma divisão entre ‘nós’ e ‘os outros’ e, nessa estratégia de comunicação, que é muito bem pensada, a imprensa está inserida na categoria ‘outros’”, completa.

O perfil de Bolsonaro no Twitter também aproveita para criticar reportagens e artigos críticos a ele, como ocorreu no último fim de semana, com um texto da colunista Eliane Cantanhêde no jornal O Estado de S. Paulo. O tuíte foi apagado pouco depois.

Houve uma erosão de credibilidade da imprensa como mediadora da formação da opinião pública e, com a ascensão das redes sociais, políticos com marca autoritária preferem esse tipo de dispositivo porque não são questionados.Rosane Borges, jornalista e professora da ECA-USP.

Segundo Borges, o uso das redes sociais também favorece um governo que não tem “solidez argumentativa”.

“A estratégia de comunicação do Bolsonaro é uma tendência que vem crescendo no mundo. Houve uma erosão da credibilidade da imprensa como mediadora da formação da opinião pública e, com a ascensão das redes sociais, políticos com marca autoritária preferem esse tipo de dispositivo porque não são questionados”, diz a professora. 

Para Eduardo Grin, esse modus operandi também revela uma necessidade de manter-se “em palanque” para ganhar tempo.

“Bolsonaro segue em campanha, como animador de um auditório que só escuta aquilo que lhe convém”, diz. Segundo Grin, Bolsonaro anima o “auditório” dizendo que o Enem não vai mais discutir gênero, que seu governo vai liberar a posse de armas.

“Então ele usa as mídias sociais para ter esse contato direto com o público e mobiliza milhões de pessoas que ainda manifestam um apoio quase cego a ele com manobras diversionistas. Qual é a agenda principal do governo? É gerar emprego ou discutir as questões do Enem? Querem comprar tempo”, pontua o professor da FGV.

Para Grin, se em 6 ou 7 meses o cidadão não tiver uma sinalização de que o País vai voltar a gerar emprego, o governo “vai começar a ter dificuldade não só de comunicação, mas de aprovação”.

Bolsonaro usa as mídias sociais para ter contato direto com o público e mobiliza milhões de pessoas que ainda manifestam um apoio quase cego a ele com manobras diversionistas. Qual é a agenda principal do governo? É gerar emprego ou discutir as questões do Enem?Eduardo Grin, cientista político e professor da FGV.

Equipe de comunicação

Não está claro quem, de fato, administra o principal veículo usado por Bolsonaro para ter esse contato direto com a população: a sua conta pessoal de Twitter.

Durante a campanha à Presidência, era o seu filho Carlos Bolsonaro, vereador no Rio, o responsável pelas redes sociais do então candidato. No fim de  novembro, após desentendimentos, Carlos anunciou que não tinha mais, “por iniciativa própria, qualquer ascensão às redes sociais de Jair Bolsonaro”, mas o conteúdo e o formato de postagens recentes sugerem que Carlos ainda pode ter influência no perfil.

Decreto em vigor desde 2 de janeiro determina que as contas pessoais das redes sociais do presidente devem ser administradas pela Assessoria Especial do Presidente da República, em conjunto com a Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social).

O HuffPost enviou questionamentos à Secom, mas não obteve resposta. A reportagem perguntou “por que a conta pessoal do presidente da República no Twitter compartilha conteúdo de perfis sabidamente falsos” e também quis saber se o próprio Jair Bolsonaro e seu filho Carlos Bolsonaro ainda têm acesso à conta. Nenhuma dessas questões foi respondida.

As equipes desses órgãos estão sendo formadas, e algumas nomeações já foram publicadas no Diário Oficial da União.

A Secom, por exemplo, será chefiada pelo publicitário Floriano Amorim. Assim como Bolsonaro, Amorim costuma atacar a imprensa e classifica como fake news informações que lhe desagradam, segundo reportagem da Folha de S.Paulo - a conta de Amorim no Twitter foi protegida, e seus posts não são públicos.

Já o gabinete pessoal do presidente da República terá Tercio Arnaud Tomaz no comando da comunicação. Ao HuffPost, ele afirmou que já está atuando nas redes sociais oficiais, mas não respondeu a outras perguntas da reportagem. 

Conhecido pela página no Facebook Bolsonaro Opressor 2.0 - que disseminou notícias falsas e conteúdo de ódio durante a campanha e hoje prioriza a publicação de imagens do presidente em momentos de descontração -, Tercio ocupa um cargo comissionado DAS 5, com remuneração de R$ 13 mil.

Ele estava lotado desde dezembro de 2017 em posto também de nomeação política no gabinete do vereador Carlos Bolsonaro, com salário de R$ 3.641, mas atuou como assessor informal de Bolsonaro durante a campanha presidencial. De acordo com reportagem do jornal O Globo publicada em agosto de 2018, Tercio recebia sem trabalhar de fato para o vereador. 

Outro ex-assessor de Carlos Bolsonaro nomeado para o gabinete presidencial foi José Matheus Sales Gomes.

Também compõe o novo time Filipe Martins, nomeado assessor Especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais. A função faz uma ponte entre o Planalto e o Ministério de Relações Exteriores. Discípulo do escritor Olavo de Carvalho, Martins é editor-adjunto do site Senso Incomum, onde publica textos em defesa do liberalismo econômico e do conservadorismo nos costumes e faz críticas a jornalistas.