POLÍTICA
11/03/2019 10:46 -03 | Atualizado 11/03/2019 17:22 -03

Bolsonaro usa fake news para atacar jornalista do Estadão

“Quando um governante mobiliza parte significativa da população para agredir jornalistas e veículos, abala um dos pilares da democracia”, dizem OAB e Abraji.

SERGIO LIMA via Getty Images

Dando continuidade à estratégia de ataque à imprensa, o presidente Jair Bolsonaro usou uma informação falsa para atacar a jornalista Constança Rezende, do jornal O Estado de S.Paulo. Em seu perfil no Twitter, o presidente atribuiu falsamente à repórter a declaração de que teria intenção de “arruinar Flávio Bolsonaro″ e buscar o impeachment do presidente.

A frase teria sido dita pela jornalista, segundo a denúncia de um jornalista francês que é citado pelo Terça Livre, site bolsonarista que dissemina fake news.

Contudo, na tarde desta segunda, o site francês Mediapart, que é creditado pelo site bolsonarista, desmentiu a informação.

“As informações publicadas no ‘club de Mediapart’, que serviram de base para o tuíte de @jairbolsonaro, são falsas”, publicou o site francês.

Na conversa divulgada por Bolsonaro, a repórter fala da cobertura jornalística das investigações de Fabrício Queiroz, ex-motorista do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente.

No diálogo, em inglês, a jornalista em nenhum momento fala em “intenção” de arruinar o governo ou o presidente. O áudio tem frases truncadas e com pausas e não foi divulgado na íntegra.

De acordo com o Estado de São Paulo, Constança não deu entrevista ao jornalista francês. As falas são de uma conversa que ela teve em 23 de janeiro com uma pessoa que se apresentou como Alex MacAllister, suposto estudante interessado em fazer um estudo comparativo entre Bolsonaro e Donald Trump.

Segundo o site de checagem de informações Aos Fatos, a falsa acusação também foi divulgada pelo site República de Curitiba. Tanto essa plataforma quanto o Terça Livre publicaram desinformação checada por pelo Aos Fatos 6 vezes.

Bolsonaro e Fake News

O episódio é um dos temas mais comentados do Twitter, com a tag #BolsonaroÉfakenews e provocou críticas da oposição. A deputada federal Talíria Petrone (PSol-RJ) chamou de “grave” um chefe de Estado espalhar informações falsas. “Nossa democracia vai mal”, escreveu.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) classificou o caso como o “ataque mais vil trata-se contra a liberdade de expressão” e uma tentativa de “encobrir falcatruas” do filho.

Relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) identificou depósitos suspeitos na conta de Flávio Bolsonaro que somam R$ 96 mil, além de um pagamento de R$ 1 milhão de um título bancário da Caixa Econômica Federal.

Em outra investigação, o parlamentar é suspeito de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica eleitoral. O caso envolve “negociações relâmpago de imóveis” que teriam resultado no “aumento exponencial” do patrimônio do filho do presidente.

Jornalistas também criticaram a ação de Bolsonaro e demonstraram solidariedade à Constança. O repórter Jamil Chade, também do Estadão, chamou o caso de “demonstração da ofensiva suja e da manipulação contra a imprensa”.

Em nota conjunta, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) repudiaram o ato. “Quando um governante mobiliza parte significativa da população para agredir jornalistas e veículos, abala um dos pilares da democracia, a existência de uma imprensa livre e crítica”, diz o texto.

Mesmo após eleito presidente, Bolsonaro mantém a estratégia de compartilhamento de conteúdo falso ou duvidoso e os ataques à imprensa. O objetivo, segundo especialistas, é manter seu eleitorado mobilizado, evitar questionamentos de repórteres e alavancar a desconfiança dos brasileiros em relação ao jornalismo.