OPINIÃO
22/08/2019 08:00 -03 | Atualizado 22/08/2019 08:00 -03

Brasil 2019: O que está acontecendo, na verdade, não está acontecendo

Como a paixão por “esse riquíssimo pedaço do Brasil”, que é a Amazônia, tornou Bolsonaro uma vítima.

Pilar Olivares / Reuters

Pode ser tudo, menos responsabilidade do governo brasileiro o que está acontecendo no Brasil. Há um atentado contra o País que não deixa o presidente Jair Bolsonaro trabalhar. Primeiro, são os países europeus que querem “roubar” a Amazônia. Depois são as ONGs que estão promovendo um ato criminoso para chamar a atenção contra o presidente.

Ah, tem o próprio Brasil jogando contra. Imagens de satélites monitoradas pelo Sistema Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), revelaram dados “mentirosos” sobre desmatamento. Índices públicos, que estão disponíveis em tempo real, foram divulgados apenas para “prejudicar” a imagem do País internacionalmente.

O problema não é o desmatamento que grita ao avançar 278% em julho de 2019, comparado ao mesmo mês do ano passado. O problema é o aparelho que detecta o desmatamento. Vamos comprar outro! As queimadas? Oras! “Resultado das ONGs que viram sua torneira de dinheiro secar.” Há ainda governadores do Norte, que Bolsonaro — por educação — não quis citar nomes, que “não estão movendo uma palha para ajudar a combater incêndios, pois estão gostando disso aí”.

Como disse o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, o presidente Jair Bolsonaro é “apaixonado por esse riquíssimo pedaço do Brasil”, que é a Amazônia; ele não permitiria seu desmantelamento. O general insiste: o presidente “jamais permitirá sua degradação, por desmatamento, queimadas ou exploração não sustentável”.

O ministro é o mesmo que diz que “o maior preservador de ambiente do mundo é o Brasil”. 

Para o governo, o Brasil é vítima. O que está acontecendo, na verdade, não está acontecendo.

A fuligem da fumaça da queimada que ocorre na tríplice fronteira e viajou 2.000 km chegando a São Paulo pode não ter sido o único fator responsável por deixar o céu escuro às 15h nesta semana. Porém, análises da água da chuva registraram índice sete vezes maior do que o normal de resíduos de fumaça no material .

Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Como teria? É “fake news” fazer essa relação, já disse o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Fonte primária e oficial.

Inclusive, o Ministério do Meio Ambiente não está omisso. “Apesar das dificuldades orçamentárias, do problema de infraestrutura, de uma série de limitações que vêm administrações após administrações, estamos colocando eficiência administrativa para disponibilizar, nesse exato momento, todas as equipes por exemplo, do Prevfogo. Os equipamentos estão lá à disposição dos governos estaduais, as ações de fiscalização continuaram sendo feitas. Todas as medidas necessárias à preservação continuaram sendo feitas, portanto não há omissão nenhuma.”

Não tem omissão.

Portanto, não se intrometa. O Brasil quer que a Noruega — principal doadora do Fundo Amazônia — pegue o dinheiro que era investido no combate ao desmatamento no Brasil e dê para a chanceler alemã, Angela Merkel, reflorestar a Alemanha. Berlim, que também suspendeu investimento na preservação da nossa floresta, pode guardar seu dinheiro. O presidente já disse: “O Brasil não precisa disso”. 

Essa narrativa tem um problema: enquanto o governo procura culpados, faz ilações, descarta ajuda, a Floresta Amazônica continua pegando fogo. Focos de queimada realmente bateram o recorde dos últimos sete anos. Foram registrados, segundo o Inpe, 72.843 pontos de incêndio entre janeiro deste ano e a última segunda-feira (19) — um número 83% maior do que o verificado no mesmo período do ano passado.

Para completar, o jornal Folha do Progresso afirmou que fazendeiros do Pará disseram que precisavam mostrar ao presidente que queriam trabalhar, e o único jeito de fazer isso era “derrubando”. Decidiram, assim, criar o “dia do fogo”. Bolsonaro reclama de estar sendo acusado de ser “Nero”, imperador que colocou fogo em Roma.

Embora o governo alegue que é época de seca, propícia à proliferação de queimadas, o Inpe afirma que os focos de incêndio identificados não são de origem natural. “A seca cria condições favoráveis ao uso do fogo e à propagação, mas quando se inicia o fogo, é a ação humana. Seja de propósito, seja por descuido”, esclarece o pesquisador Alberto Setzer, coordenador do grupo de monitoramento de queimadas do Inpe.

Neste ano, o desmatamento na Amazônia alcançou 5 mil km² de floresta. Aumento de 15% nos últimos 12 meses, em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com o Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) — que usa metodologia diferente da do Inpe. Só em julho, a área desmatada foi de 1.287 km² — aumento de 66% em relação a julho do ano passado. 

Em resumo, a porteira para o desmatamento foi aberta, o que impulsiona as queimadas e, para finalizar, há um relaxamento na fiscalização. De acordo com o Observatório do Clima, dados obtidos pela Lei de Acesso à Informação mostram que houve uma queda de 58% nas operações de fiscalização realizadas pelo Ibama até abril deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado. Se considerar apenas a Amazônia, a queda foi de 70%. Levantamento feito pela Folha de S.Paulo aponta ainda que as multas por desmatamento entre janeiro e junho deste ano caíram 23%, em comparação ao mesmo período de 2018.

É isso o que está acontecendo enquanto o presidente se esquiva da responsabilidade e alega “psicose ambiental”. 

Adriano Machado / Reuters