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21/11/2019 15:53 -03

Bolsonaro, o desrespeito e a perseguição à imprensa

No lançamento do Aliança pelo Brasil, presidente defendeu o excludente de ilicitude. Disse que projeto que isenta punições "será uma grande guinada do combate à violência no Brasil".

Ueslei Marcelino / Reuters
Apoiadores do novo partido do presidente acompanharam o lançamento da legenda nesta quinta-feira (21), em Brasília. 

O evento em que foi lançado o Aliança pelo Brasil, partido do presidente Jair Bolsonaro, aconteceu no auditório do Royal Tulip, um badalado hotel à beira do Lago Paranoá em Brasília, vizinho do Palácio da Alvorada. Mas apenas 17 veículos de imprensa convidados puderam acompanhar os discursos no local. Os demais ficaram ao sol, em um cercadinho, a alguns metros de um palco onde, no fim, o mandatário cumprimentou os militantes. 

Somente depois de relatos de que havia pessoas da imprensa sentindo-se mal pelo calor — 25° C, mas com sensação térmica bem maior no cerrado, em pleno sol a pino do meio-dia, sem nenhuma sombra —, a segurança, que diga-se de passagem era a da Presidência da República, liberou a passagem para que os repórteres pudessem se sentar embaixo de uma grande árvore. O evento estava marcado para 10h, vários repórteres chegaram antes de 9h, mas só teve início 11h. Veja: um evento sobre o qual o anúncio dizia ser em um auditório se transformou em uma longa manhã ao sol.

Quem não tinha credencial fixa do Palácio do Planalto — meu caso — e se contentou em não ter acesso nem mesmo a esse cercadinho, ficou do outro lado, cercado por outra grade, junto com o público não credenciado. Ou seja, as pessoas que não faziam parte dos convidados de honra. Essa entrada era pelo hotel vizinho, o Brasília Palace, cujo acesso se dá, de carro.

Após duas caminhadas do Royal Tulip ao Brasília Palace, e inúmeros telefonemas à assessoria e ao credenciamento do Palácio do Planalto, 1h45 depois, consegui entrar no hotel em que se deu a cerimônia — com um pedido de credenciamento diário, conforme a rotina normal da imprensa que acompanha do dia a dia palaciano. Imagine a surpresa quando descobri que a imprensa credenciada também estava acompanhando tudo pelo telão. 

Sem água, repórteres sentados na grama embaixo da árvore que faz sombra, fotógrafos e cinegrafistas grudados na grade ao sol para tentar recuperar no telão a imagem que não teriam no auditório ao qual só teve acesso à imprensa que escreve o que a família Bolsonaro gosta. 

Desrespeito, humilhação. Sentimentos relatados entre os jornalistas presentes na cobertura desta quinta-feira (21). Parecidos com o que aconteceu no 1° de janeiro, quando Bolsonaro tomou posse e mandou retirar todas as cadeiras e poltronas do Congresso e proibiu todos da imprensa de levar qualquer alimento.

EVARISTO SA via Getty Images

Discurso sem novidades

Pouco voltado à militância, com mais do mesmo que já foi dito em outros eventos, Jair Bolsonaro, como esperado, improvisou no discurso, e não trouxe nada sobre o futuro do Aliança pelo Brasil. Deu indícios, no trato, de que a radicalização é o caminho. 

Atacou o PSL, pelo qual foi eleito, dizendo que, “no início foi uma união maravilhosa, mas depois problemas apareceram”. 

Também defendeu o chamado excludente de ilicitude, cujo projeto o governo enviou nesta quinta ao Congresso, e afirmou que a aprovação desta proposta “será uma grande guinada do combate à violência no Brasil”.

Uma edição extra do DOU (Diário Oficial da União) desta quinta traz a mensagem com o projeto de lei que isenta de eventuais punições militares das Forças Armadas e integrantes de segurança, como policiais civis e militares que atuam no GLO (Garantia da Lei e da Ordem). 

Você está preocupado com seus familiares e é assaltado na esquina. Ladrão de celular tem que ir pro pau.

Ainda na fala de pouco mais de 30 minutos, Bolsonaro atacou o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que passou da posição de aliado à inimigo após vir à tona, em reportagem da TV Globo, que o depoimento do porteiro do condomínio Vivendas da Barra, onde o presidente tem uma casa na Zona Oeste carioca, envolvia o nome do mandatário na morte da vereadora Marielle Franco (PSol). 

“Se não fosse meu filho Flávio, Witzel não teria chegado a governador. Botou na cabeça chegar a Presidência [da República]. Mas tenta destruir a minha família usando a polícia civil. Não deu certo com o porteiro. Sei que não terei paz até o fim do mandato.”

No evento, o presidente ganhou uma placa feita de munição em referência ao nome do partido.