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18/10/2020 15:42 -03 | Atualizado 18/10/2020 15:48 -03

'Traga sua própria caneta': Como a Bolívia está votando em meio à pandemia

País está realizando eleições presidenciais obrigatoriamente presenciais neste domingo, embora tenha sido duramente atingido pela pandemia.

Deni Blanco costumava vender comida fora dos locais de votação em La Paz, na Bolívia, a cada ciclo eleitoral, uma maneira fácil de ganhar algum dinheiro extra. Este ano, enquanto o país realiza eleições no meio da pandemia do coronavírus, ela está vendendo outra coisa: canetas.

“Minha irmã viu na TV que desta vez cada eleitor deveria trazer sua própria caneta para votar, e ela disse: ‘Por que não as vendemos?’”, disse Blanco, do lado de fora de um local de votação ao ar livre na Ciudadela Ferroviaria, área de baixa renda de La Paz.

Blanco estava vendendo canetas por 1 boliviano (cerca de 0,80 centavos de real) cada e, após duas horas de votação, disse que havia vendido cerca de 50.

A Bolívia está realizando eleições presidenciais obrigatoriamente presenciais neste domingo (18), depois que uma votação de 2019 foi anulada e as eleições posteriores foram adiadas duas vezes em meio à pandemia de coronavírus.

Quase 8.500 bolivianos morreram com a doença até o momento, o que representa uma das maiores taxas de mortalidade per capita do mundo.

ALEJANDRO PAGNI via Getty Images
Uma residente boliviana (L) dá seu voto em uma seção eleitoral em Villa Celina, província de Buenos Aires, Argentina, já que seu país realiza eleições presidenciais.

A votação na Bolívia, muito atrasada devido à pandemia, será um teste para as autoridades eleitorais da região. O vizinho Peru deve eleger um novo presidente em abril.

Os norte-americanos também devem eleger um presidente no mês que vem, mas enquanto nos Estados Unidos os cidadãos podem votar durante vários dias ou pelo correio, isso nunca foi uma opção na Bolívia.

Os paceños, como são conhecidos os moradores de La Paz, disseram que geralmente se sentiam seguros sobre os protocolos, mas nem sempre é fácil manter o distanciamento social. Os eleitores devem usar máscaras, enquanto trabalhadores das eleições além das máscaras precisam usar óculos de proteção.

FERNANDO CARTAGENA via Getty Images
Um indígena lança seu voto em uma seção eleitoral em Quillacollo, Departamento de Cochabamba, Bolívia.

“As pessoas não respeitam o distanciamento social”, disse Eric Echevarria, que votou pela primeira vez. Antes os cidadãos costumavam votar a qualquer hora entre 8h e 17h. Agora as listas de eleitores são divididas em grupos de votação da manhã e da tarde.

Os bolivianos também costumavam mergulhar os dedos em tinta roxa para fazer uma impressão digital após votarem. Agora a tinta deve ser tocada com algodão para evitar o contágio, embora nem todos sigam essa regra.

“Existem pessoas como eu que podem molhar o dedo, afinal não estou doente”, disse Deisy Mamani, eleitora da Zona Sur de La Paz.

O contexto das eleições na Bolívia em 2020

Anadolu Agency via Getty Images
O ex-presidente boliviano Evo Morales fala à mídia sobre a eleição geral boliviana.

Os bolivianos começaram a votar neste domingo (18) em um cenário de profundo antagonismo entre esquerda e direita, que disputam o governo de um país afligido pela pobreza e por temores de convulsões sociais.

O esquerdista Luis Arce, aliado do líder indígena Evo Morales, chega nas pesquisas com estreita vantagem sobre Carlos Mesa, ex-presidente ligado à direita boliviana, que nos últimos anos se inclinou para o centro político a fim de ganhar mais apoio.

Analistas preveem uma “governança frágil” nos próximos cinco anos, já que nem o Movimento pelo Socialismo (MAS) nem a Comunidade Cidadã (CC), de centro, alcançariam a maioria absoluta. Com isso, o futuro presidente governaria sem controlar o Parlamento.

“As eleições de 18 de outubro seriam as eleições mais importantes desde o retorno à democracia (1982), porque ou o partido do ex-presidente Morales segue ou começa um processo de desmantelamento do poder masista (do MAS)”, disse o analista Carlos Valverde.

A votação deste domingo é uma repetição das eleições de outubro de 2019, anuladas por uma suposta fraude atribuída ao ex-presidente Evo Morales, que então pretendia estender seu mandato até 2025.

Esse acontecimento gerou violentos protestos que culminaram com a renúncia do líder esquerdista, asilado hoje na Argentina. A discórdia latente e a fragmentação social na Bolívia se refletem nas pesquisas, que preveem um segundo turno eleitoral.

As falas de ambos os candidatos alimentaram incerteza, segundo o analista Carlos Börth. Com a experiência de 2019, muitos bolivianos optaram por fazer previsões e estocar alimentos para resistir a um eventual cenário de protestos nas cidades e bloqueios de estradas.

Nos últimos dias, os mercados das principais cidades do país ficaram lotados por milhares de pessoas, e foram registradas longas filas de veículos em busca de combustível.

“Há muita preocupação com um possível surto de violência após as eleições”, disse o embaixador da União Europeia (UE) na Bolívia, Michael Doczy.

Neste cenário, o tribunal eleitoral, os partidos políticos, a Igreja e diversos organismos internacionais pediram paz, eleições limpas e respeito aos resultados.

As urnas permanecerão abertas até as 17h no horário local (18h de Brasília), e os primeiros resultados da contagem provisória são esperados para três horas depois

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