LGBT
13/09/2019 02:00 -03 | Atualizado 13/09/2019 13:51 -03

Boipeba vira símbolo da liberdade no meio do litoral baiano

Ninguém é uma ilha: essa é a mensagem da 1ª Parada LGBTQI+ de Boipeba.

Divulgação/Ronaldo Franco
A ilha baiana Boipeba teve sua 1ª parada LGBT no último fim de semana.

CORREÇÃO: Ao contrário do que a primeira versão do texto informava, Boipeba não fica na Baía de Todos os Santos, mas no litoral baiano.

“Digamos que em um ano e meio só vi aqui um caso de homofobia.” É difícil acreditar que essa frase tenha sido dita no país que mais mata LGBTs em todo o mundo e que caminha a passos largos rumo a um conservadorismo cada dia mais violento. Mas essa é a realidade que o empresário Gilvan Reis, 30, vive na Península de Maraú, na Bahia, onde organizou entre os dias 5 e 7 de setembro o Festival das Cores e a 1ª Parada LGBTQI+ da ilha de Boipeba.

O cenário de Boipeba parece com as praias asiáticas do romance de Alex Garland adaptado para o cinema no início dos anos 2000 e estrelado por Leonardo Di Caprio. A diferença é que quem andou pela ilha durante o fim de semana pode encontrar por todos os lados drag queens, gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis celebrando o orgulho de ser quem são.

Depois de viver seis anos na Argentina, Gilvan decidiu que era hora de mudar. Chegou em Boipeba há um ano e meio e descobriu, no coração dessa ilha, uma comunidade escondida e intocada como a natureza do lugar. Abriu a Casinha Latina, um bar-restaurante no meio da vila feito para receber amigos e abrigar a diversidade. Quando completou um ano de existência do empreendimento, trouxe Rosa Morena, a primeira drag queen a pisar montada na ilha. Foi o início de uma revolução.

Nesse tempo, Gilvan descobriu que Boipeba já abrigava uma comunidade de transexuais e uma dezena de casais de gays e lésbicas responsáveis por restaurantes, hotéis e pousadas tão isolados quanto a própria ilha.

“Aqui tem de 10 a 12 empreendimentos que são comandados por casais LGBTs. A Casinha Latina, o Bar das Meninas, o Bar do Rodrigo (que se apresenta como gay-friendly), a barraca de Charlene e, agora, vai abrir um café-teatro, só pra citar alguns. O que a parada fez foi costurar isso, unir as pessoas em torno de uma comunidade”, afirma.

Divulgação/Ronaldo Franco
Gilvan Reis, o idealizador da parada LGBT de Boipeba.
7 de setembro – Dia da Independência – foi escolhido para celebrar o orgulho e a diversidade, mostrando pro mundo o óbvio: ninguém pode mais ser uma ilha rodeado por preconceitos.

Com apenas três meses e meio de organização, a 1ª Parada LGBTQI+ de Boipeba contou, logo de início, com um importante apoio da Prefeitura (no mesmo fim de semana, a Policia Militar de Minas Gerais não autorizou a realização da Parada do Aglomerado da Serra, região centro-sul de Belo Horizonte alegando que o Executivo Municipal não havia liberado o evento). Em Boipeba, o 7 de setembro – Dia da Independência – foi escolhido para celebrar o orgulho e a diversidade, mostrando pro mundo o óbvio: ninguém pode mais ser uma ilha rodeado por preconceitos.

Apesar de a programação ter sido divulgada nas redes sociais da Prefeitura e em sites locais, ninguém ao certo sabia o que iria acontecer. Não por acaso, a programação coincidia com a data em que a única escola municipal do lugar realiza tradicionalmente seu desfile cívico. E foi com um misto de choque, surpresa e curiosidade que nativos e turistas encontraram, na noite de abertura, um homem seminu, de máscara, usando apenas uma jockstrap e amarrado ao teto com cordas de bondage.

Inspirado no trabalho de Marina Abramovic, a performance realizada pelo artista Benin Ortiz permitia que o público interagisse com a obra viva. Batizado de Açougue, o experimento provoca a reflexão sobre a hiperssexualização do corpo macho na cena gay masculina. Para chegar ao bar ou ao banheiro era preciso encará-lo em um corredor com espaço para apenas uma pessoa.

Benin ficou duas horas à mercê do público, que era livre para reagir. Em uma mesa, estavam acessórios como mordaças, vibradores, vinho, tinta, glitter e até mesmo um facão. Diferentemente da apresentação icônica de Abramovic, a experiência não contou com momentos de tensão e violência por parte da plateia.

Divulgação/Ronaldo Franco
Benin Ortiz fez performance inédita em parada LGBT de Boipeba.

“É uma performance chocante, que trabalha com o fetiche. A expressão das pessoas foi surpreendente, principalmente das crianças. Elas olhavam curiosas, chamavam os pais para assistirem. Ninguém usou nada que pudesse me causar dor. Em momento algum me senti ameaçado. Algumas pessoas só chegaram até a porta e formaram um verdadeiro paredão do lado de fora, mas todos receberam a mensagem”, opina Benin.

Ameaça, aliás, é uma palavra que não faz parte do cotidiano dos LGBTQI+ que vivem na ilha, que conta com uma comunidade formada por quatro mulheres trans: Luma Oliveira, Gabriiella Cardim, Sâmia Queiroz e Alexia Santos. Em Boipeba, essas mulheres vivem o que a maioria das transexuais considera uma fantasia – nenhuma delas precisou passar pelo caminho da prostituição. O trabalho formal aqui é regra, não exceção.

Luma aportou em Boipeba há cerca de dois anos. Veio de Valença, um pequeno município na costa baiana, de onde se realiza a travessia de barco para chegar à ilha. “Tenho seis meses de transição. Aqui, me sinto protegida e tenho trabalho. Tenho um namorado há dois anos e ele e a família aceitaram meu processo. Eu não esperava por isso. Nasci em uma família evangélica que até hoje me trata como filho”, lembra Luma, que viveu orgulhosa, pela primeira vez, a experiência de uma parada.

Divulgação/Ronaldo Franco
Tenente Riceri e Luciano Pereira saíram de um lugar conservador, em Minas Gerais, para o abraço de aceitação na Bahia.

Foi esse clima de aceitação e tranquilidade que fez o Tenente Riceri, 38, abandonar a carreira militar e assumir a identidade civil e o relacionamento com o funcionário público Luciano Pereira, 30. Juntos, deixaram a vida em Minas Gerais e comandaram por três anos uma pousada em Boipeba. “Belo Horizonte é uma cidade muito conservadora. Lá, a gente não ficava à vontade para se abraçar na rua, para andar mais à vontade, para sermos livres”, conta o Tenente, que agora atende pelo nome de João Arthur. Junto com Luciano, eles administram agora a Casa da Pracinha, um restaurante friendly no meio da vila.

“A gente conseguiu uma liberdade maior aqui na ilha. Foi uma experiência muito boa que vivemos na pousada. Quando os turistas gays percebiam que éramos um casal, eles reservavam mais facilmente. Ficavam mais à vontade e se sentiam seguros, sabe?”, lembra Luciano. Em 23 de maio de 2018, eles marcaram uma parte da História dessa diversidade: foram o primeiro casal homoafetivo a registrar união estável no cartório de Boipeba.

Assim como outros empresários da ilha, João e Luciano fizeram questão de recepcionar e atender os artistas convidados para a parada, que teve uma programação composta por exibição de quatro curta-metragens com temáticas LGBTQI+, apresentação de um vídeo arte feito pelos próprios moradores da ilha, palestras sobre prevenção de DSTs (doenças sexualmente transmissíveis), shows de drag queens, além do próprio desfile.

Foi a primeira vez que fui atendida em um restaurante como drag queen, estando montada e com dignidade.
Divulgação/Ronaldo Franco
Pela primeira vez que a drag queen Violeta se sentiu bem atendida em um restaurante.

Foi a primeira vez que Violeta Gennsy Anna Black (pseudônimo do dançarino Douglas Bispo) pisou em Boipeba e se sentiu, verdadeiramente, um artista. “Boipeba é um local fora desse mundo que a gente está vivendo. É a primeira vez que eu me sinto uma artista com todos os meus direitos e sendo respeitada como tal. Isso dá mais esperança pra gente continuar. As pessoas não estão acostumadas com nossa presença. Isso é visível. Mas elas estão curiosas, querem conhecer. As pessoas aqui sorriem, as crianças no início sentem medo, mas depois querem tirar fotos. E os pais deixam”, conta Violeta.

Mas o choque entre realidades tão distintas não se restringiu apenas ao público da ilha. Douglas, que é natural de Salvador, a 4ª maior capital do País, nunca havia entrado em um restaurante como drag queen. “As pessoas da organização vieram saber se a gente tinha comido, se queríamos mais, se estava tudo bem. Nos colocaram nos melhores quartos. Em Salvador, a primeira coisa que vai acontecer se eu entrar assim num restaurante é que vou ser expulsa, assim como várias manas já foram. Foi a primeira vez que fui atendida estando montada e com dignidade”, diz, emocionada.

A aceitação, porém, não foi unânime. A organização do evento encontrou resistência entre alguns grupos de Boipeba. “Quando a prefeitura anunciou, surgiu o questionamento que iriam usar dinheiro público para ‘isso’. Mas foi a iniciativa privada que bancou a parada a partir do corre que a gente fez”, afirma Gilvan.

Divulgação/Ronaldo Franco
Diversidade em Boipeba foi mais forte que tentativa de boicote de grupos isolados.

Um abaixo-assinado de boicote chegou a ser planejado, mas a ideia não foi pra frente. A maioria das pessoas na ilha, que vive basicamente do turismo, apoiou o evento. “Já entenderam que o pink money é uma das economias mais fortes do País e perceberam que colocar Boipeba nessa rota, como um destino seguro para LGBTQI+, vai atrair ainda mais esse público e valorizar a ilha. Nossa ideia é fazer um calendário anual de eventos”, aposta o empresário.

A data escolhida para a Parada, 7 de setembro, foi um dos pontos principais da polêmica, que rendeu pequenas discussões até a véspera do desfile. “Historicamente, no Brasil, temos no Dia da Independência o ‘Grito dos Excluídos’ em que toda a população marginalizada se junta para participar do desfile. Essa foi nossa ideia. Ninguém quis fazer a parada para criar um choque com a data cívica. Eles desfilaram pela manhã e a gente à tarde. Os conflitos foram superados pela união”, conta Gilvan.

Com 12 filhos, 30 netos e 20 bisnetos, Dona Neide – nascida e criada na ilha, como ela faz questão de dizer - resumiu o sentimento dos moradores de Boipeba. Aos 84 anos, assistiu ao desfile na porta de casa e tirou foto com todas as drags. “Eu gosto é de dançar, tomar meu whisky, minha cervejinha. Teve gente que disse que ia cancelar excursão porque vinha essa turma pra cá. Que bobagem, né? Confundem uma coisa com outra”, conta Dona Neide ao explicar que aprendeu a não ter preconceitos com a própria vida.

“Por que uma criança não pode ver um desfile desse? Não tem nada demais. É bom pra gente dançar. Quem não gostar que vá pra cama dormir, não é mesmo? Cada um vive sua vida como pode”, conclui.

Divulgação/Ronaldo Franco
Dona Neide não tem o menor preconceito com os diferentes.

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Galeria de Fotos Parada LGBT em Boipeba (2019) Veja Fotos