NOTÍCIAS
12/02/2019 00:00 -02

7 lições valiosas que Ricardo Boechat deixou para os brasileiros

Ícone do rádio e do jornalismo, Boechat morreu aos 66 e deixa imenso legado.

Reprodução/Instagram
Ricardo Boechat era um ícone do rádio e do jornalismo brasileiros.

Morto em um acidente de helicóptero na tarde desta segunda-feira (11), Ricardo Boechat será lembrado, entre outros atributos, pela ousadia e clareza de suas análises e opiniões no rádio, na televisão e nas páginas impressas – feitas invariavelmente em benefício do cidadão comum.

Irreverente, articulado e inconformado com as mazelas do Brasil, Boechat ajudou na construção de alguns dos principais jornais do País, consagrando-se referência do Jornalismo para diferentes gerações de profissionais. 

Boechat tinha 66 anos, quase 50 dedicados ao jornalismo. A seguir, o HuffPost Brasil recorda 7 momentos recentes da carreira de Boechat que repercutiram dentro e fora das redes sociais.

São episódios que trazem consigo importantes lições. E mostram o alto nível de profissionalismo, personalidade marcante e capacidade singular de expressão que farão falta no jornalismo brasileiro. 

É preciso combater a intolerância religiosa no Brasil

Após se posicionar contra casos de intolerância religiosa que ocorreram no Rio de Janeiro, em 2015, Boechat protagonizou um embate com Silas Malafaia — que considerou o âncora “generalista” em seu comentário. Não demorou para o Boechat dar uma resposta pouco amistosa para o pastor na rádio BandNews.

“No âmbito de igrejas neopentecostais, o que está acontecendo são atos de incitação à intolerância religiosa. Mais do que em outros ambientes. E em nenhum momento, é pegar minhas falas que estão todas gravadas, eu disse qualquer coisa que generalizasse esse comentário”, disse Boechat.

“Até porque, diferente de você [Malafaia], eu não sou um idiota. Você é homofóbico, uma figura execrável, horrorosa e que toma dinheiro das pessoas a partir da fé. Você é rico. Eu não sou rico porque tomei dinheiro das pessoas pregando salvação depois da morte. O meu salário, os meus bens, meu patrimônio veio do meu suor, não veio do suor alheio”, concluiu.

 

Depressão é um problema que deve ser discutido abertamente

Em agosto de 2015, Boechat fez um relato pessoal e franco na rádio BandNews FM depois de sofrer um “colapso” e descobrir, após consulta médica, que estava com sintomas de um surto depressivo.

“Quem cai em um quadro desses perde qualquer condição de ficar ativo, de pensar as coisas mais simples. É como se a pessoa morresse ficando viva”, desabafou. O jornalista aproveitou a oportunidade para incentivar a discussão sobre a doença e passar uma mensagem positiva aos que sofrem com ela. 

“Fica claro que é importante não esconder a depressão, não tratá-la na clandestinidade. É importante aceitá-la e combatê-la, e todo o silêncio de todo doente e de quem está a sua volta dificulta a recuperação. E essa necessidade de não fazer segredo, além da sinceridade que faço questão de manter na relação com os ouvintes, é a razão deste depoimento pessoal que estou dando para vocês”, afirmou Boechat. 

“(A depressão) não significa apenas um dia ruim, um contratempo ou momentos de desânimo, ansiedade, que são coisas que todos temos. A depressão é muito mais que isso e muito mais séria: é uma aflição tão séria que restringe a capacidade de uma pessoa funcionar plenamente. É um abismo mental, tão profundo que ninguém pode achar que vai se safar apenas endireitando os ombros ou pensando coisas positivas”, concluiu.

 

É preciso desconfiar da honestidade de quem detém o poder

“Não tem neste País uma viva alma mais honesta do que eu.” A declaração Lula em entrevista a blogueiros simpáticos ao PT, em janeiro de 2016, foi alvo de um comentário contundente do âncora do Jornal da Band, que em pouco mais de um minuto trouxe à tona seu olhar analítico e perspicaz sobre a trajetória do ex-presidente, atualmente preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

“Lula... A quantidade de evidências de corrupção no seu entorno, nas pessoas próximas ao senhor, ao seu partido, ao seu governo e governo da presidente Dilma, a Operação Lava Jato tem cansado de comprovar. Independentemente daquilo que ainda está para ser provado. As evidências já reunidas pela Lava Jato são escandalosas. Então, o senhor pode ser a alma mais honesta do País, mas também será uma das mais ignorantes de todas porque não sabia de nada. Tudo tão próximo e tão distante ao mesmo tempo...”

Todos merecem trabalhar mais confortáveis nos fins de semana

“Vale trabalhar de chinelo, sim! É final de semana, dia de plantão e todo mundo quer ficar mais de boa”, postou Boechat no Facebook em 2015. Irreverente, o jornalista adotou mais de uma vez um look menos formal (pelo menos da cintura para baixo) na rotina de apresentação do Jornal da Band e na rádio BandNews. 

Torturadores não são dignos de elogios e homenagens

Em 2016, ao justificar seu voto pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff, o então deputado Jair Bolsonaro homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra — chefe do DOI-Codi de São Paulo entre 1970 a 1974 e reconhecido pela Justiça como torturador.

A fala parlamentar foi duramente criticada por Boechat na bancada do Jornal da Band. “Registre-se a infinita capacidade do deputado Jair Bolsonaro de atrair para si os holofotes falando barbaridades sucessivamente”.

E prosseguiu:

“Torturadores não têm ideologia. Torturadores não têm lado. Não são contra ou pró-impeachment. Torturadores são apenas torturadores. É o tipo humano mais baixo que a natureza pode conceber. São covardes, são assassinos e não mereceriam, em momento algum, serem citados como exemplo. Muito menos numa casa Legislativa que carrega o apelido de casa do povo”, disse Boechat. 

É preciso inconformar-se com a corrupção que destrói o Brasil

Em novembro do ano passado, após a prisão do governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, Boechat fez ao vivo na BandNews FM uma análise mordaz sobre a corrupção que assola o estado e a lentidão da Justiça.

“O governador Pezão está em cana. O surpreendente desta notícia é que ele só esteja preso agora, considerando que integra uma quadrilha que destruiu o Estado do Rio de Janeiro, comandada pelo também presidiário - condenado a quase 200 anos de prisão - (o ex-governador do Rio) Sérgio Cabral (...) Como é possível que o Rio de Janeiro tenha sido comandado por um mafioso do naipe de Sérgio Cabral, que tinha como vice-governador o Pezão?”, disparou o jornalista.

E prosseguiu:

“Repetindo mais uma ladainha, o Estado do Rio de Janeiro está tão entregue ao que há de pior na gestão pública e na política brasileira, que nós temos hoje o ex-governador Cabral preso, o atual governador preso, dois presidentes da Assembléia Legislativa sucessivamente presos, cinco dos seis conselheiros do Tribunal de Contas do Estado presos - alguns sob prisão domiciliar ou outro tipo de medida restritiva, o ex-chefe do Ministério Público do Estado, Claudio Lopes, preso; nove deputados estaduais presos e o décimo, o ladravaz Picciani (o ex-deputado Jorge Picciani) em prisão domiciliar, segundo seus advogados conseguiram emplacar, padecendo de um câncer na próstata, com incontinência urinária. O que é uma armação. Quem enfrenta o câncer de próstata sabe que ele só se torna incompatível com atividades do dia a dia quando ele chega a um estágio com metástase.” 

Humor também combina com política

Boechat roubou a cena no debate com os candidatos à Presidência da República, realizado em agosto do ano passado pela Band. Com boas sacadas, gírias e divertidas caras e bocas, o apresentador deixou mais leve o ambiente naturalmente tenso entre os candidatos. Sorte da audiência.

Galeria de Fotos Ricardo Boechat morre aos 66 anos, em acidente de helicóptero Veja Fotos