ENTRETENIMENTO
21/07/2020 11:53 -03 | Atualizado 21/07/2020 12:20 -03

Sexy e multicolorida, série 'Boca a Boca' é sobre tolerância, diz Esmir Filho

Diretor fala sobre adolescência, pandemia, sexo e experimentação na série brasileira que está se tornando um hit da Netflix.

Assim que estreou no catálogo da Netflix, na última sexta-feira (17), Boca a Boca chamou a atenção. Por muitas razões, é verdade, mas, à primeira vista, o que mais impressiona é o timing perfeito em relação ao momento de pandemia que estamos vivendo.

A série brasileira conta a história de um grupo de adolescentes em uma pequena cidade interiorana fictícia chamada Progresso, onde uma misteriosa doença transmitida pelo beijo começa a se alastrar entre os jovens.  

“Propus essa série à Netflix há dois anos. A epidemia, quando criamos, funcionava como uma força de antagonismo na saga desses jovens”, conta Esmir Filho em entrevista exclusiva ao HuffPost. O diretor diz que a relação com a covid-19 não foi proposital, mas admite que não há coincidência.

“Quando pesquisamos muitas epidemias ao longo dos anos, desde a peste até a Aids, percebemos que o quadro comportamental da sociedade em todas essas épocas se assemelha muito. Sempre existe pânico, medo, falta de informação, preconceito, embate de classes... Essas questões se repetem”, completa.

Com uma trama bem ao estilo dos livros da saudosa Coleção Vagalume, com as devidas atualizações, Boca a Boca é uma história de mistério, descoberta, experimentação e, claro, embate. Tudo retratado com muitas cores e brilho. Um universo já muito explorado na carreira do diretor, que tem em seu currículo longas e curtas-metragens com temáticas semelhantes, como Saliva (2007) e Os Famosos e os Duendes da Morte (2009).

“Eu gosto muito desse universo do adolescente, do jovem, porque é tudo sobre as primeiras vezes. As primeiras vezes são muito impactantes. O primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro pé na bunda, a primeira vez que eu experimento isso, que eu faço aquilo... Tudo é muito grande”, explica Esmir, que diz estar sempre muito ligado nas formas e formatos de comunicação dos adolescentes.

Algo esperado de quem, provavelmente, criou o primeiro viral do Brasil. Esmir dirigiu Tapa na Pantera, em 2006, curta com a atriz Maria Alice Vergueiro que inaugurou a era dos memes na internet brasileira. 

Veja aqui como foi o nosso papo completo com o diretor:

Vanessa Bumbeers/Divulgação
O diretor Esmir Filho (dir.) e o trio de protagonistas Iza Moreira, Michel Joelsas e Caio Horowicz nas gravações da série "Boca a Boca".

HuffPost Brasil: Quando você começou a pensar a história de Boca a Boca? É impressionante quantos aspectos em comum há entre a trama da série e a pandemia do coronavírus que estamos vivendo agora. Você acha que a questão da pandemia está no nosso inconsciente coletivo? 

Esmir Filho: Nos meus trabalhos, eu gosto muito de abordar assuntos como sexualidade, adolescência/juventude, descoberta, internet e relações humanas no geral. Quando eu propus essa série à Netflix, há dois anos, o grande motivador era a onda conservadora que estava ficando cada vez mais forte no Brasil. Pensando nisso, construí essa cidade que, não à toa, se chama Progresso – que é quase um antro de imagens de controle. Ela representa essas imagens de controle sobre esses corpos querendo experimentar, que são os jovens. Que querem entender os seus corpos, entender como eles se relacionam.

A epidemia, quando criamos, funcionava como uma força de antagonismo. Na saga desses jovens, eles têm de passar por isso – porque não é fácil você expressar seus desejos, questionar regras e testar seus limites em um ambiente repressivo como o de uma epidemia. Ela é um ponto de partida para vermos o que está acontecendo na nossa sociedade. Não tem a ver com vírus. São coisas muito piores. 

Quando pesquisamos muitas epidemias ao longo dos anos, desde a peste até a Aids, percebemos que o quadro comportamental da sociedade em todas essas épocas se assemelha muito. E isso é assustador. Sempre existe pânico, medo, falta de informação, preconceito, corpos privilegiados que acessam tratamentos ao detrimento de outros, embate de classes... Existem muitas questões que se repetem.

Eu já ia lançar essa série independente da covid-19 fazendo a pergunta: “Por que a gente age dessa maneira diante de uma situação sem controle como essa?”. E no fim, terminamos a série e logo depois veio a pandemia e o isolamento. É inacreditável! Agora ficou ainda mais latente para as pessoas fazerem essa relação. Mas a real é que a gente não vem se comportando assim só agora, entende? Essas questões todas eram muito relevantes antes da covid-19, mas agora ficaram escancaradas. A ideia dela não era falar apenas do caos, do medo da doença e tal, mas é lançar uma luz sobre os nossos comportamentos sociais e trazer uma mensagem de acolhimento, de afeto. Mostrando o quanto o afeto e a conexão são importantes na nossas vidas. A gente tem que respeitar o outro. Boca a Boca é, acima de tudo, uma série sobre tolerância. 

Na série você une temas de trabalhos anteriores, como a questão da comunicação/internet em Os Famosos e os Duendes da Morte, do beijo, em Saliva, e dos relacionamentos líquidos, em Alguma Coisa Assim. Boca a Boca funciona como um apanhado de temas mais importantes pra você?

Sim, e de uma forma muito natural. São temas importantes para mim concatenados na série. A internet do Duendes já é retrô, né. Foi até antes do Facebook. A gente estava descobrindo que “estar perto não era físico”, que é a frase forte do filme, com os fluídos do Saliva, os primeiros fluídos trocados, do por que eu bebo a saliva do outro, toda essas questões da pré-adolescência e essas relações sem nome, fluídas do Alguma Coisa Assim, que são tão bonitas, mas também doem muito. Isso tudo você vê no Boca a Boca de uma maneira muito entrelaçada, costurada em uma nova obra. Não é uma releitura do que eu já fiz, mas contém aqueles assuntos na construção de uma fábula contemporânea sobre o afeto, de como os jovens se relacionam hoje.

Vanessa Bumbeers/Divulgação
A atriz estreante Iza Moreira como a jovem Fran, que vê sua amiga Bel (Luana Nastas) se transformar na primeira vítima de uma misteriosa doença.

Aliás, falando nos jovens... Queria que você falasse um pouco do elenco jovem da série, que é incrível. Como você fez a seleção? Como foi trabalhar com eles? O Michel [Joelsas] e o Caio [Horowicz] são mais experientes, mas a Iza [Moreira] e a Luana [Nastas], não. É até o primeiro trabalho da Iza, não?

Desde Duendes, eu gosto de fazer oficinas e workshops para selecionar atores jovens. No caso do Boca a Boca, primeiro a gente pediu para eles uma selftape. Não queria que fosse algo muito montado, então pedi para que eles fizessem algo como um stories com o tema: “Uma menina acordou com um mancha na boca depois de uma festa. Conte o que aconteceu na festa”. Algo bem livre. E cada um contou uma história e foi muito legal ver a criatividade e desenvoltura deles. Foi assim que eu comecei a seleção.

A partir daí passamos para um teste com câmera comigo, eu sou muito presente mesmo nessa fase de testes. Eu nem gosto de chamar de “teste”, prefiro “conversa”, porque eu quero conhecer a pessoa. E depois disso montei um grupo para fazer uma oficina com 60 jovens que viraram os 25 que estão na série. Todo mundo participou desse projeto e todas as participações, independente do tempo de tela, foram escolhidas. Acho importante isso em uma série, porque queremos envolver muitas outras histórias que nascem não só do trio de protagonistas.

O Michel e o Caio fizeram a oficina. Eles entraram no processo – desde o início do processo, porque eu precisava entender eles como um grupo. Fechamos uma classe muito legal. Eles ficaram muito à vontade para trabalhar. E, realmente, a Iza é um estouro. Mesmo sendo o primeiro trabalho dela, senti muita força nela durante as oficinas. Em Boca a Boca conseguimos fazer um processo de ensaio, algo que normalmente não acontece em séries, e isso fez toda a diferença.

Vendo Boca a Boca tive a impressão de ver como seria um livro da Coleção Vagalume hoje...

Que legal ouvir isso!

Sabe, um trama adolescente com profundidade, mas que não abdica de um clima de mistério, de perigo. O que te atrai tanto em retratar esse universo adolescente?

Eu gosto muito desse universo do adolescente, do jovem, porque é tudo sobre as primeiras vezes. As primeiras vezes são muito impactantes. O primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro pé na bunda, a primeira vez que eu experimento isso, que eu faço aquilo... Tudo é muito grande. O jovem quer viver tudo numa noite só. Eu acho isso bonito. Essa capacidade de se jogar e experimentar. Essa questão do autoconhecimento. Você vira adolescente quando você começa a chorar sozinho no seu quarto. Você não chora mais para alguém, você não é mais uma criança. Você chora pra você. Esse “adolescer” me encanta. As dores, a melancolia, a experimentação. É um universo aterrorizante e excitante que eu gosto muito.

As cores têm um papel muito importante não só na identidade visual da série – são quase como personagens. Como foi a construção desse padrão de cores com tanto rosa e azul? Parece até um tendência de muitos cineastas brasileiros como o Gabriel Mascaro (em Boi Neon e Divino Amor), Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, em Tinta Bruta e, principalmente da Anita Rocha da Silveira com Mate-me, Por Favor, que têm muito essa vibe de Boca a Boca.

Cara, muita gente já me falou do Mate-me, Por Favor e você acredita que eu ainda não vi? Mas eu ainda vou ver, e esses outros filmes eu gosto muito. Falando das cores em Boca a Boca... É uma história que começa com dualidades, fronteiras. Tem a cidade e “os de fora” da cidade, a sede e a colônia, os pais e os filhos... A série quer borrar essas fronteiras. Quer a gente pare de trabalhar em dualidade. Usamos o rosa e o azul exatamente para mostrar essa dualidade que precisa ser misturada. Nem faz tanto tempo rolou esse papo de rosa e azul como definidor de gênero. Em Boca a Boca o rosa e o azul se fundem, nós temos muito roxo. A interceção dessas cores era muito importante pra mim. Você acredita que nosso fotógrafo se chama Azul? Azul Serra.

Divulgação
O trio de protagonistas Fran (Iza Moreira), Chico (Michel Joelsas) e Alex (Caio Horowicz).

Já que você tocou nesse ponto, queria saber das suas influências e referência em Boca a Boca. Adorei aquele uniforme tão Wes Anderson...

Todo mundo adorou o uniforme, queria levar um pra casa. Trabalho da nossa figurinista, Andrea Simonetti. Agora, falando em influências, eu não posso deixar de citar Black Hole, uma HQ do Charles Burns. Ela conta a história de uma cidadezinha no interior dos EUA onde os jovens começam  a ter relações sexuais e a virar mutantes. É um trabalho que fala muito desse sentimento que queremos mostrar em Boca a BocaBlack Hole foi uma grande influência. 

A série estreou já em 10° lugar no Top 10 da Netflix. Como está sendo para você essa repercussão tão rápida da série?

Foi bastante rápido, né? O boca a boca funcionou! [risos] Essa coisa do streaming faz você encontrar logo o seu público. Eu estou maravilhado com o tanto de gente que está repostando e indicando a série. Ver o próprio público fazendo a divulgação para as pessoas assistirem é maravilhoso. E quanto mais as pessoas assistirem e interagirem, teremos mais chance de fazer uma segunda temporada.

Aliás, assim que terminei o último episódio, fiquei com aquele (desculpe o trocadilho) “gosto na boca” de uma segunda temporada. Está mesmo nos seus planos?

Sim! Eu quero terminar essa história, quero seguir. Estou com muitas ideias. Estou pronto para escrever. Ainda dependemos muito de entender como vai reverberar no público, mas eu estou achando que está funcionando.

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