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26/02/2020 17:21 -03

Para amenizar repercussão, Bolsonaro defenderá que vídeos não convocam ataques

Após reclamação de parlamentares, ministro Ramos conseguiu convencer presidente a postar resposta. Ordem é que ministros não comentem nem compareçam a atos.

CARL DE SOUZA via Getty Images
Presidente em julho de 2018, durante a campanha eleitoral. 

Depois de compartilhar vídeos com convocação de manifestações para 15 de março, o presidente Jair Bolsonaro vai se apoiar no argumento de que nenhum deles faz menção direta a ataques a outros poderes para tentar reduzir a repercussão negativa do episódio. Além disso, decidiu solicitar que seus ministros evitem comentar e, especialmente, comparecer aos atos. 

O convencimento do mandatário se deu, desta vez, pelas mãos do general Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo da Presidência, que tomou a frente da persuasão do mandatário até para que Bolsonaro falasse sobre o tema no Twitter esta manhã. 

Ramos tem sido procurado por parlamentares desde a noite de terça (25) e ouvido reclamações sobre o apoio do presidente aos atos. 

Entre os recados que chegam pelos congressistas estão que as atitudes de Bolsonaro “elevam muito a temperatura” e que, se assim continuarem, o acordo costurado nas últimas semanas em torno dos vetos presidenciais ao Orçamento pode não ser cumprido, segundo dois deputados que conversaram com o ministro. 

Esse acordo, porém, já vem sendo posto em xeque desde as declarações, na semana pré-Carnaval, do ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), Augusto Heleno, que acusou o Congresso de “chantagear” o governo. O áudio foi captado pelo jornal O Globo durante uma cerimônia.

O presidente compartilhou ao menos dois vídeos pelo WhatsApp que chamam a população às ruas em seu favor. Segundo justificou nesta quarta-feira (26), tratam-se de mensagens privadas. Ao se explicar, porém, não desmentiu os vídeos e tampouco tratou de tentar amenizar o clima das redes sociais. 

Por lá, há inúmeras mensagens em tom mais elevado por parte de bolsonaristas e aliados seus, que falam em ataques contra o Congresso e o Judiciário, e também na participação de militares nos atos.

No Planalto, apesar das orientações para que os ministros do governo não comentem ou apoiem publicamente as manifestações do dia 15, sabe-se que é impossível controlar os filhos do presidente e aliados, o que acaba provocando um desgaste, mesmo que indireto.

Nesta quarta, ao retrucar uma mensagem da jornalista Vera Magalhães - foi dela a primeira notícia sobre o compartilhamento, pelo presidente, dos vídeos sobre os protestos -,o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) deu a entender que não seria ruim jogar uma bomba no Congresso. “Se houvesse uma bomba H no Congresso você realmente acha que o povo choraria?”. 

Também Carlos Bolsonaro partiu de um ataque à jornalista para minimizar uma mensagem que fala sobre a convocação de generais para as manifestações.

O filho 02 chama de “mau caratismo” um post em que a jornalista cobra do vice-presidente, general Hamilton Mourão, uma resposta sobre uma das postagens que tem circulado nas redes sociais na qual se afirma que “os generais aguardam as ordens do povo”. 

Do lado do Congresso, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), postou no Twitter no início da tarde desta quarta, uma resposta institucional, na qual fala na necessidade de “respeito às instituições democráticas”. 

As críticas ao comportamento do presidente foram muitas e vieram de todos os lados. O general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que deixou o governo no ano passado, classificou de “irresponsável” uma montagem com as imagens de Heleno, Mourão e de outros militares que apoiam o governo, na qual destaca-se a frase “os generais aguardam as ordens do povo” e se pede “Fora Maia e Alcolumbre”. 

“Exército - instituição de Estado, defesa da pátria e garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem. Não confundir o Exército com alguns assuntos temporários. O uso de imagens de generais é grotesco”, escreveu o ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência. 

Nos bastidores, tanto Legislativo quanto Judiciário olham para o movimento, que vem numa crescente nas últimas semanas, com preocupação. Avalia-se que o momento ainda é de observação e análise. Porém, não se pode “fechar os olhos” e deve-se “manter o alerta aceso”, disse um parlamentar próximo ao presidente da Câmara ao HuffPost. 

Outro destacou que a manifestação é uma boa oportunidade de notar como está, de fato, a popularidade do presidente, um “teste”. Destacou que, se ele conseguir levar muita gente para as ruas, “aumenta a nossa preocupação do lado de cá”. Ele, porém, diz acreditar “que Bolsonaro já se desgastou muito neste primeiro ano de governo”. 

Nesse contexto de compartilhamento de vídeo e convocação de manifestação, há integrantes da esquerda levantando a bola do impeachment. Embora a hashtag #ImpeachmentDeBolsonaro esteja em uso por alguns integrantes da esquerda e entre os trending topics no Twitter, essa não é uma opção com a qual a cúpula do parlamento trabalhe.

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