ENTRETENIMENTO
05/06/2019 21:21 -03 | Atualizado 06/06/2019 10:54 -03

Corpos negros e potencial revolucionário do amor se encontram em 'Black Velvet' e 'Black Hole'

Os bailarinos Shamel Pitts (EUA) e Mirelle Martins (Brasil) levam para o Rio espetáculos de dança que refletem sobre potências do corpo, afeto e acolhimento.

Black Velvet – Architectures and Archetypes (Veludo Negro - Arquiteturas e Arquétipos) e Black Hole - Trilogy and Triathlon (Buraco Negro - Trilogia e Triatlon) são destaques da 8ª edição do Cena Brasil Internacional, festival de artes cênicas que começa nesta quarta-feira (5), no CCBB e na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, ambos no centro do Rio de Janeiro.

São dois espetáculos de dança contemporânea, a segunda e a terceira partes da chamada trilogia Black Series, criada e protagonizada pelos bailarinos Shamel Pitts, americano, e Mirelle Martins, brasileira.

“Em Black Velvet nós exploramos as relações de companheirismo, similaridades, diferenças e de conexão entre duas pessoas. Mas a questão da identidade – o masculino e o feminino – é um conceito bem fluido no palco”, explicou Mirelle em entrevista por telefone ao HuffPost Brasil.

“O cenário e as luzes são simples. Essa simplicidade vista também nos movimentos faz com que a audiência se aproxime de nós. São gestos que qualquer pessoa faria”, conta a dançarina. “Há também movimentos com vigor, mas nosso objetivo é mostrar a força do corpo com uma ótica de afeto, amor e acolhimento.”

O espetáculo foi criado por Pitts e Mirelle em 2016, mas a dupla se conheceu em 2013, época em que o bailarino ainda integrava o grupo israelense Batsheva, uma das companhias de dança mais renomadas do mundo e na qual atua o coreógrafo Ohad Naharin, criador da linguagem de movimento Gaga.

Essa linguagem que, segundo Mirelle, mostra que “todo mundo sabe dançar”, oferecendo ferramentas para que a pessoa encontre “força, estabilidade e equilíbrio corporal”, foi o que uniu a dupla.

Aos 28 anos, a então publicitária Mirelle abandonou a carreira corporativa e decidiu ir atrás de um curso de dança que não exigisse experiência em “balé, jazz ou qualquer outra técnica”. Viajou para Nova York, onde fez aulas e se conectou artisticamente com Pitts.

Em 2015, longe da companhia de dança, Pitts deu início à sua produção autoral criando a primeira parte de Black Box, um espetáculo solo que reflete sobre as experiências de um artista negro que já se apresentou em palcos do mundo inteiro. No ano seguinte, ele convidou Mirelle para criar o que viria a ser Black Velvet.

“Eu me sinto bastante privilegiada por ter recebido esse convite do Shamel. Ele é um dançarino muito competente, que trabalha pesado e esteve em grandes companhias do mundo inteiro, além de ser um artista muito criativo e muito inovador”, elogia Mirelle.

 

Black Hole - Trilogy and Triathlon faz referência a uma prova de triatlo e traz à tona os conceitos de buraco negro e afrofuturismo. O espetáculo foi criado no ano passado, estreou na Bulgária, passou pela Itália e chega agora ao Brasil.

No palco, o público acompanha uma produção mais elaborada com vídeo mapping e projeções do brasileiro Lucca Del Carlo. Outros dois dançarinos negros também acompanham Shamel e Mirelle nas performances: Tushrik Fredericks, da África do Sul, e o brasileiro Ricardo Januário.

Questionada sobre a sensação de trazer novamente para o Brasil espetáculos aplaudidos em palcos do mundo todo (e festejado pela crítica do The New York Times) em um momento de questionamento da cultura no País, Mirelle afirma que a dupla sente como se estivesse “nadando contra a maré”.

“Mas ao mesmo tempo sentimos uma coisa da pertinência do tempo. Esses problemas que acontecem e que a gente não deseja politicamente ou socialmente acabam nos dando mais certeza de que precisamos fazer esse trabalho agora.”

“A gente acredita mesmo nesse potencial... Vai parecer meio clichê... Nesse potencial revolucionário do amor [risos]. Minha conexão com o Shamel é muito forte e a gente quer mostrar isso no palco e aproximar as pessoas — não só da gente, mas desse contexto”, afirma Mirelle. 

“Queremos que elas não se sintam somente assistindo a algo separado delas, mas que também possam refletir sobre suas próprias emoções e afetos.”