OPINIÃO
09/06/2019 01:24 -03 | Atualizado 09/06/2019 14:31 -03

'Black Mirror': Nova temporada volta às origens, mas não empolga

Retorno ao formato de três episódios por temporada não surte o efeito esperado e série naufraga em tramas pouco inspiradas.

ATENÇÃO: Se você ainda não viu a nova temporada de Black Mirror e não quer estragar nenhuma surpresa da trama, não leia este texto agora. Volte apenas depois de assisti-la.

Desde que migrou do Channel 4 para a Netflix, em 2016, a aclamada série Black Mirror passou a sofrer mais críticas que o comum. Enquanto na rede inglesa suas temporadas tinham apenas três episódios, na plataforma de streaming americana passaram a ter o dobro.

Esse aumento no número de episódios exigidos pelo padrão americano de séries acabou impactando de forma negativa na qualidade das tramas criadas pelo showrunner Charlie Brooker.

O produtor e roteirista inglês entendeu o recado e a 3ª temporada (a 5ª somando os tempos de Channel 4) da série de antologias de ficção científica voltou às origens agora, liberando na última semana apenas três novos episódios.

Mas essa atitude se refletiu de maneira positiva na série? 

A resposta é... Nem tanto.

É claro que, em uma série em que cada episódio tem uma história fechada e sem nenhuma conexão direta entre eles, é praticamente impossível manter um padrão. Mas com temporadas tão curtas, as chances de sucesso aumentam, e não é exatamente o que acontece aqui.

É verdade que há ótimos momentos em Striking Vipers e Smithereens, mas a criatividade da série parece ter se exaurido após duas temporadas com o dobro de episódios que normalmente teria. E olha que mesmo nos tempos de BBC ainda há episódios bem fracos.

 

Episódios

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Anthony Mackie e Yahya Abdul-Mateen II como Danny e Karl em cena do episódio Striking Vipers.

O melhor dos três episódios, Striking Vipers acrescenta um bom twist à la Black Mirror para as histórias de relacionamentos atingidos pela rotina e pelas responsabilidades da “vida adulta”. Não é nada muito inovador, mas tem seu tempero.

Nele, Danny (Anthony Mackie) reencontra Karl (Yahya Abdul-Mateen II), um amigo dos tempos de faculdade, em seu aniversário. Para lembrar os velhos tempos, Karl dá de presente para Danny uma nova versão de um jogo de luta que os dois adoravam jogar quando dividiam um apartamento. Passando por um momento um tanto estagnado em seu casamento com Theo (Nicole Beharie), Dany resolve voltar a jogar com seu amigo, fato que vai, de uma forma inesperada, abalar o relacionamento com sua esposa.

A história é OK e a visão crítica sobre nossa relação com a tecnologia (tema que se espera de Black Mirror) está lá, mas a impressão que fica é que falta “punch”. O episódio fala sobre tabus pisando em ovos, sem muita convicção. O que fica de mais interessante mesmo é - no caso dos paulistanos e de quem vive em São Paulo - reconhecer as locações, pois boa parte do material foi filmado na capital paulista.

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Andrew Scott é Chris, um motorista de aplicativo que sequestra o funcionário de um tipo de Facebook para poder falar com o presidente da empresa.

Smithereens, por sua vez, é o episódio de Black Mirror menos Black Mirror de toda a série. Talvez por se passar não em um futuro próximo, mas em 2018, a questão da tecnologia é abordada de forma pouco criativa. Ou é uma novidade saber que as redes sociais estão mexendo com as relações humanas?

Dito isso, o episódio não é particularmente ruim. É bem construído e Andrew Scott (mais conhecido como o vilão Jim Moriarty, da série Sherlock) se sai bem, mas não traz absolutamente nada de novo uma situação clichê como o cerco a um sequestro.

Na trama, o visivelmente atormentado motorista de aplicativo Chris (Scott) sequestra um passageiro que trabalha em um tipo de Facebook chamado Smithereens. Seu objetivo é falar por telefone com o criador da empresa, Billy Bauer, um guru da tecnologia bem ao estilo Steve Jobs.

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Já Rachel, Jack and Ashley Too é, disparado, o mais fraco dos episódios. Se os outros dois possuíam algumas qualidades, este aqui é o ponto fora da curva. Muito, muito fraco. Tanto a história quanto a atuação de Miley Cyrus, que até o lançamento era o grande chamariz da temporada.

A história da pop star famosa que no fundo é uma pessoa infeliz por ser manipulada por uma empresária maldosa é tão batida que chega a dar vergonha alheia.

A estrela em questão é Ashley O (Cyrus), uma jovem cantora pop mega famosa que acaba de lançar um robozinho chamado Ashley Too. Um desses robôs se transforma na grande amiga da tímida Rachel (Angourie Rice).

Quando Ashley O entra em coma, sua consciência acaba transferida para o robô de Rachel e ela, junto com sua irmã mais velha Jack (Madison Davenport), precisa salvar a cantora que é vítima de um plano maligno de sua tia e empresária Catherine (Susan Pourfar).

Parece que Brooker, empolgado pela presença de Miley Cyrus, resolveu escrever um episódio de Hanna Montana ao invés de um de Black Mirror. E Cyrus parece que também entrou na mesma vibe, achando que fazer as caretas de seu tempo de atriz mirim é o mesmo que atuar de verdade. Forte concorrente a pior episódio de toda a série.