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Ícone das praias cariocas, combo Biscoito Globo e mate gelado tem origens bem distantes do Rio

O Biscoito Globo, pasmem, é paulista.

″Ó o mate bem gelado... Ó o biscoito Globo!”

Quem já passou um dia nas praias cariocas, principalmente em Copacabana e Ipanema, já sabe quão carimbada é essa dupla. O combo do Biscoito Globo, conhecido biscoito de polvilho, com o chá de erva-mate bem gelado é vendido aos montes e é o símbolo da praia do Rio.

Mas, apesar fazer sucesso entre os cariocas, este combo tem origem bem distante do Rio de Janeiro.

O Biscoito Globo, pasmem, é paulista. O quitute foi criado em 1953 em uma padaria no bairro do Ipiranga, em São Paulo, pelo imigrante espanhol Milton Ponce, um dos responsáveis pela receita.

Ponce só levou o biscoito para o Rio de Janeiro em 1955, durante um congresso eucarístico internacional. Por lá, ele vendeu muito mais do que havia previsto e resolveu se mudar para a capital fluminense e investir seu negócio por lá. Abriu uma fábrica no bairro de Botafogo e mudou o nome do até então “Biscoitos Felipe” para “Biscoito Globo” ― vale lembrar que não existia a emissora naquela época, apenas o jornal O Globo.

Por ser um produto leve e saudável (a receita só leva polvilho, gordura, leite e ovos), o biscoito passou a ser comercializado em padarias, mercadinhos e na praia carioca. Nesta última praça, ele se destacou, uma vez que não existia comércio nas areias do Rio.

“Eu diria que esse sucesso não se repete em outros lugares porque o casamento Biscoito Globo e carioca é um casamento perfeito, daqueles que jamais seria a mesma coisa em outro lugar”, disse em entrevista ao UOL a escritora Ana Beatriz Manier, que lançou em 2017 uma biografia do biscoito chamada Ó, o Globo! - A história de um biscoito.

Somado a isso, a forma de distribuição também ajudou a tornar o biscoito um ícone carioca. “Desde seu início, o biscoito tanto era oferecido a quilo para outras padarias, quanto vendido diretamente ao consumidor em saquinhos semelhantes aos de hoje, e por vendedores ambulantes que estavam sempre à procura de lugares com boa aglomeração de gente. O principal deles, a praia”, completou Manier ao UOL.

Já o chá mate gelado é feito da árvore de erva-mate, originária da região subtropical da América do Sul. A marca Leão, a mais famosa nas praias do Rio, foi fundada em 1901 no Paraná. Batizada primeiramente de Leão Junior, ela passou a ser chamada de Mate Leão e, em 2007, foi comprada pela Coca-Cola Brasil.

Coincidentemente, o mate gelado passou a ser conhecido no Rio na mesma década em que o Biscoito Globo conquistava espaço nos corações fluminenses. Na década de 1950, surgiu na cidade o hábito de tomar mate gelado e as principais vendas durante o verão vinham das areias ou do estádio do Maracanã.

Para adequar às necessidades do público praiano, na década de 80, a companhia lançou Matte Leão em copos selados, chás prontos para beber.

Apesar dos esforços, são os galões de mate que reinam nas praias do Rio. Ambulantes enfrentam o sol forte com galões de 50 litros, aos gritos “Olha o mate, geladinho”. Para satisfazer a clientela, o Biscoito Globo não pode faltar para completar o lanchinho praiano.

Em 2009, a prefeitura do Rio de Janeiro chegou a proibir a venda de mate em galão por “controle sanitário”. Isso gerou revolta entre os frequentadores das praias cariocas, que chegaram a apresentar um abaixo-assinado pela volta da tradição.

A reivindicação popular deu frutos e, em 2012, o mate foi declarado oficialmente patrimônio cultural e imaterial da cidade do Rio de Janeiro.