A biscoitagem nas redes sociais pode virar uma questão de saúde pública?

Independentemente do debate, se você pode ficar em casa, está fazendo o certo e não adianta querer achar que todos façam a mesma coisa, pois não vão.

Nos últimos dias, as redes sociais foram invadidas por imagens fortes de um novo normal que mais se parece com o velho normal. São pontos turísticos e locais de lazer com aglomerações bem parecidas com o que era visto no período pré-pandemia, com a diferença de que ainda estamos em um momento que exige medidas de combate ao novo coronavírus.

A ideia de que as pessoas estão deixando o isolamento tem respaldo na pesquisa Pnad Covid-19, feita pelo IBGE, e divulgada na sexta-feira (11). De acordo com a sondagem feita entre 16 e 22 de agosto, apenas 19,7% da população seguem em isolamento rigoroso e 36,2% reduziu o contato, mas continua saindo de casa e/ou recebendo visitas.

Tanta gente deixando o isolamento de lado reverbera também em mais vídeos, selfies, stories, tuítes, entre outras postagens nas redes sociais em momentos de lazer fora de casa, muitas vezes sem máscara. Enquanto rolam o feed, as pessoas que seguem isoladas em casa se sentem trouxas, enganadas, chateadas, e podem até sentir que estão no caminho errado da história.

Gráfico com medidas de restrição de contato adotadas pela população, de acordo com a pesquisa Pnad Covid.
Gráfico com medidas de restrição de contato adotadas pela população, de acordo com a pesquisa Pnad Covid.

Por causa desses posts, o biólogo e mestre em engajamento de pessoas e comportamento humano, Hugo Chaves, fez um post em seu perfil pessoal no Instagram no dia 3 de agosto. A ideia era mostrar que estava vendo na timeline encontros de amigos e selfies na rua sem máscara e que isso poderia fazer com que outras pessoas também parassem de usar máscara e se proteger.

A publicação é um desabafo que resume muito bem o sentimento de muita gente, pois teve mais de 350 mil pessoas alcançadas, mais de 85 mil likes, 60 mil compartilhamentos nos stories e pelo menos mil comentários. O número é muito alto para uma conta de 3.800 seguidores.

Ele diz que a repercussão foi bem maior do que o esperado e que a maior parte dos comentários foi de gente que se identificou, que achava que estava só tendo este tipo de sentimento. Houve quem discordou, ressaltou a possibilidade de sair um pouco de casa e ainda manter o distanciamento e muita gente também lembrou da responsabilidade do governo (afinal, os lugares estão reabrindo) e que afirmou que as pessoas não poderiam ser culpadas.

“Querendo ou não, a gente fica um pouco cansado de ficar preso, estar em quarentena. A grande reflexão que eu tentei causar é por que a gente acaba postando essas fotos? Eu acredito que as pessoas postam porque elas precisam compartilhar o que estão fazendo. Bate muito nesse ponto. Mas o que seria só pra ganhar um biscoito pode desencadear uma questão de saúde pública”, alerta.

De acordo com Issaaf Karhawi, doutora em comunicação e pesquisadora digital da USP (Universidade de São Paulo), essa confusão acontece por causa de espécie de mistura entre público e privado nas redes sociais num momento em que vivemos dilemas morais muito sérios.

“Todas nossas esferas da vida podem ter muita visibilidade no digital. No caso, a gente ter de lidar com questões muito íntimas do isolamento, e ao mesmo tempo, ter que lidar com o que é público do outro, aquilo que o outro coloca nas redes sociais”, explica.

Imagens de praia lotada no feriado com comentário do Twitter sobre a pandemia do novo coronavírus
Imagens de praia lotada no feriado com comentário do Twitter sobre a pandemia do novo coronavírus

Ela lembra que há aquelas pessoas que escolheram usar suas redes sociais com um vínculo de legitimidade e autenticidade, então sair de casa pra fazer algo significa registrar com uma selfie ou um vídeo, por exemplo.

“É como se não postar uma foto fosse romper com esse estatuto da internet, com essa linha de autenticidade. Só que a gente tem que sair desse pensamento de que as redes sociais são estritamente privadas, meu conteúdo, minhas regras, e pensar que é um espaço coletivo. Portanto é um espaço de troca”, afirma.

E o que pode ser apenas uma foto linda pra registrar um momento de alegria, que vai te dar o famoso biscoito dos seguidores em forma de likes, também pode causar um sentimento muito ruim em outras pessoas. Mas ao mesmo tempo, temos de lembrar que não estamos falando de algo proibido.

“E a gente não pode perder de vista que tem um afrouxamento da quarentena por várias prefeituras e governos e isso vai refletir nas decisões das pessoas. Ninguém está praticando atos criminosos, a gente está vivendo um dilema moral e eles são potencializados na internet”, explica Issaff.

Quem acompanha com um olhar atento as redes sociais já percebeu uma série de movimentos desde o começo do isolamento social. Teve a fase de que todo mundo tinha que ocupar a mente e o suposto tempo livre com lives, cursos, ioga, pão caseiro, entre outras atividades. E gente reclamando que não conseguia fazer nada disso.

Um pouco depois começaram as indiretas para os que estavam afrouxando um pouco o isolamento social de meses para encontrar poucos amigos ou parentes. Agora vem uma sensação geral de que quem ainda está isolado está fazendo papel de trouxa em casa enquanto outros aproveitam a vida. Mesmo sabendo que o vírus continua por aí e provavelmente não vai embora.

O tribunal da internet com seus cancelamentos de um lado e fadas sensatas que nunca erraram do outro nunca esteve tão vivo.

Imagens de praia lotada no feriado com comentário do Twitter sobre a pandemia do novo coronavírus
Imagens de praia lotada no feriado com comentário do Twitter sobre a pandemia do novo coronavírus

“A internet é essa vitrine da vida do outro, a internet adora dilemas morais, questões de certo e errado. Porque é assim que as redes sociais funcionam, elas seguem uma lógica binária, que é a lógica do algoritmo, do curtir ou não curtir, do comentar ou não comentar”, lembra Issaff.

E os influenciadores digitais se veem mais expostos do que nunca por meio da forma como estão lidando com a pandemia, com tudo que postam e os exemplos que estão dando para milhares ou milhões de pessoas. Issaff afirma que esta cobrança e reflexão crítica sobre o papel veio muito em função da pandemia.

“A gente começou a refletir por que esse influenciador está nesse lugar, quem o colocou nesse lugar (e chegamos à conclusão que fomos nós), e sobre como ele deve agir ocupando um espaço de prestígio na internet. E nesse momento nós seguidores precisamos exigir posturas mais éticas deles, assim como exigimos de profissionais de outros campos do conhecimento”, explica.

E se você que está lendo este texto acha que não pode influenciar ninguém, pois não têm milhares ou milhões de seguidores, saiba que não é bem assim. De certa forma todos que estão na internet são influenciadores digitais.

“Nós somos todos influentes em alguma medida, todo grupo social vai ter o seu próprio influenciador. Até no mais diminuto, entre irmãos, por exemplo, vai ter aquele que influencia mais. É natural, é nossa forma de se relacionar”.

“Quando um sujeito tem influência em um grupo, a gente começa a atribuir a ele algumas características imaginadas. A gente vai considerar que essa pessoa pode ser responsável e ética. Pode ser um amigo ou celebridade. E quando essa pessoa aparece sem máscara, é como se esse pacto fosse rompido. Tem essa sensação de frustração.”

- Issaaf Karhawi, doutora em comunicação e pesquisadora digital da USP
Imagens de praia lotada no feriado com comentário do Twitter sobre a pandemia do novo coronavírus
Imagens de praia lotada no feriado com comentário do Twitter sobre a pandemia do novo coronavírus

Se você pode ficar em casa, ainda está fazendo o certo

Não importa se você se sente mal quando vê aglomerações nas redes sociais, se você está em casa evitando tudo isso, você está fazendo o certo. É o que lembra a infectologista Ingrid Cotta, do hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo.

“Essas pessoas estão corretas. Todo mundo tem de colaborar da forma que pode no controle da pandemia. Nós sabemos que tem uma parte da população que está indo trabalhar, mas a gente também está contando com quem vai ficar em casa. Não adianta querer que todos façam a mesma coisa”, explica.

Essa resposta nos lembra também o post do Hugo Chaves, que comentamos anteriormente. Ele contou ao HuffPost que está em casa desde março, por ter pessoas do grupo de risco em casa, e que está sendo muito difícil, embora tenha o privilégio de ter uma varanda no apartamento.

“Eu sempre tento lembrar o motivo de eu estar fazendo isso. Às vezes eu estou cansado, estressado, mas lembro que não estou levando o vírus para outras pessoas que não estão no hospital. É esse meu mecanismo para ficar bem, é melhor eu ficar estressado do que levar o vírus para outra pessoa”, conta Hugo.

A infectologista Ingrid Cotta também afirma que o aumento das pessoas que estão afrouxando o isolamento social e as imagens que vimos no último feriado prolongado, podem contribuir para um aumento do número de mortes e de contágio nas próximas semanas.

“Todas aquelas pessoas estão correndo um risco muito grande de pegar o vírus. Eu tenho uma paciente que passou a quarentena toda de máscara isolada em casa, fazendo home office e resolver ir para um restaurante com cinco amigas e pegou covid. Essa é a realidade que a gente está vivendo”, exemplifica.

No momento, o Brasil tem mais de 130 mil mortos pela doença, com mais de 4 milhões de casos confirmados. Embora haja uma queda na média diária do número de mortes por covid, o vírus não vai embora e ele não faz distinção nem escolhe um momento específico para infectar uma pessoa.

Vale lembrar que ninguém estava preparado para controlar uma pandemia, mas que estamos todos no mesmo barco e temos sim essa tarefa desafiadora, que não é só das autoridades, dos profissionais de saúde e dos meios de comunicação. É de todos. “A gente está lidando com população e a gente pode esperar comportamentos diversos, inclusive esse de não cumprir o isolamento social”, diz a infectologista.

E, por mais que pareça algo repetitivo, lembre-se sempre de lavar as mãos, manter o distanciamento sempre que possível, usar máscara tapando o nariz e a boca. Vale lembrar que as vacinas já estão em desenvolvimento e que tudo isso vai passar. Parece que vai demorar um pouco mais do que a gente gostaria, mas vai passar.

“As medidas preventivas continuam mantidas e precisam ser mantidas firmes e fortes. A vida não é igual e as responsabilidades não são iguais para todo mundo. Agora mais ainda. Tem parte que tem que fazer isolamento e parte tem que ir trabalhar. Vai passar tudo isso, só que ainda não passou e a gente precisa fazer as recomendações direitinho.”

- Ingrid Cotta, infectologista do hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo.