COMPORTAMENTO
14/07/2019 08:00 -03

Os erros da segunda temporada de ‘Big Little Lies’ sobre a terapia

“Para começar, não existe terapeuta infantil que apareça vestido como a Pequena Bo Peep ou qualquer outro personagem.”

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A doutora Amanda Reisman durante uma sessão em “Big Little Lies”.

No terceiro episódio da segunda temporada de Big Little Lies, Renata Klein (Laura Dern) contrata a doutora Pequena Bo Peep, psicóloga especializada em crianças, para conversar com sua filha Amabella (Ivy George), depois de a menina ter um ataque de pânico na escola durante uma discussão sobre o livro infantil Charlotte’s Web.

“Mal posso esperar para te encontrar de novo! Vou trazer chá e biscoito!”, diz a psicóloga – usando fantasia e com uma voz ridícula – a uma Amabella sorridente, no fim de uma sessão em casa.

Quando está sozinha com Renata e o marido, Gordon (Jeffrey Nordling), a doutora Bo Peep tira os dentes postiços e insiste que Amabella não está ansiosa porque sofre bullying. Não, não. A menina está aterrorizada com o fim do mundo depois de a professora falar sobre o relacionamento entre o porco Wilbur e a aranha Charlotte – que no fundo teria a ver com sustentabilidade ambiental.

(Ah, e é claro que ela percebe que tem alguma coisa errada entre seus pais, que estão brigando porque Gordon perdeu toda sua fortuna em negócios duvidosos.)

Detalhes à parte, a doutora Bo Peep jamais, jamais existiria no mundo real, segundo especialistas.

“Para começar, não existe terapeuta infantil que apareça vestido como a Pequena Bo Peep ou qualquer outro personagem”, diz ao HuffPost a psicoterapeuta de Nova York Kathryn Smerling, especializada em casais e famílias. “Isso diminui a eficácia da terapia lúdica e infantiliza o profissional. E, acima de tudo, não é apropriado. A criança estabelece laços com o personagem, não com uma pessoa real, que é a antítese da terapia lúdica bem-sucedida.”

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A doutora Pequena Bo Peep em Big Little Lies.

Para uma série elogiada na primeira temporada por sua descrição realista da terapia, é uma infelicidade que na nova temporada o que se vê na tela sejam situações nada éticas. Smerling gosta de ver psicólogos retratados na TV como “ouvintes ativos e sinceros”.

Já o psicólogo Andrew Schwehm, também de Nova York, disse que séries de TV podem ajudar a “reduzir o estigma” em torno da terapia e mostrar para as pessoas o que acontece nos consultórios.

Há uma longa tradição de psicólogos e terapeutas na TV. Entre outros, temos Frasier Crane (Kelsey Grammer) em “Frasier”, Edna Keener (Patricia Bethune) em “Mad Men”, Paul Weston (Gabriel Byrne) em “In Treatment”, Justina Jordan (Samira Wiley) em “You’re the Worst” e Marilyn Sanders (Cynthia Nixon) em “The Affair”. Mas tanto Schwehm quanto Smerling apontam para “Os Sopranos” como o retrato mais fiel da profissão.

Assistir Jennifer Melfi (Lorraine Bracco) desconstruir a ansiedade e a depressão de Tony Soprano (James Gandolfini) ajudou muita gente a se conectar com o processo terapêutico e talvez entender que o desconforto de mostrar-se vulnerável só ajuda o processo de cura. Retratos como esse suscitam conversas sobre saúde mental e criam um lugar seguro para que as pessoas conversem sobre suas emoções ou procurem ajuda especializada.

Na primeira temporada de Big Little Lies, a relação produtiva entre a vítima de violência doméstica, Celeste Wright (Nicole Kidman), e a psicóloga Amanda Reisman (Robin Weigert) foi um ótimo exemplo.

Para Schwehm, a relação entre elas foi uma demonstração muito próxima da conexão entre doutor e paciente. No quinto episódio, os telespectadores veem Celeste numa consulta com Reisman, terapeuta do casal, sem a presença do marido, Perry (Alexander Skarsgård), com quem ela tem um relacionamento volátil. Na sessão, Reisman pede que Celeste fale do comportamento violento de Perry, apesar de ela ainda não lidar bem com o tema.

“Quando acontece a violência, você teve medo de morrer?”, pergunta Reisman. Claramente abalada com a pergunta e chorando, Celeste responde: “Nunca”. Reisman então diz: “Deve ter sido aterrorizante”.

Ela continua a conversa de forma direta, algo que Schwehm chama de “convincente”, pois a técnica é usada por muitos psicólogos que tentam fazer seus clientes explicar exatamente o que está acontecendo com eles.

“Ela mostra muito bem o que tentamos ser como terapeutas”, disse ele sobre Reisman. “Muitas vezes na mídia vemos a empatia [dos terapeutas], tipo: ‘Oh, deve ter sido muito difícil para você’ ou ‘Como você está se sentindo?’ Mas às vezes falta esse lado mais direto.” 

Mas parece que a segunda temporada abandonou os bons momentos da primeira no que diz respeito ao trabalho da terapeuta. Reisman ainda atende Celeste e se preocupa com a segurança dela, mas não mais representa o lado ético da profissão – especialmente quando tenta apagar a dependência de Celeste pelo comportamento abusivo de Perry, que morreu no final da primeira temporada.

“É importante que nós terapeutas sejamos capazes de checar internamente se os cuidados [com o cliente] nos forçam a deixar nosso dever ético de lado”, diz Schwehm. “Neste caso, acho que Amanda Reisman está passando desse limite.”

Por exemplo: Reisman pede que Celeste feche os olhos e tente reviver seu trauma, pedindo que ela imagine Perry abusando de sua melhor amiga, Madeline (Reese Witherspoon). 

“Eu jamais faria algo parecido”, diz Smerling. Schwehm concorda, dizendo que Reisman deveria se concentrar em tratar o transtorno do estresse pós-traumático de Celeste, não pedir que ela reviva a experiência do abuso.

“Celeste tem de processar o assassinato do marido. Ele era um estuprador, não a pessoa que ela imaginava”, diz Schwehm. “Além disso, ela tem de ajudar Celeste a sair dessa síndrome de Estocolmo na qual ela está presa. Ela tornou-se dependente do abuso.”

Essa dependência fica clara ao longo da segunda temporada. Celeste sonha com momentos íntimos com Perry e se masturba vendo vídeos antigos dele – apesar da violência que sofreu pelas mãos do marido.

Reisman reconhece esse comportamento, mas não parece respeitar o fato de que Celeste ainda não está ciente de sua própria psicose. Em comparação com o que se viu na primeira temporada, Reisman deixou de lado a técnica de empatia aliada a uma confrontação sem rodeios.

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Madeline e Ed na terapia em Big Little Lies.

A sessão de Reisman com Madeline e o marido, Ed (Adam Scott), também é controversa. Como Madeline tem um papel importante na vida de Celeste, o fato de Reisman atendê-la pode ser considerado antiético.

“Se você estiver falando de uma área rural ou de uma cidade pequena que tenha poucos psicólogos, sim, isso pode acabar acontecendo. E você tem de conversar com os dois clientes para garantir que eles não veem problema nisso”, diz Schwehm. “Mas, numa cidade como Monterey, onde imagino que haja vários profissionais, a terapeuta deveria ter indicado uma colega.” 

É claro que estamos falando de uma série de TV, cujo objetivo primordial é entreter – e pode haver algo por trás das ações da personagem de Reisman. Schwehm acredita que as mudanças ocorridas entre as duas temporadas não fazem sentido lógico, a menos que a personagem passe a figurar nas investigações da morte de Perry. Por enquanto, a detetive Adrienne Quinlan (Merrin Dungey) suspeita que as cinco de Monterey têm algo a ver com a morte, então não seria estranho pensar no envolvimento de Reisman – afinal de contas, ela conhece os detalhes da relação de Celeste e Perry e de Madeline e Ed.

“Quero ver como eles vão lidar com o lado jurídico – se Amanda respeita as regras ou se entrega informações”, afirma Schwehm.

No mundo real, Reisman não precisaria confirmar ou negar que trata de Celeste ou Madeline. Mas ela pode ser intimada a entregar seus registros. “Neste caso, ela teria de alertar as clientes do que está acontecendo. E os registros só podem ser entregues com a anuência dos pacientes”, acrescenta Schwehm. “Se isso não acontecer, o juiz pode ordenar a liberação dos registros, o que pode se transformar numa batalha legal muito complicada.”

A despeito do que possa acontecer nos episódios finais da segunda temporada de Big Little Lies, não há como negar que o lado “psicológico” da história caiu muito de qualidade.

Poderíamos culpar a doutora Bo Peep, ou então os roteiristas por aparentemente não fazer terapia. (“Adoraria tê-los no meu consultório para saber o que eles pensam”, diz Schwehm sobre os produtores.) Mas o fato é que, quando a série é limitada, o roteiro deveria ser fiel ao plano original. O que você acha?

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.