OPINIÃO
22/07/2019 00:16 -03 | Atualizado 22/07/2019 11:43 -03

'Big Little Lies' escolhe caminho mais difícil para encerrar lindamente sua 2ª temporada

A verdade, o amor, o perdão e a sororidade venceram, e isso pode ser muito transgressor nos dias de hoje.

Divulgação
Laura Dern, Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Zoë Kravitz e Shailene Woodley na  segunda temporada de Big Little Lies.

ATENÇÃO: Se você ainda não viu o sétimo e último episódio de Big Little Lies e não quer estragar nenhuma surpresa da trama, não leia este texto agora. Volte apenas depois de assistí-lo.

Em uma das (muitas) ótimas cenas da último episódio da segunda temporada de Big Little Lies, Celeste (Nicole Kidman) diz à sua melhor amiga Madeline (Reese Witherspoon) quando esta admite que mentir sobre o que realmente aconteceu no incidente que causou a morte de Perry (Alexander Skarsgård) foi uma péssima ideia: “A amizade é a mentira”.

Uma simples frase que resume lindamente o que foi esta excelente temporada que se encerrou na noite deste domingo (21).

Criar vínculos baseados no interesse, manter as aparências quando tudo está desmoronando, odiar... Isso é fácil. É o que se espera de nós. Difícil é admitir a verdade, é se abrir para o amor e permitir o perdão. Um processo doloroso, mas libertador.

Tanto que até uma personagem repugnante como Mary Louise (Meryl Streep) se mostra digna de pena, merecedora de uma abraço terno de seus netos e, por que não, de nós mesmos, o público sedento por sangue?

A “punição” branda à personagem interpretada por esse monumento conhecido como Meryl Streep - que se chama Mary Louise na “vida real” - pode não agradar muita gente. E isso mostra o tamanho da transgressão que é a opção pelo amor nos dias de hoje.

Atitude de coragem e sensatez de uma das melhores séries do ano. 

A única nota negativa fica para o fato que veio a público pelo site IndieWire, que o trabalho da diretora britânica Andrea Arnold tenha sofrido interferência do roteirista e produtor David E. Kelley e do produtor-executivo Jean-Marc Vallée (diretor da 1ª temporada) para “adequar” o estilo da produção.

Logo em uma série que brilha exatamente por dar o espaço devido às mulheres tanto em sua própria confecção quanto na trama, com personagens femininos multidimensionais que fogem dos estereótipos da visão masculina do que é (ou  deveria ser) uma mulher.

Mas, pelo menos ao que transparece na tela, a intromissão não causou muitos danos à alma feminina da trama. Pelo menos em momentos especiais como um tocante gesto de sororidade ao som de Have You Ever Seen the Rain nas vozes da lenda do country Willie Nelson e sua filha, Paula.


Agora... Dito tudo isso, me desculpem, mas a cena da fúria de Renata (Laura Dern) é deliciosamente impagável.