OPINIÃO
20/07/2019 06:00 -03 | Atualizado 20/07/2019 06:00 -03

Um aplauso para ‘Big Little Lies’ e o retrato da amizade entre as mulheres

A amizade verdadeira entre as mulheres não é unidimensional – estamos juntas, discutimos e brigamos, somos mais próximas de umas que de outras. E ‘Big Little Lies’ entende isso perfeitamente.

As ‘Cinco de Monterey’ se uniram para superar traumas e se proteger.

Em um determinado momento da nova temporada de Big Little Lies, as camadas do tecido da amizade são abertas para revelar um nervo frágil. 

“Queria ter te contado, mesmo”, diz Celeste a Madeline, falando do abuso que sofria do marido. “Você teria pulado naquela piscina para me salvar.”

Essa é uma ótima metáfora, porque é o que fazem as mulheres. Elas são as salva-vidas umas das outras. 

Quando olho para as primeiras três décadas da minha vida, vejo uma longa fila de mulheres que riram comigo, beberam comigo e limparam minha maquiagem borrada.

Os homens também estavam lá, é claro, mas essas figuras femininas operam mais nas sombras; seu trabalho – até mesmo sua presença – em geral costuma ser anônimo.

Essas mulheres são o elenco coadjuvante que vêm ao primeiro plano no momento em que os outros seguiram em frente, brincando e ajudando a sacudir a poeira.

Elas fazem pontas sem aparecer no créditos e estão sempre prontas para mandar uma mensagem reconfortante pelo WhatsApp à meia-noite e meia, ou então mandar entregar flores de última hora.

Na frente delas, você nunca fica com vergonha dos lábios manchados de vinho tinto, nem de dizer algo estúpido – afinal de contas, elas vão te ajudar. Elas te amam como você é.

A TV tem dificuldade para capturar esse tipo de química. Na tela, as mulheres muitas vezes fazem comentários maldosos umas sobre as outras, ou então literalmente estão empunhando facas (em geral por causa de alguma coisa sem importância).

Ou, obviamente, estão brigando por causa de algum homem: o altar no qual são sacrificadas mil amizades femininas.

No outro extremo, a cultura pop agora endossa um tipo de amizade feminina tão sem sal que é difícil de acreditar.

Slogans publicitários e camisetas falam da boca para fora de uma solidariedade feminina pré-fabricada – com zero intenções de entender as nuances que mantêm de pé esse sentimento. 

Essas mulheres podem se voltar umas contra as outras a qualquer momento, mas você fica com a impressão de que isso não vai acontecer.

A amizade entre mulheres não é unidimensional nem indiferente a personalidades. Ainda discutimos e brigamos, ou somos mais próximas de umas que de outras.

Mas ela também é profunda. Quando se assenta a âncora da amizade, o resultado é algo resiliente e único.

Big Little Liesentende isso perfeitamente. As ‘Cinco de Monterey’ são unidas por temas turbulentos como morte, traição e violência doméstica.

Elas também lidam com várias outras questões menores: parceiros endividados, casamentos falidos, sogras sinistras – a lista não acaba aqui.

E seus relacionamentos são complicados. Madeline, Bonnie e Renata têm uma história conturbada, e Celeste e Jane são assombradas pelo mesmo homem. 

Todas as cinco lidam com as consequências de viver mentiras. Como diz Renata a Madeline no mais recente episódio, “tudo parece estar se desfazendo”. 

Com uma morte para esconder, e a detetive Quinlan à espreita, a pressão do acobertamento do crime está cada vez mais próxima da superfície.

Essas mulheres podem se voltar umas contra as outras a qualquer momento, mas você fica com a impressão de que isso não vai acontecer.

No caos de suas vidas fragmentadas, as Cinco de Monterey são suas salva-vidas. Entre as frases de compaixão e a política do playground brilhantemente captadas, elas compartilham um laço profundo e imutável. 

Não são vibrações felizes que cimentam essa união, mas sim a morte violenta de Perry. O ato separaria a maioria das pessoas, mas elas se fecham entre elas. A cola que as une é um assassinato aleatório, que tem um aspecto de vingança e que não seria entendido por mais ninguém.

A amizade entre mulheres não é unidimensional nem indiferente a personalidades. Ainda discutimos e brigamos, ou somos mais próximas de umas que de outras.

Esse selo de solidariedade baseia-se em uma história secular ― o dano insidioso do comportamento de (alguns) homens em relação às mulheres e a injustiça na hora de lidar com isso.

O romance de grande sucesso de Liane Moriarty e a série de TV são pura ficção. Mas, como toda boa ficção, ela é uma ótima representação da vida real.

É difícil imaginar que eu tivesse de mentir sobre a morte misteriosa do imbecil do meu marido. Mas, se o fizesse, gostaria de ter esse time ao meu lado.

Porque, quando as coisas difíceis acontecem, são suas amigas que vão mergulhar e te salvar.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.