ENTRETENIMENTO
18/06/2019 03:00 -03

'Big Little Lies': 2ª temporada finalmente dá a Bonnie o destaque que ela merece

A autora Liane Moriarty continuou com a série e lança luz sobre a personagem de Zoe Kravitz, insuficientemente explorada na 1ª temporada.

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Zoë Kravitz como Bonnie na 2ª temporada de Big Little Lies.

ATENÇÃO! Contém spoilers.

Se você ainda não terminou a 1ª temporada de Big Little Lies ou ainda não viu os primeiros episódios da 2ª, pare aqui.

As cinco protagonistas de Big Little Lies – Laura Derna, Nicole Kidman, Zoë Kravitz, Reese Witherspoon e Shailene Woodley – voltaram ao ar na segunda temporada da antes minissérie da HBO. Mas agora há mais uma figura que se somou às chamadas “Monterey Five”.

É a insuperável Meryl Streep.

Depois da estreia da minissérie em 2017, a demanda popular levou a HBO a aprovar uma mudança no formato e lançar uma segunda temporada. A romancista Liane Moriarty, autora do livro de 2014 no qual a série é baseada, redigiu um romance curto, ainda inédito, para inspirar a segunda temporada, entregando ao criador, roteirista e produtor David E. Kelley o direito de levar Big Little Lies adiante.

No novo livro, Moriarty introduz a figura de Mary Louise Wright, mãe de Perry Wright (Alexander Skarsgård), o marido violento de Celeste (Nicole Kidman), morto no último episódio da primeira temporada. Kelley e as também produtoras da série, Kidman e Reese Witherspoon, foram totalmente a favor da nova personagem, assim como Meryl Streep, cujo nome original na vida real por acaso é Mary Louise.

“O elenco e os produtores não queríamos voltar para uma segunda temporada se não pensássemos que tínhamos uma chance real de alcançar o nível de qualidade a que nos tínhamos proposto”, disse Kelley ao Hollywood Reporter.

Liane Moriarty ofereceu a oportunidade. Com a segunda temporada de Big Little Lies, ela pôde aprofundar a investigação do mistério original e mergulhar mais fundo nas personagens tão interessantes que criou.

Pelo fato de trabalhar com os produtores sobre seu próprio material original, Moriarty conseguiu conservar o espírito da série. É diferente do que ocorreu com, por exemplo, George R.R. Martin, que se afastou de Game of Thrones como roteirista em 2015 para terminar de escrever a série de livros Crônicas de Gelo e Fogo, sobre a qual a série é baseada. (Sem sua narrativa visionária, GoT desabou nas mãos dos criadores David Benioff e Dan Weiss e acabou virando uma fan fiction ágil – mas isso não tem relação alguma com Big Little Lies.)

A narrativa tentadora criada por Moriarty sobre Marie Louise, determinada a descobrir a verdade sobre a morte de seu filho, custe o que custar, somou mais uma camada de complexidade ao drama sobre as mães notáveis – mas problemáticas – de Monterey. Mas ela e Kelley também aproveitaram a segunda temporada como uma oportunidade para dar mais atenção a uma personagem que fica no segundo plano na primeira temporada: Bonnie Carlson (Kravitz). A vinheta da temporada diz que “os segredos sempre vêm à tona” – e nesta temporada as verdades ocultas de Bonnie vêm para o primeiro plano.

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Celeste (Nicole Kidman) e sua sogra Mary Louise (Meryl Streep).

No final da primeira temporada, dirigida por Jean-Marc Vallée (a segunda temporada é dirigida por Andrea Arnold), as Monterey Five estavam na praia com seus filhos dias depois de Bonnie ter empurrado Perry escada abaixo numa festa de levantamento de fundos da escola das crianças.

Apesar de ter parecido ser autodefesa – já que Perry foi exposto como o estuprador de Jane Chapman (Shailene Woodley) e atacou sua mulher, Celeste, antes de Bonnie o empurrar ―, a detetive Adrienne Quinlan (Merrin Dungey) desconfiou do incidente entre a vítima e as cinco mães prestigiosas.

A segunda temporada deslancha com Mary Louise conduzindo sua própria investigação sobre a morte de seu filho, enquanto vive com Celeste e a ajuda a cuidar de seus netos, os gêmeos Josh e Max (Cameron e Nicholas Crovetti).

É claro que a detetive Quinlan está atenta para o que é feito das mulheres: Celeste ainda faz terapia e se esforça para superar o comportamento abusivo de seu marido morto; Madeline Mackenzie (Reese Witherspoon) se esforça ao máximo para continuar otimista, apesar de sua filha Abigail (Kathryn Newton) se recusar a fazer faculdade; Jane está trabalhando num aquário, onde conhece um possível pretendente, e Renata Klein (Laura Dern) continua preocupada com sua filha, Amabella (Ivy George), sendo que na realidade deveria estar preocupada com seu marido, Gordon (Jeffrey Nordling).

Mas é a narrativa de Bonnie que ganha precedência – com razão, já que a personagem de Kravitz foi subutilizada na primeira temporada. Por sorte, ela vira uma personagem plena da história nos três primeiros episódios da segunda temporada. Bonnie parece ser a única das cinco mulheres a estar visivelmente tendo dificuldade em se conformar com seu envolvimento na morte de Perry, que foi classificada como acidental.

“Eu matei uma pessoa, lembra disso?”, diz Bonnie, arrasada, a Madeline no primeiro episódio da segunda temporada, quando Madeline lhe pergunta como ela está. “É pesado.”

O marido de Bonnie, Nathan (James Tupper), que foi casado com Madeline no passado, está preocupado com a saúde mental de sua mulher. Ele acaba pedindo ajuda à mãe dela (Crystal Fox) no segundo episódio, e assim aparece um novo conjunto de mistérios não elucidados.

“Você vive aqui cercada por pessoas que não a entendem”, diz a mãe de Bonnie à sua filha de espírito libertário. “Elas não se parecem com você. Não vi uma única outra pessoa negra desde que cheguei aqui. É por isso que você está aqui? Porque todos sabemos como você gosta de suas paredes.”

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As mulheres de Big Little Lies.

Do mesmo modo que Bonnie se destaca na cidade de Monterey, com seus moradores predominantemente brancos, Zoë Kravitz foi a única atriz importante não branca chamada para fazer um papel em Big Little Lies. Ela se decepcionou com o tratamento que a série deu à questão da raça, dizendo à revista Rolling Stone: “Eu queria que a personagem de Reese falasse ‘a mulher negra sexy dele’. Isso seria real! Mas as pessoas têm medo de falar em raça. Se vamos criar arte e tentar dissecar a condição humana, deveríamos fazer para valer.”

Consciente do que Kravitz pensa sobre o tratamento dado à personagem dela, e ciente de que há muito mais material de seu livro que poderia ser incluído na série, Moriarty sem dúvida tem como voltar o foco das atenções a Bonnie nesta temporada. Por exemplo, o passado de Bonnie é uma parte importante do que a levou a empurrar Perry escada abaixo: sua mãe era agredida por seu pai quando ela era criança. Compreensivelmente, ela se revolta quando vê Perry agredindo Celeste e reage de acordo.

Também no romance, Bonnie se entrega à polícia, apesar de todas as mulheres dizerem que vão protegê-la e esconder o que aconteceu. Ela é julgada culpada de homicídio doloso (não intencional) e sentenciada a prestar 200 horas de serviços comunitários. Assim, é estranho de fato que sua história passada não tenha sido incluída na primeira série, considerando que a série foi pensada para não ter mais de sete episódios. Mas Kelley espera remediar essa lacuna com a nova temporada.

“Havia muito mais a contar sobre as personagens, especialmente Bonnie”, disse Kelley ao Hollywood Reporter. “Na primeira temporada apenas oferecemos um vislumbre de quem é Bonnie. Não garimpamos suas origens, de onde ela vem e o que a levou a dar aquele grande empurrão no final da primeira série.”

Bom, tirem seus martelos e picaretas do armário, porque vocês vão garimpar toda uma nova leva de pequenas mentiras grandes e inesperadas sobre esse grupo dinâmico de mulheres.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.