MULHERES
09/02/2020 06:00 -03 | Atualizado 09/02/2020 06:00 -03

Machismo no BBB 20 aponta que compreensão sobre assédio sexual evoluiu apenas em parte da sociedade

Conduta de homens selecionados para participar do "Big Brother Brasil" causa desconforto, mas coloca na mesa discussão sobre machismo e assédio.

Há 7 anos, a pesquisa “Chega de Fiu Fiu” apontou e pautou a discussão sobre ser mulher e transitar de forma insegura pelas ruas no Brasil. Em seguida, a hashtag batizada de #MeuPrimeiroAssédio tomou as redes sociais e apontou o quanto, desde cedo, a vida das mulheres é atravessada pela violência. Nesse meio tempo, o movimento #MeToo, que expôs comportamentos predatórios, explodiu nos Estados Unidos e reverberou em outros países. Em 2018, voltando ao Brasil, a lei que pune oassédio como importunação sexual foi sancionada e representou avanço. Agora, em 2020, o tema chegou ao Big Brother Brasil.

“Eu acho que houve um amadurecimento da sociedade sobre a questão do assédio. De certa forma, [no passado] a gente ainda sentia uma resistência em conversar sobre esse tema, um desentendimento da sociedade e às vezes de até mesmo nós, mulheres, que somos as vítimas, de entender que essa é uma violência e que a gente não precisava vivenciar isso”, diz Juliana de Faria, fundadora da ONG Think Olga, responsável pelas principais campanhas e pesquisas sobre o tema no País, como a “Chega de Fiu Fiu”.

Assim como Juliana, outras especialistas ouvidas pelo HuffPost apontam que houve, sim, um amadurecimento na discussão sobre assédio sexual nos últimos anos no Brasil. Mas elas ponderam que, como ainda é recente, essa conscientização sobre o problema não consegue atingir uma parcela expressiva da população. São brasileiros que, mesmo após a aprovação de uma lei que pune esse tipo de conduta, ainda têm dificuldade em nomear essa prática, deixar de reproduzi-la e entendê-la como violência.

“Hoje a gente tem uma parte da sociedade que não só entendeu mas que é capaz de nomear e desnaturalizar alguns comportamentos. Mas eu não chegaria ao extremo de dizer que é todo mundo que pensa da mesma forma”, explica Viviana Santiago, socióloga e especialista em educação pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

Desde o início desta edição do BBB, que é considerada “a casa mais vigiada do Brasil”, comportamentos dos participantes do sexo masculino, em especial, do ginasta Petrix Barbosa, 27 ― que foi eliminado com 80% dos votos no paredão da última terça-feira (4) ― está causando mal-estar e desconforto, inicialmente, no público e, em seguida, às mulheres do reality.

Mensagens de denúncia nas redes sociais e hashtags de indignação pedindo a saída do ginasta do programa se espalharam pela internet em pouco mais de um mês do início do confinamento, o que também chamou a atenção da Deam (Delegacia Especial de Atendimento à Mulher) do Rio de Janeiro e fez a delegada Juliana Emerique abrir uma investigação.

É triste que [o debate público] seja feito à custa de uma mulher que está sendo vítima de violência na TV aberta.Juliana de Faria, da Think Olga

O caso também levou a diretoria de mulheres da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Rio, representada pelas advogadas Marisa Gaudio e Rebeca Servaes, a escrever uma carta de repúdio ao tratamento dado às mulheres não só por Petrix, mas por todos os participantes no programa.

“Estão sendo veiculadas na TV e noticiadas nas redes sociais diversas cenas em que, não só as participantes mulheres são completamente coisificadas e ofendidas, como também sofrem contatos físicos que podem ser interpretados como de cunho sexual”, diz a nota assinada pelas advogadas. 

A entidade ainda afirma que é “extremamente preocupante que comportamentos como esses sejam veiculados em rede nacional de forma naturalizada” pela TV Globo e cobra providências.

Mesmo ainda confinado,o ginasta foi intimado na última segunda-feira (3) a prestar depoimento sobre as imagens veiculadas pela edição e nas redes sociais em que teria assediado sexualmente três vezes as participantes Bianca Andrade, a “Boca Rosa”, e a cantora Flayslane Raiane.

Para Juliana de Faria, a discussão que o caso gerou pode ser muito potente porque “quanto mais a gente fala sobre, mais conscientes as pessoas ficam, mais ele deixa de ser normalizado”. Porém, ela pontua que a questão poderia ser pautada não apenas quando a violência ocorre.

″É triste que [o debate público] seja feito à custa de uma mulher que está sendo vítima de violência na TV aberta. Eu acho que poderiam existir outras maneiras de a gente falar sobre esse tema”, diz. “Nós ainda sofremos, mas estamos muito mais informadas. O grande ganho de toda essa movimentação popular é, primeiro, saber que não estamos sozinhas. Segundo, que a culpa nunca é nossa. E por fim, que o culpado é sempre o assediador e que algo deveria acontecer com ele.”

Em 2016, pesquisa da ActionAid comprovou que 86% das brasileiras já sofreram violência sexual ou assédio em espaços públicos. Delas, 77% ouviram assobios, 57% comentários de cunho sexual, 39% xingamentos, 50% foram seguidas, 44% tiveram seus corpos tocados, 37% tiveram homens que se exibiram para elas e 8% foram estupradas.

Pesquisa do Ipea, em 2014, mostrou que 26% dos brasileiros concordam com a afirmação de que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Já estudo do Fórum de Segurança Pública de 2016 apontou que uma em cada 3 pessoas acreditam que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”. Uma violência baseada na ideia de que quando uma mulher não se comporta de forma “adequada”, ela deve ser punida.

Movimento de mulheres é responsável pela discussão

NurPhoto via Getty Images
"O transporte é público, o corpo da mulher não", diz cartaz de manifestante em protesto em São Paulo, em 2018.

Eliminado no paredão, Petrix prestou depoimento na última sexta-feira (7). “O atleta esclareceu que nunca teve a intenção de importunar, constranger e, tampouco, magoar ninguém”, informou a assessoria do ginasta em comunicado à imprensa, ressaltando que o atleta “se colocou à disposição para contribuir com as autoridades e elucidar os acontecimentos ditos polêmicos que ganharam grande repercussão.”

Para a promotora de Justiça do MP-SP (Ministério Público de São Paulo) Celeste Leite dos Santos, “houve uma mudança muito ativa” na discussão sobre como o assédio sexual é visto e pautado na sociedade brasileira nos últimos anos devido à pressão dos movimento sociais, em especial, de mulheres. Segundo ela, o sistema judiciário amadureceu junto.

“Eu julgo que isso aconteceu principalmente após a Lei Maria da Penha. Há 13 anos, ela começou a gerar uma conscientização de que a mulher não é um objeto. Ou seja, o homem não pode tratá-la como se ela fosse uma posse dele. O próprio Big Brother, no passado, já teve um caso de estupro. E a repercussão, do caso atual, me pareceu muito maior e muito mais rápida.”

Em 2012, os participantes do reality, Daniel e Monique, protagonizaram cena que repercutiu no País inteiro. Após uma festa, o casal foi para o quarto e trocaram beijos. Porém, quando Monique já estava adormecida, foi possível ver o ex-BBB fazendo movimentos que remetiam ao ato sexual. Devido à reação do público, ele foi expulso do programa dois dias depois. 

Já a acusação de assédio contra Petrix ocorreu após a primeira festa do reality. O rapaz consolou e estalou as costas de Bianca Andrade, que tinha se envolvido em discussão com outra participante, Raffa Kalliman. 

Ao erguer Bianca, que estava alcoolizada, o rapaz chacoalhou o tronco da jovem, tocando seus seios. O ato gerou acusações nas redes sociais e um pedido de posicionamento da TV Globo. As hashtags #PetrixExpulso e #PetrixAssediador ficaram entre as mais populares no Twitter.

Bianca foi chamada ao confessionário e, questionada pela produção, disse ter poucas lembranças da festa mas que nenhuma delas era sobre se sentir desconfortável. “Lembro que dancei com o Petrix. Não me causou desconforto, zero. Tenho certeza que a intenção ali [dele] foi me animar”, disse a participante. Na ocasião, a emissora decidiu não expulsar o rapaz do reality.

A segunda acusação também envolveu Bianca. Dessa vez, o ocorrido foi logo após a eliminação de Lucas Chumbo, no domingo (2). Ao abraçar por trás a participante, Petrix reproduziu movimentos de um ato sexual.

Já no terceiro caso, quando o rapaz esfregou suas partes íntimas na cabeça da cantora Flayslane Raiane, ele foi chamado ao confessionário. Na edição do programa, a TV Globo afirmou aos telespectadores, por meio do apresentador Tiago Leifert, que o participante havia sido advertido.

Quando o machismo estrutural é televisionado

Reprodução/TVGLobo
Da esquerda para a direita: Hadson, Guilherme, Lucas, Felipe e Petrix.

Além dos casos envolvendo Petrix, outra discussão sobre condutas machistas repercutiu bastante. Nesta semana, algumas das participantes descobriram que os homens haviam traçado uma espécie de “plano de sedução”. A estratégia, montada por Hadson e Felipe, consistia em desestabilizar participantes que ou são casadas ou comprometidas, para que elas ficassem malvistas pelo público do reality e, portanto, seriam prejudicadas no jogo. 

“Com essa situação, a gente consegue ver como os homens não só entendem a lógica dessa sociedade machista, de culpabilizar essa mulher, como ele usa essa lógica perversa a seu favor”, aponta Viviana. “Em uma perspectiva de continuar de manipulando a vida das mulheres. Para mim, essa é a mais perfeita descrição de misoginia”, conclui.

A tática, entendida como machista, predatória e desrespeitosa, levou as participantes a confrontar Hadson sobre a questão. Elas seguiram em direção ao jardim e, juntas, questionaram o participante, que negou a situação esquecendo que todas as conversas que teve anteriormente foram gravadas.

“Faz o seguinte: aproveita quando você sair, assiste todos os vídeos e aprende a ser um pouquinho menos machista. Segura a sua onda”, disse Rafa Kalliman a ele. “Você já pede esse feedback e aprende com ele”, completou.

Eu acho que isso é muito potente: mostrar como quando alguns homens entendem que esse é o único modelo de masculinidade possível o quanto isso é danoso.Viviana Santiago

Para a educadora, é significativo que situações como essas sejam “mostradas, pautadas em rede nacional e que as pessoas coloquem esse assunto na mesa do jantar” e que, em especial, questionem os homens e as masculinidades. 

“Eles demonstram uma masculinidade que é tão extrema, que é nefasta para as mulheres. Eu acho que isso é muito potente: mostrar como quando alguns homens entendem que esse é o único modelo de masculinidade possível o quanto isso é danoso”, diz, ao citar o exemplo do ator Babu Santana, 40, que tem sido um contraponto ao comportamento de outros homens no reality.

Babu, na última sexta-feira (7), em conversa com Felipe, falou sobre o que uma amiga lhe ensinou sobre feminismo. “Eu falei: ‘sou um homem feminista’. Mas não existe homem feminista, você não tem útero. Ela que me corrigiu, existe homem pró-feminismo e eu estou em processo de educação, ainda mais que sou dos anos 80”, disse o participante do reality (assista acima).

“Ele é um homem negro, que tem a perspectiva diferente de que outra masculinidade que não essa predatória é possível. Ele constrói um outro percurso. O que também mostra que esse não é um problema com os homens em si, é um problema com os machistas, com a masculinidade extrema”, aponta a especialista.

‘O corpo da mulher não está à disposição dos homens’

Reprodução/TV Globo
Imagem do momento em que Petrix consolou e estalou as costas de Bianca, chacolhando e tocando seus seios.

Também na avaliação da promotora, tanto atitudes machistas quanto casos de assédio, quando normalizados em rede nacional, “podem estimular que essa conduta seja repetida por muitos outros homens”. Ela pontua que, neste momento, a resposta dada nas redes sociais e na eliminação de Petrix, às vésperas do Carnaval, é significativa.

″É preciso que eles [homens] entendam que não é preciso ter beijo forçado e que não precisam agarrar as mulheres à força [para configurar assédio]. E, também, para que haja a percepção de que esses crimes não se restringem ao transporte coletivo. Estamos em pleno século 21. Não cabe mais falar que foi uma brincadeira. O corpo da mulher não está à disposição dos homens”, afirma Celeste.

O caso também apresenta um dado paradoxal. Petrix é um dos ginastas responsáveis por denunciar o técnico Fernando de Carvalho Lopes - hoje banido do esporte - por abuso sexual, em 2018. Ele foi o único que falou publicamente sobre o caso com a imprensa.

“Eu não quero mais que isso aconteça. Em nenhum esporte, em nenhum lugar”, disse em reportagem do Fantástico, da TV Globo, exibida naquele ano. À época, 42 ginastas denunciaram o ex-técnico da seleção brasileira.

“Isso até traz um gancho para a gente falar sobre como a questão da vítima e agressor, muitas vezes, está inter-relacionado”, diz a promotora. ”É preciso prestar assistência jurídica e sobretudo psicológica, médica e social à vítima. Não basta que haja somente uma execução penal e o agressor seja punido”.

Em 2018, quando a lei de importunação sexual foi sancionada, o que coloquialmente era chamado de assédio se transformou em tipo penal. Antes, o sistema jurídico reconhecia como assédio apenas aquele que acontecia em ambientes de trabalho e nos quais havia hierarquia envolvida. Não existia um tipo de crime para as situações de assédio no espaço público.

A legislação, impulsionada por casos no transporte coletivo, é ampla e abrange atos violentos já conhecidos pelas mulheres, mas que, quando eram denunciados anteriormente, eram punidos apenas com multa.

Por definição, a importunação sexual se define como “a prática de ato libidinoso contra alguém, sem o seu consentimento, com o objetivo de satisfazer o próprio desejo ou de outra pessoa”. 

Com a nova lei, a pena para o crime de estupro - de 6 a 10 anos - aumenta de um a dois terços se o crime for cometido por duas ou mais pessoas (estupro coletivo) ou se tiver o objetivo de controlar o comportamento sexual ou social da vítima (estupro corretivo). Se for cometido por parente, companheiro ou empregador da vítima, a pena é aumentada pela metade. 

A legislação também prevê punição 1 a 5 anos para quem divulga cena de estupro, sexo ou nudez sem o consentimento da vítima. A pena chega a 8 anos caso se trate de ‘revenge porn’, em que o autor é alguém com quem a vítima manteve relação íntima e fez a divulgação com objetivo de se vingar.