ENTRETENIMENTO
27/02/2019 01:00 -03

William Jackson Harper está abrindo as portas para outros homens negros em Hollywood

O ator quer inspirar outros a “lidar com o mundo que temos, não com o mundo que gostaríamos de ter”.

Quando foi a última vez que você viu na tela um homem negro cheio de nuances — um professor de ética neurótico, indeciso, bonito e que tem ataques de pânico frequentes, além de um interesse romântico?

Este é Chidi Anagonye, da série The Good Place. William Jackson Harper, o ator por trás do nigeriano-senegalês, está mostrando um personagem mais cheio de nuances e mais completo, um tipo de personagem que não vemos com tanta frequência. Harper, que começou a carreira no teatro, é um dos destaques da série da NBC.

Com a terceira temporada chegando ao fim, é difícil não notar o brilho em seus olhos. Há alguns anos, Harper estava disposto a abandonar a carreira de ator em troca de algo que lhe desse mais estabilidade financeira. Mas aí apareceu o papel de Chidi, e o mundo pode conhecer seu talento. Desde então, ele estreou sua primeira peça como diretor, Travisville, recebeu uma indicação para o Critic’s Choice Award e deixou todo mundo de boca aberta quando apareceu sem camisa em uma cena de The Good Place.

Harper prova que homens negros podem ser esquisitos ou neuróticos nas telas – e, acima de tudo, plenos. Para a série We Built This, o HuffPost conversou com Harper sobre seus projetos e a responsabilidade dos atores de ajudar a mudar o mundo.

Photography by Kris Graves for HuffPost; Grooming by Ruth Fernandez
William Jackson Harper interpreta Chidi Anagonye, da série The Good Place.

O título deste projeto é “We Built This” (nós construímos isso). Todos estamos construindo algo. E você?
Bem, com a ajuda de um elenco incrível, um diretor incrível e um teatro, eu pude construir uma peça chamada Travisville, sobre desalojamento e a dinâmica racial por trás dele. Pude colocar algumas questões e uma certa raiva, que acho que foram recebidas da maneira que eu esperava. Acho que é o que mais me orgulho de ter construído.

Isso é muito legal. Às vezes esquecemos que há pessoas por trás dessas produções, que esses retratos têm uma mensagem. O que você está tentando dizer com sua arte?
Acho que estou tentando... (pausa) Quero inspirar as pessoas a lidar com o mundo que temos, não com o mundo que gostaríamos de ter... E isso dá trabalho, exige vigilância. E eu queria fazer parte disso. Acho que tem muitos artistas ótimos fazendo o mesmo, só queria fazer parte desse movimento.

The Good Place me apresentou a você como ator. Mas, fazendo pesquisas, li uma entrevista em que você diz que estava prestes a abandonar a carreira antes de conseguir o papel. Por quê?
Sinceramente, falta de estabilidade. Eu estava com 36 anos e feliz com muitas coisas na minha vida, no geral, mas não via como aquilo seria sustentável no futuro. Não dava para continuar daquele jeito. E estava me perguntando se ser ator me daria estabilidade, então foi assim que tudo começou. Acho que todo ator passa por isso, porque é muito difícil. É difícil e não é justo. Há muita gente incrivelmente talentosa que merece a chance que eu tive. Eu tive sorte. Então pensei: “Bom, o quanto posso depender desse golpe de sorte?”.

Como você perseverou? Como superou esse obstáculo?
Muitas conversas com minha namorada, ela me ouvindo chorar, resmungar e reclamar. E aí, sinceramente, esse trabalho foi um salva-vidas. Foi uma coisa enviada por Deus. Eu precisava dele, e me dei conta de que é sorte. Tem muita gente que merece essa chance. Tive a sorte de consegui-la.

Você sempre quis ser ator? O que te levou a escolher essa profissão?
Minha mãe me colocou em aulas de teatro porque eu era muito tímido. Então é tudo por causa dela. Acho que durante muito tempo eu pensei que ser ator era ficar com a mão no coração, declarando meu amor. E eu pensava: “Ai, mano, não quero fazer isso. É muito piegas”. Mas quando percebi que poderia ser tantas outras coisas, que poderia ser improviso, poderia ser uma exploração dos seus medos mais profundos, da sua raiva, de lidar com isso diante dos outros... Quando percebi que não se trata só de dar aos outros o que eles querem, mas também lidar com quem você é de maneira crua e segura, num ambiente em que você está se escondendo em público – eu precisava daquilo. Fiquei viciado.

Foi muito difícil a transição do teatro para a TV?
É uma transição grande. O teatro, para os atores, é uma prática muito ativa a maior parte do tempo. Você está numa sala e está tentando encontrar seu caminho antes mesmo de estar diante da plateia. Você está tentando encontrar um caminho para fazer a cena da forma mais surpreendente, mas também mais inevitável. Algo que seja verdadeiro. Você está sempre fazendo perguntas e se confrontando. Na TV e nos filmes, muito desse trabalho você faz sozinho. E é um processo muito mais truncado e conciso, que exige um tipo diferente de concentração, porque você tem de esperar muito entre cada tomada. No teatro, te disparam de um canhão e você é responsável pela experiência da plateia. E, na TV, tem tantas outras pessoas cujo trabalho é fundamental. Se elas não fizerem a parte delas direito, a sua não importa.

Então é uma transição grande. Mas também divertida, porque você pode ter mais nuances na câmera. As cenas são mais curtas. Você consegue explorar mais alternativas.

Uma coisa que adoro em Chidi é que ele é esse professor de ética negro que tem problemas de ansiedade. Ele tem tantas camadas. Não tem muitos personagens negros assim. Quando você leu o papel, o que te chamou atenção? Isso foi importante para você?
Quando participei das audições, o roteiro não era o mesmo que seria usado na série. Eu não sabia que seria um professor de ética e filosofia moral. Não sabia que seria nigeriano, ou nigeriano-senegalês. Não sabia que meu personagem teria um romance.

Mas, quando participei de uma reunião [com os produtores executivos Michael Schur e Drew Goddard] e eles me disseram exatamente o que eu teria de fazer e o que aconteceria, fiquei muito empolgado. Como você disse, é algo que não se vê muito na TV aberta. E acho que, se tem uma história de amor entre pessoas de raças diferentes, isso é o coração da história, é assim. E, quando isso não é essencial para a existência da história, isso é importante. É importante normalizar relacionamentos inter-raciais, porque eles estão à nossa volta, mas tenho a sensação de que não os enxergamos tanto assim.

Acho que as crianças vão ver isso e pensar: “Ah é, por que não?”. Quando eu gostava de alguém que não era negro quando era pequeno, lembro que outras crianças me diziam:  “Bom, você não pode gostar dessa pessoa. Ela não é como você”. São crianças. Elas repetem o que estão vendo e ouvindo. Foi nesse mundo que eu cresci. Mexer com esse paradigma é incrível.

NBCU Photo Bank/Getty
Chidi vive um relacionamento inter-racial na série.

Me pergunto onde ou como você se via refletido na TV quando era criança.
Acho que como Raj (personagem da série de TV What’s Happening, exibida nos Estados Unidos no final de década de 1970)... Ele era um cara meio nerd – de várias maneiras, muito mais cool que eu. Mas eu pensava: “Meu Deus, eu entendo esse cara”. Acho que a visão da mídia é muito estreita em relação aos negros, e acho que isso meio que foi uma das coisas que ia contra essa ideia. Sinto orgulho de fazer parte disso. Acho que nossa série brinca com ideias como ser negro e ser homem, [mostrando que] isso é mais amplo do que estamos acostumados a ver.

O que o papel de um cara morto te ensinou sobre a vida e a morte?
Acho que a série trata de moral. Ela fala de ser uma pessoa boa. O que isso significa, de verdade? É uma pergunta importante. Não existe uma lei universal do que é certo, do que é bom. Mas acho que a série coloca essa pergunta. O que você pode fazer no dia-a-dia para trazer bondade e felicidade para o mundo? E [ela te força a] pensar nisso a cada momento. Acho que a série despertou isso em mim, ser mais consciente do que é ser bom, meio que pensar nisso um pouco mais.

Que histórias que você gostaria de contar mas ainda não teve a oportunidade?
Cara, tantas. Sinceramente, me interesso muito pelas histórias da comunidade negra nos Estados Unidos. Tipo logo depois do movimento dos direitos civis. Me interesso muito por isso. Converso com minha mãe sobre isso. Lembro dela dizendo que crescer no nosso bairro era idílico. E era um bairro negro, nos anos 1960, e eu pensava: “Ah, uau, OK”. A que altura o bairro deixou de ser idílico, e por quê? Tenho curiosidade.

É interessante porque sinto que, especialmente falando de uma perspectiva histórica, existem essas lacunas, certo? Tipo: “ah, teve a escravidão e a reconstrução e depois vamos avançar para o movimento dos direitos civis”...
E tudo se consertou ali. E, tipo, não, não se consertou. Queria saber como foi assistir a essas coisas, essas leis sendo implementadas. Quais foram as reações das pessoas numa sociedade que estava mudando tão rapidamente? Não sei. Acho que vale a pena explorar porque ajudaria a explicar o mundo que temos, não o mundo que gostaríamos de ter.

Photography by Kris Graves; Grooming by Ruth Fernandez

Você está trabalhando em algum projeto agora?
Acabo de filmar com Ari Aster, diretor de Hereditário. O filme se chama Midsommar. É uma coisa meio horror, cultos, paganismo. Vou parar por aí porque tem muitas surpresas. E vou fazer um filme com Todd Haynes sobre Rob Bilott, advogado que processou a DuPont por causa da contaminação da água numa cidade da Virgínia Ocidental. Estou muito empolgado com esse projeto. É um estudo sobre a vigilância, acho que isso é muito, muito importante.

Quem são os negros que fizeram história, seus antepassados, que te inspiram a continuar fazendo seu trabalho?
Ah, cara. São tantos. Primeiro, sendo negro e ator de teatro, não dá para começar a conversa sem falar de August Wilson. Acho que a contribuição dele para o cânone americano do século 20 supera a de qualquer um. É tão profunda e surpreendente e cheia de nuances. Você lê na página e pensa: “como ser fiel a isso?”. Como encontrar seu caminho nessas histórias grandiosas que se insinuam como as peças de August Wilson? Nunca fiz uma peça dele. Só assisti. Então tenho de demonstrar meu respeito a esse antepassado em particular, porque acho que não dá para falar de ser negro nessa profissão sem mencionar as contribuições dele.

Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.