01/03/2019 00:00 -03 | Atualizado 01/03/2019 09:19 -03

Beth Beli, a mulher que rege os mais de 450 tambores do Ilu Obá de Min

Musicista e regente da bateria do bloco se empoderou pelos tambores e busca levar essa força para outras mulheres também.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Beth Beli é a 359ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil que celebra 365 mulheres.

É algo grandioso. Em tamanho, obviamente. Mas também em energia e significado. Com 14 anos de existência, este ano vão para a rua com cerca de 450 mulheres na bateria, aproximadamente 30 pessoas dançando no chão e mais 12 bailarinos em pernas de pau. Todos voltados para uma mulher. “Para mim, que faço a regência, é muito potente. Muito mesmo, estar ali na frente, olhando para essas mais de 400 mulheres. Fico olhando a carinha da cada uma e de dois anos para cá o bloco está enegrecendo então olho e vejo muitas mulheres negras na vibe, tocando, e isso me dá uma sensação de que estou no caminho certo”.

Assim é como Beth Beli, 51 anos, presidente, diretora artística, regente e uma das criadoras do bloco e instituição Ilú Obá De Min costuma se sentir quando está em uma apresentação do Ilú. Mas sabe que para cada uma das mulheres que participa o significado é diferente. Mas a potência e força estão sempre presentes, pode ter certeza. Ali em sua frente, o poder de criação. “Foi dado a nós gerar outra vida. Então pense você juntar 450 mulheres se não gera uma coisa boa?”.

Para mim, que faço a regência, é muito potente estar ali na frente, olhando para essas mais de 400 mulheres. Isso me dá uma sensação de que estou no caminho certo.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Assim é Beth Beli, 51 anos, presidente, diretora artística, regente e uma das criadoras do bloco e instituição Ilú Obá De Min.

Começou com a ideia de criar música, lá em 2004. No ano seguinte, ocorreu a primeira saída do bloco nas ruas e logo já se tornou algo maior e virou também uma instituição. Os pilares são bem claros: cultura, educação e arte negra. Na época, Beth era regente em outro bloco afro e com o fim das atividades muitas mulheres que participavam da bateria sugeriram que ela continuasse com um trabalho desse tipo. ”Sou percussionista há quase 30 anos e tinha um trabalho com tambores e digo que esse instrumento me empoderou. Eu vivo dele, costumo dizer que não sou nada sem um pedaço de madeira e uma pele de cabra, ganho minha vida com isso e vivo muito bem. E se me empodera tanto, por que não empoderar outras mulheres?”.

Assim surgiu o bloco. Com nome bastante simbólico. “Ilú Obá De Min: as mulheres que tocam tambores para Xangô”. No Ilú, a bateria é toda feminina. Os homens podem participar como bailarinos, dançando no chão ou nas pernas de pau.

Foi dado a nós gerar outra vida. Então pense você juntar 450 mulheres se não gera uma coisa boa?
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Os pilares são bem claros: cultura, educação e arte negra.

O grupo, que começou com 30 mulheres, foi crescendo até atingir a marca de cerca de 500 pessoas ocupando as ruas – fora o público, claro. Beth calcule que o bloco arraste entre 20 e 30 mil pessoas durante o Carnaval. E mesmo antes de conquistar uma visibilidade maior, o bloco, desde o início, foi conseguindo seu espaço e realizou apresentações no exterior, gravou com diversos músicos consagrados – recentemente, o Ilú participou da gravação do CD de Elza Soares –, ganhou atenção de muita gente entre músicos, pesquisadores, políticos, cineastas. Mas o trabalho e o sucesso do Ilú vai para além da música e do desfile no Carnaval. “O Ilú tem que desfazer essa história de 500 anos, contar verdadeiramente qual é a história”.

Entre as atividades da instituição, há o Ilú na Mesa (ciclos de palestras e debates que reúne integrantes de diferentes áreas da sociedade para falar sobre temas ligados à cultura e arte negra), Tenda Afro-Lúdica (que trabalha a Lei nº 10639/2003 – que inclui a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas – por meio de aulas de percussão, contação de histórias, jogos africanos), além de diversas rodas de conversa, oficinas e cursos, todos voltados para a valorização da cultura africana e afro-brasileira.

O tambor me empoderou. Eu vivo dele, ganho minha vida com isso e vivo muito bem. E se me empodera tanto, por que não empoderar outras mulheres?
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O grupo, que começou com 30 mulheres, foi crescendo até atingir a marca de cerca de 500 pessoas ocupando as ruas.

O projeto foi crescendo tanto que em 2008 o grupo precisou ir atrás de uma sede. Beth lembra que a maioria das atividades ocorria na rua mesmo e algumas reuniões das coordenadoras na casa de alguém. Mas uma hora não deu mais. “Conseguimos uma sede e o Ilú é comandado por Iansã e Xangô, que são dois orixás quentes e tem tudo para dar certo. No primeiro ano a gente já tinha ido tocar na Colômbia. E com isso foi crescendo e reunindo muitas mulheres. E a gente fala que temos o correio nagô. Eu falo pra você e você pra ela e isso vai crescendo. Quem faz o Ilú são as próprias mulheres que estão nesse trabalho”.

Beth é uma delas. Estudiosa e pesquisadora da cultura africana e afro-brasileira, cresceu ao lado de tradicionais escolas de samba de São Paulo, o que ajudou na sua formação e gosto musical. Nascida na Brasilândia, frequentava as quadras sempre que podia. O pai, policial da Rota, era bastante rígido. “Era difícil ele entender que eu queria tocar tambor. Mas brinco que criei um exército feminino, não o que talvez ele quisesse, mas criei”. Aos 17 anos começou no Xequerê, mas sempre de olho no tambor – no entanto, os mais velhos diziam que ainda não era hora. Respeitou. Nesse período, o trabalho de pesquisadora já existia. Além de tocar, a banda em que estava fazia todo esse trabalho de reflexão e questionamento sobre os papéis, locais e situação dos negros na sociedade e assim foi se formando – musical e pessoalmente.

Quem faz o Ilú são as próprias mulheres que estão nesse trabalho.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Estudiosa e pesquisadora da cultura africana e afro-brasileira, ela cresceu ao lado de tradicionais escolas de samba de São Paulo.

Na década de 1990 já tocava profissionalmente – e já havia, enfim, alcançado os tambores. Tocou com muita gente, participou de vários grupos, fez percussão em teatro, trabalhou muito. “Tive muita sorte de conhecer pessoas nessa trajetória e olhar e aprender porque essa foi minha verdadeira faculdade, tive sorte de conhecer pessoas que já tinham uma estrada, pessoas importantes que me amadrinharam e foram me dando e eu fui recebendo”. Além do trabalho no Ilú, Beth é também arte educadora e trabalha com música em hospitais há quase 20 anos junto com uma contadora de histórias. Há quatro anos, fez curso superior – escolheu a sociologia. O resto, foi na experiência e vontade em saber mais. “Tudo que eu sei, eu aprendi fazendo”.

Trabalhou para isso. Mas ensinou e ainda ensina muito também.Inspira. Serve de modelo e fala em deixar uma sucessora. Hoje, ao olhar para a imensidão de mulheres a sua frente, vê muitas possibilidades. Crianças e jovens já ali, de black power. Meninas de cinco, seis anos, com instrumento nas mãos. “É incrível ver aquilo. Olho e penso: que bom!”. Fora isso, Beth tem também uma herdeira direta. Sua filha, de dez meses. “Ela é filha de duas mães. Tenho ainda um filho adotivo que já tem 30 anos. Minha companheira que ficou grávida e minha filha sai comigo [no bloco] sempre que dá”. 

Uma nova vida que vai à rua. Mais uma criadora neste espaço de força, regido por uma entidade. Muitos corações. Várias mãos. Uma única vibração.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Verizon Media Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.