ENTRETENIMENTO
04/10/2019 04:00 -03

A lenta e gradual morte cultural de ‘Beleza Americana’

O vencedor do Oscar de Melhor Filme, que completa 20 anos, foi de elogiada sátira da vida suburbana a motivo de piada.

Quando Beleza Americana ganhou o Oscar de Melhor Filme em março de 2000, a vitória parecia uma demonstração de que a Academia estava ousando. O filme tratava de “sexo e drogas, chantagem, homofobia, infidelidade e disfunção suburbana”, disse o produtor Dan Jenkins durante seu discurso de agradecimento. “E, no meio disso tudo, havia um personagem chamado Ricky Fitts, que a certa altura diz: ‘Às vezes existe tanta beleza no mundo que acho que não aguento’, e todo mundo na plateia sabia exatamente do que ele estava falando.”

Durante a maior parte das duas últimas décadas anteriores, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas tinha entregado seu principal prêmio a filmes de época de grande escala: Carruagens de Fogo, Gandhi, A Lista de Schindler, Coração Valente, O Paciente Inglês, Titanic e por aí vai. Mas Beleza Americana? Foi uma surpresa.

A sátira sobre vidas domésticas contemporâneas que termina com um tiro não era tão edificante quanto Forrest Gump ou Shakespeare Apaixonado. As pétalas de rosas tinham espinhos, uma reflexão adequada para o país que acabara de viver a paranoia do bug do milênio e o massacre de Columbine.

Mas, oh, como caem os poderosos.

Hoje, Beleza Americana é, no geral, visto como tudo, menos como um filme ousado. Nos 20 anos desde sua estreia, acompanhada por críticas superpositivas e 365 milhões de dólares em bilheteria global, a reputação do filme não poderia ser mais diferente. O que era um golpe de mestre, uma provocação, hoje parece um nonsense retrógrado. Muitos clássicos têm seu valor cultural reavaliado, pois o tempo muda as ideias a respeito de boas histórias, mas poucos viraram motivo de piada como Beleza Americana.

O declínio do filme é complexo, e as explicações mudam dependendo de quem você ouça. Costuma ser assim quando não há um denominador comum para a chamada reação negativa. Mas não estamos falando de a internet exigir uma postura woke retroativamente, mesmo com as sugestões de pedofilia, homossexualidade e violência do filme. Também não podemos colocar a culpa só nas costas de Kevin Spacey, apesar de as várias acusações de ataques sexuais que pesam contra o ator influenciarem como enxergamos as inclinações que seu personagem tem ao estupro.

Se olharmos mais de perto, como pede o slogan do filme, a apreensão em torno de Beleza Americana se manifestou desde cedo, por meio de paródias, tragédias nacionais e piadas nos programas humorísticos de TV.

――

Beleza Americana é a história de Lester Burnham (Spacey), um rico executivo do setor editorial que está de saco cheio da carreira corporativa e do casamento sem sexo com uma corretora de imóveis obcecada por sua imagem (Annette Benning). Crise da meia-idade. Lester pede demissão, compra o carro dos seus sonhos e se apaixona pela cheerleader loira (Thora Birch) amiga de sua filha (Mena Suvari) – comportamento clássico do homem-criança.

Enquanto isso, os vizinhos dos Burnham são uma família reprimida liderada pelo coronel da reserva dos marines Frank Fitts (Chris Cooper), cuja mulher (Allison Janney) está quase catatônica e cujo filho (Wes Bentley) é um voyeur inquieto que trafica maconha. As vidas das duas famílias se cruzam, e começa o melodrama.

Alan Ball, que tinha escrito roteiros para as sitcoms Grace Under Fire e Cybill, inspirou-se no escândalo de Amy Fisher, um saco plástico que ele viu voando perto do World Trade Center, a narração além-túmulo de Crepúsculo dos Deuses e sua infância num subúrbio residencial na Geórgia. Depois de um leilão com estúdios concorrentes, a DreamWorks, co-fundada em 1994 por Steve Spielberg, comprou os direitos do roteiro em abril de 1998, dando peso ao projeto logo de cara.

Na época, Hollywood estava vivendo um caso de amor com sátiras à vida suburbana branca dos Estados Unidos, de Edward Mãos de Tesoura e Mamãe é de Morte a Pleasantville – A Vida em Preto e Branco, Tempestade de Gelo e O Show de Truman. Em dezembro, as câmeras estavam rodando – um início de produção muito rápido em comparação com a média da indústria. Sam Mendes, diretor estreante que tinha obtido êxito com o revival de Cabaret na Broadway, estava no comando.

Quando Beleza Americana estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em setembro do ano seguinte, o hype era palpável. Era o filme da temporada, e a DreamWorks manteve o clima favorável colocando o filme nos cinemas naquele mesmo mês, aproveitando o embalo das críticas positivas. Preocupado com a recepção nos shoppings da América profunda, o estúdio inicialmente esperava que o filme estreasse em 700 salas (Sexto Sentido, em comparação, estreara em cerca de 2.800 dois meses antes). Mas Beleza superou todas as expectativas, ultrapassando 1.500 salas e consolidando a posição de favorito para o Oscar.

Os críticos jogaram muito confete sobre o filme, elogiando o ritmo de Mendes e a trilha sonora hipnótica de Thomas Newman, entre outros elogios. Mas revisitar essas críticas com o olhar mais socialmente iluminado de 2019 deixa claro que poucos confrontaram as ideias duvidosas sobre gênero, classe e sexualidade presentes no filme – Beleza Americana não sobreviveria às pensatas que hoje monopolizam a cultura pop.

Temos de começar falando de Angela Hayes. Angela é a personagem de Suvari, apresentada fazendo uma rotina de cheerleader que se transforma na fantasia doente de Lester, 42 anos: um strip-tease que termina com pétalas de rosa saindo do peito dela. Várias resenhas compararam Angela a Lolita – do livro de mesmo nome de Vladimir Nabokov, narrado da voz pouco confiável de uma menina de 12 anos.

Mas elas não trataram o desejo de Lester como nada além de um dilema pessoal. Na prática, o suposto apelo sexual de Angela cristaliza a crise de meia idade de Lester, um artifício explorado tanto do lado do humor quanto da sensualidade. Ele começa a malhar e a buscar luxos juvenis com o objetivo de impressioná-la, contrariando a mulher. Beleza Americana não endossa o comportamento de Lester, mas também não evita erotizar a personagem de Angela para desenvolver o personagem de Spacey.

“É errado que um homem de 40 anos sinta desejo por uma adolescente?”, escreveu o crítico Roger Ebert “Todo homem sincero entende que essa é uma pergunta complicada. É errado moral e, com certeza, legalmente. Mas, como sabe toda mulher, os homens nascem com os olhos ligados diretamente à genitália, driblando os centros de pensamento racional. Eles podem reprovar seus próprios pensamentos, mas não podem evitá-los.”

E então temos Frank Fitts. Apresentado como um homófobo virulento que tem fetiche por armas de fogo, descobre-se na última hora que – depois de uma série de mal-entendidos que Ebert chama de “comédia pastelão” – que Frank é gay. (Ball, abertamente gay, criou o personagem porque suspeitava que seu pai suprimia sua própria homossexualidade.)

O desenlace de Beleza American está ligado a essa virada da trama. Frank, que erradamente achava que Lester estava tendo um relacionamento com seu filho, tenta beijar Lester e é repudiado. Chacoalhado, Lester decide não dormir com Angela, uma estratégia que deveria redimi-lo. Quando Angela revelar ser virgem, ele finalmente a enxerga como uma criança, não um objeto carnal. Ela é, em outras palavras, uma ferramenta freudiana que ajuda na autodescoberta de um loser de meia idade. Olhando para uma foto da família, Lester finalmente se dá conta de que sua vida é muito boa.

Mas Frank, confuso e cheio de ódio, mata Lester. E todo o crescimento de Lester não serviu para nada.

Ninguém resolveu suas questões de verdade, mas Lester termina o filme com uma pseudoiluminação além-túmulo: “Acho que poderia estar bem puto com o que aconteceu comigo, mas é difícil ficar irritado quando existe tanta beleza no mundo”.

――

Ball e Mendes estavam tentando criticar as fachadas materialistas que os americanos ricos usam para proteger suas reputações. Mas suas ideias sobre pedofilia são redutivas, e o tratamento que eles dão ao personagem gay – uma revelação com consequências fatais – ressaltam o quanto Beleza Americana é produto de seu tempo.

Até mesmo com o monte de Oscars, incluindo estatuetas para Ball e Spacey, logo ficou claro que alguns dos comentários do filme eram superficiais.

Em abril de 2000, o MTV Movie Awards (decidido por votação dos espectadores) indicou Spacey e Suvari para o prêmio de Melhor Beijo, aparentemente não dando nenhuma importância para as implicações complicadas do tal beijo. O estúdio se recusou a liberar um clipe da cena para a MTV, pois não queria glorificar uma parte da trama que o filme condenava. A MTV acabou revogando a indicação (curiosamente, no ano anterior os espectadores haviam indicado uma adaptação de Lolita para a mesma categoria).

Não podemos responsabilizar os MTV Movie Awards como o início da queda do filme, mas é um bom começo. Foi a partir dali que começamos a gradualmente aceitar que Beleza Americana era um filme pretensioso, equivocado ou algo ainda pior.

Uma avaliação mais robusta apareceu em 2001, quando a série Family Guy fez duas paródias do filme na mesma temporada. Em um dos episódios, o patriarca Peter está filmando o filho com uma câmera de vídeo quando sua atenção é desviada por um saco plástico voando no vendo, exatamente como a que Ricky filma e que vira objeto de sua obsessão. Ecoando as palavras de Ricky, Peter diz poeticamente: “Existe tanta beleza no mundo que meu coração explode”. Seis episódios mais tarde, Peter tem uma fantasia com uma cheerleader loira que dança como Angela. A blusa dela se abre e, em vez de pétalas de rosa, voam asinhas de frango.

Uma paródia num desenho animado e uma controvérsia menor envolvendo a MTV foram suficientes para semear descontentamento, mas o declínio de Beleza Americana vai além de incidentes tão efêmeros. Entre os dois episódios de Family Guy aconteceu o 11 de Setembro.

De um dia para o outro, passamos a ver o mundo com outros olhos. As ideias profundas que Beleza Americana tentavam comunicar agora pareciam na ultrapassadas, na melhor das hipóteses ― ou sem noção, na pior. Uma saga de gente de sangue azul entediada a ponto de passar por crises. De certa forma, o 11 de Setembro foi o começo do fim desse tipo de filme, assim como a Guerra do Vietnã acabou com a era dos filmes de bangue-bangue.

Em 2003, Jay Leno falou do desconforto trazido por Beleza Americana no monólogo de abertura do Tonight Show, dizendo que o filme era o predileto de Bill Clinton. “Não é esquisito?”, perguntou Leno. “Um presidente distinto como Bill Clinton, o filme preferido dele é sobre um cara preso num casamento sem amor e obcecado por transar com uma menina novinha”. (Clinton de fato falou publicamente sobre Beleza Americana, dizendo que o filme era “incrível” numa entrevista de 2000 com Ebert, quando o escândalo Monica Lewinski ainda estava na memória de todos. Ele não foi capaz de perceber a ironia.)

ASSOCIATED PRESS
Kevin Spacey e Annette Bening contracenam em Beleza Americana

Em 2005, a revista Premier listou Beleza entre os 20 filmes mais superestimados de todos os tempos. Até mesmo numa era pré-Twitter, a intenção era claramente causar polêmica, considerando que O Mágico de Oz, 2001: Uma Odisseia no Espaço e Nashville entraram na lista. Mesmo assim, a maré tinha virado. As pessoas estavam olhando com mais atenção. Em meio à recessão que começou em 2008, quando a intersecção de capitalismo e cultura reescreveu as normas de Hollywood para melhor e para pior, a obsolescência do filme se intensificou.

Desde então, todo mundo entrou para o time anti-Beleza Americana. Ou pelo menos é o que parecer. Tudo mundo menos Katy Perry, que invocou o filme quando cantou “Você já se sentiu como um saco de plástico?” no megahit de 2010 Firework. Perry não tinha sido informada, mas Broad City e Inside Amy Schumer, sim. Os dois programas fizeram piada com a cena do saco plástico em suas temporadas de estreia.

Anos depois das declarações de amor dos críticos, a mídia deu meia volta. Uma lista de 2012 publicada pelo site Complex chamou o filme um dos “10 filmes de mensagem mais forçada de todos os tempos”. Dois anos depois, o IndieWire escreveu: “Vítima, talvez, do hype exagerado, o filme de Sam Mendes de maneira alguma é ruim, mas é difícil lembrar por que exatamente – além das performances causticamente tóxicas de Kevin Spacey e Annette Bening e um incrível Chris Cooper – todo mundo enlouqueceu com o filme”.

Naquele mesmo ano, a Entertainment Weekly publicou um artigo intitulado: “Examinando Beleza Americana aos 15 anos: obra-prima ou farsa?” Num episódio de 2015 do podcast The Canon criticaram pesadamente o filme.

Com entendimentos mais profundos de abuso sexual desigualdade de renda e disparidade de gêneros na consciência nacional, Beleza Americana não envelheceu bem. Quando o ator Anthony Rapp acusou Spacey de tê-lo assediado sexualmente quando ele tinha 14 anos, os paralelos com Lester Burnham eram mais que evidentes.

E, quando outros homens de Hollywood foram desmascarados como pervertidos obcecados por poder, a imagem de Angela como fantasia de um cara virou símbolo dessa repulsividade descontrolada. A arte virou artifício.

E o tempo mostrou como 1999 foi um ano maravilhoso para o cinema. (De verdade: o livro “Best. Movie. Year. Ever.: How 1999 Blew Up the Big Screen” (melhor filme de todos os tempos: como 1999 explodiu as telas), de Brian Rafferty, foi publicado em abril.) Com O Talentoso Ripley, Sexto Sentido, Matrix, Eleição, Magnólia, Quero Ser John Malkovich, De Olhos Bem Fechados, Amigos Indiscretos e Meninos Não Choram, é difícil dizer que Beleza Americana é superior.

Entregar o Oscar de Melhor Filme para algo cujo maior impacto cinematográfico envolve risos entredentes e desagregação agora parece tolice. Eleição, por exemplo, tem mais a dizer sobre o tédio suburbano e a insensatez masculina; O Talentoso Ripley é muito mais astuto no que diz respeito a mobilidade social.

Ainda assim, a trajetória de Beleza Americana da unanimidade ao declínio é irresistível e faz o filme valer a pena. A maioria das reconsiderações culturais do século 21 fermentam na internet, muitas vezes por causa de escândalos. Mas essa começou na TV, em revistas, em conversas de corredor.

O cenário do entretenimento está mais fragmentado que nunca, mas ainda assim o legado desse filme nos une. O público talvez soubesse exatamente o que Fitts significava em 1999, mas também sabe exatamente o que ele significa – e não significa – hoje.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Also on HuffPost