POLÍTICA
18/02/2019 18:33 -03 | Atualizado 18/02/2019 19:56 -03

Gustavo Bebianno é primeiro ministro a deixar governo Bolsonaro

“O presidente deseja sucesso na nova caminhada”, disse o porta-voz do Planalto em relação a Bebianno.

MAURO PIMENTEL via Getty Images
A exoneração de do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno, foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) nesta segunda-feira (18).

À frente da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno é o primeiro ministro do governo Jair Bolsonaro a deixar a Esplanada dos Ministérios.

A exoneração foi anunciada nesta segunda-feira (18) pelo porta-voz do Palácio do Planalto, general Otávio Santana do Rêgo Barros. “O presidente agradece sua dedicação à frente da pasta e deseja sucesso na nova caminhada”, disse.

O ex-presidente do PSL, partido do presidente, é acusado de envolvimento em esquema de desvio de dinheiro envolvendo candidaturas laranja. O general da reserva Floriano Peixoto, que era vice de Bebianno, vai assumir interinamente a Secretaria-Geral.

Pouco depois do anúncio, Bolsonaro divulgou um vídeo no qual elogia o ex-ministro e a “seriedade e qualidade” de seu trabalho. “Tenho que reconhecer a dedicação e comprometimento do senhor Gustavo Bebianno a frente da coordenação da campanha eleitoral em 2018. Seu trabalho foi importante para o nosso êxito. (...) Reconheço também sua dedicação e esforço durante o período em que esteve no governo”, disse o presidente.

Segundo ele, “desde a semana passada, diferentes pontos de vista sobre questões relevantes trouxeram a necessidade de uma reavaliação”. “Avalio que pode ter havido incompreensões e questões mal entendidas de parte a parte. Não sendo aprovados pré julgamentos de qualquer natureza.”

Anúncio adiado

Diante do clima de tensão da maior crise política do novo governo, a expectativa até o fim de semana era de que a saída fosse oficializada já pela manhã. Ao longo do dia, o anúncio foi adiado. A previsão era de que o porta-voz fizesse um pronunciamento às 17h, mas ele só concretizou a demissão às 18h25.

Questionado por jornalistas, o porta-voz disse que o “motivo da exoneração é de foro íntimo do nosso presidente” e não respondeu a respeito de investigações sobre o ministro do Turismo, Marcelo Alvaro Antonio, também suspeito de envolvimento em esquema de candidaturas laranja.

“Não me cabe avançar em qualquer suposição a respeito”, afirmou.

De acordo com o porta-voz, não haverá alterações na estrutura da pasta. “É natural que, pensando em nosso País, isso se faça de forma mais consensual.”

No início da tarde, o vice-presidente, general Hamilton Mourão informou que o impasse estava perto do fim. “De hoje não passa”, afirmou a jornalistas.

Nos últimos dias, a cúpula do Executivo tentou articular uma mudança de cargo, com Bebianno na diretoria da Hidrelétrica de Itaipu. Também foi cogitado o comando da embaixada de Roma, na Itália, de acordo com o jornal O Globo.

A queda do ex-aliado se consolida na véspera do envio da reforma da Previdência ao Congresso Nacional. A proposta de emenda à Constituição (PEC) será apresentada pelo presidente nesta quarta-feira (20). A aprovação das mudanças nas regras de aposentadoria é o principal fator para o mercado avaliar o sucesso do novo governo.

O estremecimento com Bebianno causa instabilidade na relação de Bolsonaro com seus ministros, assessores próximos e com a base. Militares e outros aliados aumentaram as críticas à influência dos filhos sobre o presidente.

Para blindar esse movimento, Bolsonaro convidou Floriano Peixoto a assumir a Secretaria-Geral. Com isso, o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, será o único civil entre os quatro ministros que despacham no Palácio do Planalto.

Bebianno x família Bolsonaro

A crise no governo ficou exposta na última quarta-feira (13), após o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), um dos filhos do presidente, acusar Bebianno de mentir ao dizer que falou com Jair Bolsonaro. Carlos chegou a divulgar um áudio privado que seu pai gravou e enviou por WhatsApp para Bebianno, dizendo que não falaria com o ministro.

A postura foi endossada pelo próprio presidente, que retuitou em seu perfil oficial as acusações do filho - e o áudio - , e, em entrevista à Record, no mesmo dia, disse que se fosse comprovada irregularidade no PSL durante a campanha, o ministro deveria “voltar às origens”.

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Desentendimentos entre Bebianno e a família Bolsonaro contaminam base do governo na véspera da apresentação da reforma da Previdência.

Advogado e homem de confiança de Bolsonaro, Bebianno assumiu a presidência do PSL no período eleitoral como condição para o então presidenciável se filiar ao partido. A sigla, que hoje é a segunda maior da Câmara dos Deputados, contava apenas com um parlamentar antes do ingresso do capitão reformado do Exército.

Na campanha, Bebianno atuou em diversas frentes, da estratégia jurídica à comunicação. Nessa época, os desentendimentos com a família Bolsonaro começaram e ficaram evidentes quando Carlos Bolsonaro criticou a nomeação do advogado no primeiro escalão.

Bebianno é investigado por esquema de laranjas

De acordo com reportagens publicadas pela Folha de S. Paulo, o PSL financiou candidaturas laranjas no período em que Bebianno presidiu a legenda. No domingo, o jornal revelou que o partido liberou R$ 400 mil para uma candidata laranja em Pernambuco.

Maria de Lourdes Paixão foi a terceira maior beneficiada com verba do PSL no país, com valor acima do usado na campanha presidencial, mas só recebeu 274 votos.

Ata de uma reunião da Executiva Nacional do PSL em 11 de julho mostra que Bebianno era o responsável pela distribuição de verbas eleitorais, segundo a Folha.

Reportagem do jornal O Estado de São Paulo, por sua vez,  mostrou que 7 candidatos do PSL repassaram R$ 1,2 milhão a uma empresa de um dirigente do partido quando Bebianno estava no comando. Desse grupo, só Luciano Bivar, atual presidente da sigla, foi eleito deputado federal. O valor é o triplo do que a campanha presidencial declarou com gastos de impressão.

Ao falar das acusações, Bebianno disse que não errou e afirma que a responsabilidade é do atual presidente da sigla. Luciano Bivar, por outro lado, alega que estava licenciado do comando da legenda na campanha.

A Polícia Federal apura o caso. Na última terça-feira (12), intimou uma candidata a deputada acusada de ter sido laranja, a prestar depoimento. A Procuradoria Regional Eleitoral e a Polícia Civil de Pernambuco também atuam na investigação.