POLÍTICA
19/02/2019 08:02 -03

Crise com Bebianno mostra que principal obstáculo à gestão Bolsonaro está em sua base

Rachas expostos no PSL frustraram a expectativa da bancada de crescer de 52 para 61 deputados e se tornar a maior da Câmara.

Ueslei Marcelino / Reuters
Demora de Jair Bolsonaro na demissão de Bebianno do cargo de ministro-chefe da Secretaria-Geral inflou críticas de aliados. No início da crise, o líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (GO) disparou: "O presidente tem de ter bom senso". 

O governo do presidente Jair Bolsonaro enfrenta como principal oposição o próprio círculo de aliados. O impasse com os apoiadores se acirrou com a crise que envolveu a demissão do principal articulador da campanha de Bolsonaro à Presidência, Gustavo Bebianno, do cargo de ministro-chefe da Secretaria-Geral.

Nos últimos dias as principais críticas vieram do PSL, envolvido no escândalo de candidaturas laranjas. O ex-ministro, que presidiu o partido na campanha eleitoral, é acusado de ter viabilizado o esquema de desvio de dinheiro envolvendo as candidaturas. Integrantes da sigla tentam se dissociar do caso, pressionam por solução e batem cabeça na defesa do PSL.

Líder do partido na Câmara dos Depurados, Delegado Waldir (GO), garantiu na semana passada que Bebianno não seria demitido. Ele foi a público tentar tirar o então ministro do foco e defender a função de Bebianno enquanto presidiu a sigla.

“O presidente (Bolsonaro) tem de ter bom senso. O Bebianno elegeu ele, mais de 50 deputados, elegeu o Delegado Waldir e 3 governadores”, disse o líder. Segundo ele, “um debate mais apimentado com o filho do presidente não é motivo para ele (Bebianno) sair”.

Nesta segunda-feira (18), o deputado teve de voltar atrás. “O Bebianno vai ser demitido, foi isso que foi dialogado. (…) Ele quebrou a confiança do presidente, acabou”, disse à Reuters. (Leia mais sobre a demissão de Bebianno aqui.)

Desde quarta-feira (13), quando a divergência entre Carlos Bolsonaro, filho do presidente, e Bebianno foi parar no Twitter, com a publicação de um áudio que desmentia afirmação do ex-ministro de que a relação com Bolsonaro estava boa, outros integrantes do PSL passaram a pressionar o governo. A deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) foi uma delas. 

Racha na bancada

As notícias do racha interno se espalharam e afastaram parlamentares que negociavam migrar para o PSL. Segunda maior bancada da Casa, com 52 deputados eleitos em 2018, o partido esperava chegar a 61 e ultrapassar o PT, que tem 59. A siga chegou a 54. No Senado, a expectativa era passar de 4 para 6 parlamentares. O senador Capitão Styvenson (Podemos-RN), por exemplo, era um nome certo. O parlamentar, entretanto, trocou a Rede pelo Podemos.

As eleições para as presidências da Câmara e do Senado também deixaram marcas. Embora o governo tivesse afirmado que ia se manter fora, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, atuou nas duas Casas, com foco principal no Senado. Conseguiu eleger o aliado Davi Alcolumbre (DEM-AP), mas criou um embate com o senador Major Olímpio (PSL-SP), um dos principais articulares de Bolsonaro na Casa.

O senador considerou a interferência do ministro “imprópria” e diz que agora é momento do partido “curar as feridas”.

 

Problemas desde o Caso Queiroz

O cenário da oposição dentro da própria direita já tinha sido identificado por apoiadores do governo no período em que o escândalo com o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) dominava as páginas do noticiário. O filho do presidente tem a movimentação financeira investigada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. 

Ao HuffPost Brasil, o vereador Fernando Holiday (DEM-SP) considerou que  “as grandes divergências no governo foram com a direita”. 

Acho que pode fazer bem porque é a direita tomando espaço de discussão que deveria estar sendo ocupado pela esquerdaFernando Holiday (DEM-SP), vereador

No fim de janeiro, quando fez a declaração, ele citou como exemplo a oposição direitista quando o presidente assinou o decreto sobre as armas, em que uma parte da direita queria uma flexibilização maior e outra defendia o decreto como foi feito. Também listou caso de Flávio Bolsonaro, em que parte da direita defendia que ele não tivesse questionado ao Supremo sobre a possibilidade de ter foro privilegiado.

Na época, entretanto, o vereador considerou positivas as divergências. “Acho que pode fazer bem porque é a direita tomando espaço de discussão que deveria estar sendo ocupado pela esquerda.”