ENTRETENIMENTO
10/02/2019 01:00 -02 | Atualizado 10/02/2019 10:22 -02

'Beach Club', de Lindsay Lohan, é um reality show de redenção calculada

O novo programa da MTV norte-americana não é um concurso, mas a atriz quer transformá-lo nisso.

MTV

Lindsay Lohan’s Beach Clubé o segundo reality show de Lindsay Lohan. O primeiro, intitulado simplesmente Lindsay, contava com Oprah Winfrey para criticar a atriz, destaque permanente dos tabloides, enquanto ela se esforçava para melhorar sua imagem depois de passar por uma clínica de reabilitação para dependentes químicos.

Oprah Winfrey não está em Beach Club, que estreou em janeiro na MTV, mas Lohan não nos deixará esquecer até que ponto esse anjo da guarda do mundo transformou sua vida.

Durante o after-show de Beach Club, apresentado por Jonathan Bennett, que contracenou com Lohan em Meninas Malvadas – sim, há um aftershow apresentado por Jonathan Bennett “Seu Cabelo Fica Sexy Penteado Para Trás” ―, Lohan mencionou Oprah mais de uma vez, dizendo que a apresentadora deu um jeito na vida caótica dela e lhe mostrou como virar empreendedora (agora é sua vez, Marie Kondo).

Evidentemente Lohan deu ouvidos ao conselho de Oprah de “parar de fazer besteira”. Pelo menos é isso que Beach House quer nos fazer crer. Hoje a atriz é dona de uma boate e dois resorts na Grécia, incluindo o resort festeiro em Mykonos onde a nova série acontece.

Não apenas ela está administrando sua própria vida, depois de passar anos sentindo-se controlada por paparazzi e pelo público intrometido, como também está administrando uma tribo de “embaixadores” dos EUA, jovens e sexies, que atendem aos clientes do resort e - como ela mesma diz - encarnam o império Lohan.

O objetivo do programa fica evidente nos primeiros 15 segundos. “Trabalho em Hollywood há 28 anos e já fiz muita coisa na vida”, anuncia Lohan, 32 anos. “Conheço todos os altos e baixos da vida sob os holofotes.” Após uma montagem de cenas em que ela foi presa pela polícia, explosões de raiva dela e acidentes ou incidentes profissionais que sofreu, Lohan se posta sob o sol europeu e declara: “Agora quero fazer diferente. Quero ser minha própria chefe.”

É uma história de redenção que troca as façanhas bombásticas do passado de Lohan por dramas vivenciados no local de trabalho.

MTV
O elenco de 'Lindsay Lohan's Beach Club' em imagem publicitária divulgada pela MTV.

A série está cheia de diálogos que soam conhecidos. Não é por nada: afinal, a TV-realidade está cheia de sagas de pessoas que deram a volta por cima e celebridades capitalizando em cima de sua fama passada.

Basta ver os concursos de namoro de Bret Michaels e Flavor Flav na VH1, a sitcom desbocada de Anna Nicole Smith, os perfis mostrando como estão hoje gente como Paula Abdul, Ashlee Simpson, o clã Osbourne, Denise Richards, Snoop Dogg, Michelle Williams, Mariah Carey e incontáveis celebridades menores que devo estar esquecendo.

Mas o empreendimento de Lindsay Lohan difere de seus antecessores no tempo que ela passa na tela: Lohan é mais um avatar da série que sua estrela. Beach House não mostra todos os detalhes da vida atual de Lohan. Tampouco a mostra desenvolvendo o resort de Mykonos, que já estava aberto para o público quando a equipe de filmagem chegou. Em vez disso, Beach House destaca a dinâmica estimulante entre os funcionários que ela e seu “sócio de negócios” Dennis Papageorgiu escolheram em boates de Las Vegas e academias de fitness de Los Angeles, lugares onde “Kardashian” é uma palavra sagrada.

Beach House compartilha parte de seu DNA com o de Vanderpump Rules, da Bravo, só que a atriz e dona de restaurante Lisa Vanderpump nunca chegou a ser tão famosa quanto foi Lindsay Lohan em sua época áurea deslanchada com Operação Cupido.

Na verdade, Beach House lembra uma versão New Age de O Aprendiz, só que em vez de convidar os participantes para salas de reuniões de negócios, Lohan sugere que eles meditem. A fala inicial de Lohan espelha a de Trump, que disse no piloto de O Aprendiz: “Uns 13 anos atrás eu estava tendo problemas sérios. Tinha uma dívida de bilhões de dólares. Mas eu resisti, lutei e venci em grande escala.” Digo isso não para comparar Lindsay Lohan a Donald Trump, mas para mostrar como as narrativas de redenção calculada e seu discurso bombástico se tornaram comuns entre celebridades decaídas porém ricas que têm bons contatos em redes de TV.

Qual é a primeira coisa que Lindsay Lohan faz quando seus funcionários chegam às ilhas gregas? Ela desfaz a festa que eles estão curtindo, durante a qual eles tiram a roupa e mergulham numa piscina.

Lohan está decepcionada porque, é claro, se estiverem cansados depois de farrearem a noite toda, eles não vão conseguir fazer seu trabalho direito, e agora estão conhecendo sua chefe de roupa molhada.

A segunda coisa que ela faz: pede a todos que se apresentem e depois diz a Gabi, uma “garçonete VIP” de sutiã que se gaba de seu currículo, que inclui um curso pré-vestibular de medicina: “Você sabe chamar a atenção para você mesma, e isso é uma coisa que não vou permitir”. Gabi confessa que está usando Beach House como ponto de partida para seus próprios projetos, levando Lohan a se perguntar em voz alta se ela é a pessoa certa para o trabalho. Para quem trabalha para Lohan, a única coisa que vem ao caso é a capacidade de a pessoa de ajudar a formar a “espinha dorsal” da marca Lindsay Lohan.

“Se você quer seu próprio programa, deveria trabalhar para isso”, Lohan repreende Gabi.

Beach House não é uma competição, mas Lohan está ansiosa para converter o programa nisso. A todo momento ela deixa subentendido – e às vezes fala diretamente – que está disposta a demitir qualquer pessoa que não queira ou saiba servir as piñas coladas dos clientes. “Por eu estar sob o olhar do público, as pessoas tiram algo de mim constantemente”, fala Lohan com sua voz rouca.

É uma declaração justa, comprovada por anos de evidências, mas Lohan põe o que diz a perder quando traça uma comparação hiperbólica com suas próprias experiências de trabalho.

“Seria como eu ir encontrar Steven Spielberg de sutiã, shortinhos molhados e cabelo molhado – não dá”, ela comentou.

O problema é que Lindsay Lohan nunca trabalhou para Steven Spielberg. Dar a entender que sim transmite uma sensação de tristeza pelo que a carreira de atriz dela poderia ter sido, mas não chegou a ser.

MTV
Dennis Papageorgiou e Lindsay Lohan em foto de publicidade divulgada pela MTV.

Lohan passa o pouco tempo que fica na tela em Beach Club nos convencendo de que ela está qualificada para gerir uma empresa porque já superou obstáculos e encontrou a autossustentabilidade. Mas ela parece estar querendo convencer a si mesma também, usando o mesmo discurso enlatado de Trump e Vanderpump em seus programas ilustres do horário nobre. Lohan toma cuidado para não deixar que sua própria vida forme o conteúdo principal da série, como aconteceu com Lindsay. Para isso, ela converte suas práticas de recursos humanos em uma luta pela sobrevivência dos mais fortes.

No final do episódio, ela diz: “Isto daqui não são férias de verão. Para dar certo aqui vocês precisam ser os melhores entre os melhores. Mas, depois de ontem, não sei se estes atendentes VIP possuem as qualidades necessárias. Se eles não pretendem trabalhar bem e se esforçar, não vão dar certo comigo. Eles estão representando a Lohan Beach House e não podem se esquecer disso. Então preparem-se. Sou a chefe infernal.”

Lohan pode se chamar de chefe infernal o quanto quiser, mas Beach Club não é superdivertido, apesar do ambiente ensolarado. Não há nada de errado em Lohan utilizar seu nome para lançar locais de entretenimento, especialmente se ela não consegue mais muitos trabalhos de atriz (ou se simplesmente opta por não tentar, tirando uma vez recente no Twitter em que se ofereceu para fazer Batgirl).

Mas converter seus empregados em um espetáculo que segue todas as convenções do gênero reality – vejam só, eles brigam! Eles namoram! ―, ao mesmo tempo em que ameaça demiti-los se eles não se comportarem direito, não lhe garantirá a reinvenção que ela evidentemente deseja. Nenhum deles possui metade do magnetismo dela, mas são eles que precisam guiar a trama.

O piloto de Beach House é tão desligado da realidade quanto foi a adolescência acidentada de Lohan. Faz poucos meses que vimos Lohan defender Harvey Weinstein e transmitir por streaming ao vivo uma disputa alarmante em que ela se meteu com uma família que identificou como sendo de refugiados sírios. Encurralar bonitões e bonitonas seguidores de celebridades e que sabem atender a clientes “milionários e bilionários” não fará pela persona de Lohan tudo que ela deseja.

Podemos (e devemos) torcer por Lindsay Lohan com o passar dos anos. Ela é um exemplo rematado de talento desperdiçado no turbilhão de Hollywood, e sua recusa em desaparecer em silêncio é tão inspiradora quanto patológica. Mas ela vai precisar de mais que uma versão menor de O Aprendiz se quiser alcançar um novo capítulo que lhe prometa qualquer longevidade. Se“Lindsay Lohan’s Beach Club é um exercício de construção de imagem, faltam-lhe um martelo e alguns pregos. Quem sabe Lohan possa perguntar a Oprah o que fazer.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.