MULHERES
03/03/2020 13:46 -03 | Atualizado 03/03/2020 18:59 -03

Público do BBB pede saída de Guilherme por considerar relacionamento com Gabi abusivo

Parte da audiência do BBB 20 já percebeu que os brothers Guilherme Napolitano e Gabi Martins não estão construindo uma relação saudável.

Reprodução/TV Globo
Parte da audiência do BBB 20 já percebeu que os brothers Guilherme (à direita) e Gabi (à esquerda) não estão construindo uma relação saudável.

“Ninguém tem que se meter no nosso relacionamento.” “A culpa não é minha, isso é coisa da sua cabeça.” “Você sabe que eu só quero te fazer feliz.” “Já que você acha que eu te faço mal, então vou me afastar.” “Eu sempre faço de tudo para demonstrar o quanto eu te amo.”

Ditas fora de contexto, essas frases parecem insinuações bobas. Mas quando você vive um relacionamentoabusivo, você questiona a sua sanidade mental, a sua autoestima e os seus comportamentos. E quando as cenas de manipulação e gaslighting são expostas em rede nacional, isso se torna ainda mais complexo.

Parte da audiência do BBB 20 já percebeu que os brothers Guilherme Napolitano e Gabi Martins não estão construindo uma relação saudável. Até mesmo outros participantes do reality entenderam que o comportamento de Gui em relação à namorada é tóxico e, desde que começou a se relacionar com o garoto, ela só chora.

Em uma conversa com Rafa, Pyong e Thelma, Giselly contou que já viveu um relacionamento abusivo durante quatro anos e lembrou da sua própria vivência ao falar de Gabi. Ela explicou como um relacionamento abusivo começa com o cara “podando” a menina: “Ela está murcha. A menina era um passarinho, [agora] só chora”, desabafou a advogada.

São diversas as cenas apontadas também pela audiência. Em uma delas, Gui tenta controlar com quem Gabi deveria ou não compartilhar o que ela sente ou pensa sobre o relacionamento. “A gente precisa resolver entre a gente. Você só pode escolher uma pessoa de confiança aqui dentro”, diz.

Em outro momento, ele culpa outra mulher, a ex-sister Bianca Andrade, de quem era bastante próximo, por querer beijá-lo, mas diz que não havia feito nada. “Eu sei o que eu fiz e o que eu não fiz. Em todo momento, só tentei ajudá-la. Em nenhum momento eu fiz nada de errado”, afirmou o brother.

Não é a primeira vez, contudo, que o reality da Globo expõe em rede nacional os passos que compõem um relacionamento abusivo.

Em 2017, o cirurgião plástico Marcos Härter, de 37 anos, foi expulso do Big Brother Brasil após diversas agressões contra a estudante Emilly Araújo, de 20 anos, com quem manteve um relacionamento na casa.

O absurdo da relação chegou ao nível da violência física, mas não é preciso que exista esse tipo de agressão para que um relacionamento seja abusivo. Aliás, essa é uma das maiores dificuldades de serem compreendidas. 

 

Não é por acaso que muitas mulheres já viveram relacionamentos abusivos em algum nível, mas poucas se dão conta disso. Em uma sociedade em que nós somos historicamente criadas para servir, isso reverbera de muitas formas nas dinâmicas sociais.

A receita é comum, mas um tanto complexa: a admiração que se tem pelo parceiro é confundida com uma autoestima machucada, misturada à insegurança dos padrões que são fortalecidos por uma sociedade baseada moral e politicamente no machismo.

O resultado disso tudo faz com que você nem sempre enxergue a realidade em que está sendo inserida: afinal, o seu abusador raramente é o monstro do estereótipo que criam por aí. Ele pode ser, inclusive, o cara mais bonitinho da sua roda de amigos.

Se você já se relacionou com alguém que te fez sentir inferior ou alguém um pouco mais velho que julgou ser o dono da verdade; se você já foi culpada por “estragar tudo” mesmo tendo dedicado-se ao máximo para o relacionamento; ou, ainda, percebeu que os momentos de brigas e explosão são constantes.

Se o seu parceiro já quis regular suas roupas, suas amizades, suas atitudes e gostos. E até mesmo na hora do sexo, você já se sentiu de alguma forma pressionada ou humilhada. Se em algum relacionamento você sentiu que, em vez de liberdade e confiança, o que predominava era o medo.

Infelizmente, você viveu um relacionamento abusivo.

A violência psicológica está incluída na Lei Maria da Penha e, mesmo sendo doloroso, é falando sobre o tema que poderemos acolher e fortalecer mulheres que já vivenciaram esse tipo de relação.

É considerada qualquer conduta que: cause dano emocional e diminuição da autoestima; prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento da mulher; ou vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões.”Lei Maria da Penha

Em 2019, o MP-SP (Ministério Público do Estado de São Paulo) criou a cartilha“Namoro Legal”, para conscientizar meninas e adolescentes sobre os reflexos de um relacionamento abusivo. O guia, elaborado pela promotora Valéria Scarance, contém sete dicas práticas de como identificar relações tóxicas.

Ameaças, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento (proibir de estudar, viajar, falar com amigos e parentes), vigilância constante, perseguição, insultos, chantagem, exploração, limitação do direito de ir e vir, ridicularização, distorcer e omitir fatos para deixar a mulher em dúvida sobre a sua memória ou sanidade mental.

Tudo isso faz parte dos jogos psicológicos de um relacionamento tóxico. Discutir, esclarecer e, sobretudo, denunciar são as ferramentas disponíveis para que possamos romper com o ciclo de um relacionamento construído em abusos.

Não silencie!

“Foi só um empurrãozinho”, “Ele só estava irritado com alguma coisa do trabalho e descontou em mim”, “Já levei um tapa, mas faz parte do relacionamento”. Você já disse alguma dessas frases ou já ouviu alguma mulher dizer? Por medo ou vergonha, muitas mulheres que sofrem algum tipo de violência, seja física, sexual ou psicológica, continuam caladas.

Desde 2005, a Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, funciona em todo o Brasil e auxilia mulheres em situação de violência 24 horas por dia, sete dias por semana. O próximo passo é procurar uma Delegacia da Mulher ou Delegacia de Defesa da Mulher. O Instituto Patrícia Galvão, referência na defesa da mulher, tem uma página completa com endereços no Brasil. Clique aqui.