NOTÍCIAS
01/02/2019 08:03 -02

Governo demora para investigar causas de rompimento, diz engenheiro

“Já tem 6 dias desde a tragédia e comissão técnica ainda não foi nomeada. O grupo deve precisar de 4 a 5 meses para apurar o ocorrido."

Adriano Machado / Reuters
A Vale afirmou que vai acabar com todas as barragens similares a de Brumadinho (MG).

A causa do rompimento da barragem em Brumadinho, que deixou ao menos 110 mortos desde a última sexta-feira (25), ainda está longe de ser diagnosticada.

De acordo com Alberto Sayão, ex-presidente da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica e professor de engenharia civil da PUC-Rio, a Agência Nacional de Mineração (ANM) deveria instaurar imediatamente uma comissão de investigação técnica para analisar o ocorrido.

“Já tem 6 dias desde a tragédia e essa comissão ainda não foi nomeada. O grupo deve precisar de 4 a 5 meses para investigar o ocorrido”, diz o engenheiro em referência à ANM, vinculada ao Ministério de Minas e Energia.

Para o especialista, é essencial que os dados sejam apurados e compartilhados com a comunidade técnica. Somente assim os engenheiros seriam capazes de “reavaliar as boas práticas” de barragens.

A Vale anunciou que irá fechar todas as barragens com estrutura similar a de Brumadinho. O tipo de obra, conhecido como alteamento a montante, é o mais popular por ser mais barato e fácil. Contudo, Sayão reforça que a estrutura é vulnerável.

“Descomissionar é um caminho, mas a fiscalização e a vistoria são imprescindíveis. O risco sempre existe quando se trata de qualquer obra. Mas você  não constrói a barragem esperando o dia em que ela vai romper. A gente vai proibir barragens, então? O que tem que ser feito é ter todas as garantias que ela terá fiscalização, monitoramento e vistoria”, alerta Sayão.

Leia a entrevista completa.

HuffPost Brasil: O que pode ser feito para que novas tragédias como Brumadinho não se repitam?

Alberto Sayão: De imediato, é preciso instaurar a comissão de investigação independente e técnica para poder fazer um laudo isento e conclusivo sobre o que aconteceu. Esse material deve ser divulgado para toda a comunidade técnica. Só assim vamos conseguir mudar o que é colocado em prática.

Em 2014, o Canada também sofreu com um rompimento de barragem, mas o governo estadual da província imediatamente montou essa comissão de investigação formada por especialistas e induziu a mineradora a abrir os arquivos sobre todos os dados coletados. 

Aqui, a equipe ainda nem foi indicada e já se passaram 6 dias desde o ocorrido. Depois dessa indicação, serão necessários 4 a 5 meses para a comissão trabalhar investigando as causas do rompimento.

A Vale errou em confiar nos laudos sobre a mina do Córrego do Feijão, que indicavam baixo risco?

É uma incompatibilidade dizer que a barragem é de baixo risco e alto potencial de dano, como o laudo afirma. Risco, em engenharia, não é um sinônimo de perigo. Risco para a engenharia é uma definição técnica que mede a probabilidade de ruptura x o dano potencial. Se o dano potencial é alto, o risco é alto. A classificação não pode ser feita de maneira subjetiva. É preciso uma metodologia para classificar o risco.

A empresa tem que se perguntar: se houver rompimento, quantas pessoas morrem? O dano potencial está relacionado ao estrago que que pode ser feito e isso inclui variáveis, desde a quantidade de pessoas envolvidas na barragem até o impacto ambiental.

É preciso fazer o cálculo do dano associado à ruptura. Se ele é alto, você deve tomar providências. Para diminuir o custo do dano, uma saída teria sido construir a barragem em outro lugar, por exemplo. Mas isso tem um custo monetário e, olhando friamente, a empresa sempre vai fazer esse cálculo.  

É óbvio que não deveria ter sido aprovada uma mina com esse tipo de configuração, como foi em Brumadinho, em que o refeitório estava abaixo da barragem. Isso é uma lição.

Mas se a Vale já operava com a barragem assim e tinha a licença ambiental, foi porque os órgãos fiscalizadores permitiram. Alguém fez essa avaliação e achou por bem manter a configuração. Qual era a justificativa? Caberia ao órgão de licenciamento não aceitar o projeto. 

A Vale afirmou que vai descomissionar todas as barragens de alteamento a montante. Essa é uma resposta efetiva para a sociedade?

Esse é apenas um método de modelo de construção. Brumadinho deixou claro que essa estrutura tem os dias contados. As entidades de engenharia devem se reunir e chegar a uma conclusão de que esse tipo não deve ser feito mais em nenhum lugar do País. Mas isso ainda não foi decidido. E acredito que será difícil de proibir esse tipo de operação, porque é o modelo mais rápido, fácil e barato, mas é o menos aconselhado do ponto de vista socioambiental. 

Descomissionar é um caminho, mas a fiscalização e a vistoria são imprescindíveis. O risco sempre existe quando se trata de qualquer obra. Mas você não constrói a barragem esperando o dia em que ela vai romper. A gente vai proibir barragens, então? O que tem que ser feito é ter todas as garantias que ela terá fiscalização, monitoramento e vistoria. 

Além do modelo de alteamento a montante, o que mais pode ser visto como um risco para as barragens? 

A barragem de Mariana (MG) rompeu devido a uma falha dos sistemas de drenagens. Isso demonstrou que a quantidade de água retida para misturar com os rejeitos acaba sendo a principal causa direta dos rompimentos. Mas não é fácil tirar a água de uma barragem. Não é uma obra barata. Então, é preciso um sistema de drenagem que também deve ser monitorado.