OPINIÃO
29/01/2019 08:47 -02 | Atualizado 29/01/2019 10:41 -02

Não temos licença para destruir: Por um novo olhar sobre sustentabilidade

O pensamento dominante na sociedade é de que não existe um custo na preservação da natureza.

MAURO PIMENTEL via Getty Images
Brumadinho foi invadida por 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério.

Estamos mais que acostumados a nos sentirmos abraçados ao entrar em uma cachoeira ou ao mergulhar no mar, a olhar para um horizonte de florestas e dizer pra nós mesmos que isso não tem “preço”. O prazer, a paz, a plenitude, o bem-estar que a natureza proporciona não tem preço. Não tem preço no sentido de que nenhum dinheiro no mundo te faria sentir daquela forma naquele momento... Mas também no sentido do funcionamento do nosso sistema e nosso modelo econômico em que a natureza e os recursos naturais não têm preço – uma falha.

No modelo que temos hoje, o benefício desse bem-estar não é precificado. O pouco valor dado ao meio ambiente na nossa cultura é sempre relacionado a um benefício momentâneo e à opinião de que a natureza é tão abundante que sempre estará ali para nosso usufruto. Nunca pensamos no tamanho do custo de se aquele momento da cachoeira fosse tirado de nós para sempre. Nossa cultura e educação são simplesmente extrativistas.

Vivemos em tempos imediatistas nos quais tudo é pra ontem e o prazo já passou, e assim perdemos, nas diversas esferas e camadas da sociedade, a oportunidade da observação. O crime ambiental ocorrido em Brumadinho, carregado de tragédia humana, traz a reflexão de que os processos que nós, eu como sociedade civil, o poder público e setor privado, estamos escolhendo seguir deixam pra trás as verdadeiras variáveis que impactam nosso meio e bem-estar.

Enquanto mantivermos a visão de que o meio ambiente atrapalha o crescimento econômico e que não tem a ver com as nossas escolhas políticas ou com nossos hábitos de consumo, continuaremos a observar os erros nos processos de produção e consumo e falhas na tomada de decisão arriscando vidas.

Somos parte de um ecossistema que nos salva diariamente e não o respeitamos — mantendo uma visão curta, limitada e imediatista.

Enquanto o custo da perda daquele “bem-estar” que mencionei acima não for internalizado e precificado pelo poder público, pelas empresas e pela sociedade civil, continuaremos a nos deparar e a sofrer com casos como Mariana e Brumadinho (vale lembrar que a lista é maior).

Esse erro é de base, é educacional e nosso. Já não temos mais tempo para o hábito de fazer, entregar e não monitorar e fiscalizar políticas públicas. A solução é conhecida, é sistêmica, é integrada e tem um custo muito menor que o crime e o desespero da perda do controle e do bem-estar.

É preciso que todos nós mudemos nossa forma de olhar para a sustentabilidade; somos parte de um ecossistema que nos salva diariamente e não o respeitamos — mantendo uma visão curta, limitada e imediatista.

É preciso entender que a preservação é necessária para que rios continuem fluindo, para alimentarem lençóis freáticos, para que a água possa chegar no copo da sua casa limpa.

É preciso olhar para o seu smartphone e lembrar que para ele estar na sua mão, um licenciamento ambiental ocorreu, minérios foram extraídos e rejeitos foram para barragens. O mesmo para sua geladeira, seu forno, seu fogão, seu carro e tantos outros produtos e artigos de consumo que nos rodeiam e são ditos essenciais.

Mediu o tamanho do risco e imaginou quantas outras barragens estão por aí e o motivo de licenciar, monitorar e corrigir?

Não temos e nem pedimos licença para destruir. Meu eterno sentimento a todas as vítimas. O processo precisa mudar.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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