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07/05/2020 19:46 -03 | Atualizado 08/05/2020 01:23 -03

O barraco de Regina Duarte ao vivo na CNN resume o caos do governo Bolsonaro

Secretária da Cultura se negou a ouvir mensagem enviada por Maitê Proença e afirmou que a emissora estava desenterrando mortos.

Reprodução/YouTube
Regina Duarte: "Telespectadores, desculpe o chilique".

Após 60 dias à frente da Secretaria Nacional da Cultura, a atriz Regina Duarte afirmou, em entrevista ao vivo à CNN, que ainda não sabe lidar com as burocracias do cargo — e o despreparo sobressaiu quando ela foi surpreendida por um vídeo enviado à emissora pela atriz Maitê Proença.

Regina deu um chilique ao saber que os apresentadores queriam que ela comentasse as críticas feitas pela colega de profissão em relação aos trabalhos da secretaria. 

Veja a cena.

“Dei chilique aqui. Telespectadores, desculpe o chilique. Estão desenterrando a fala da Maitê para quê? Quem é você que está desenterrando fala de dois meses atrás”?

A apresentadora Daniela Lima explica que a mensagem não é antiga, é desta quinta-feira (7). Ao ouvir o esclarecimento da âncora, a atriz interrompe e diz: “Não, não, quero ouvir”. “Vocês estão desenterrando mortos. Estão carregando um cemitério nas costas. Vocês devem estar cansados. Fiquem leves”, completa. 

Daniela Lima diz mais uma vez que a mensagem é recente, explica que o País está enterrando mortos, entre eles, alguns colegas da atriz. Nos últimos dias, a Cultura perdeu personalidades como Aldir Blanc e Moraes Moreira. 

Enquanto o repórter Daniel Adjuto tenta encerrar a entrevista, a atriz volta a insistir que a emissora está desenterrando mortos.  

A atriz Maitê Proença é uma crítica à gestão de Regina Duarte. Quando a nova secretária foi nomeada para o cargo, cerca de dois meses atrás, ela postou foto de Maitê, entre outras personalidades as quais disse tê-la apoiado para a missão. A atriz desautorizou o uso da imagem e reclamou no post. 

“Eu também não gostei de ter sido usada em uma montagem que dá a entender o apoio a um governo que não aprovo. Que fique claro. Não aprovo este governo mas apoiarei até a morte o direito de quem pensa diferente de mim”, disse à época.  

Análise

O despreparo que a própria atriz assumiu na entrevista é um resumo do caos que tem sido o governo do presidente Jair Bolsonaro. A atriz reclamou de ser cobrada por resultados sem que tenha tido tempo para aprender a lidar com políticas públicas. Comentário semelhante tem sido feito pelo novo ministro da Saúde, Nelson Teich — recém-chegado ao cargo, em pleno andamento da elaboração de diretrizes para conter a propagação da covid-19. Enquanto isso, continua o método de fritura do governo Bolsonaro pelo próprio clã Bolsonaro, que já culminou com 8 demissões só no primeiro escalão.

Ditadura

Na entrevista à CNN, Regina Duarte minimizou as mortes da ditadura. Disse que sempre que há humanidade, há mortes e que tortura sempre aconteceu. “Cara, desculpa: na humanidade não para de morrer [gente]. Se você fala vida, do lado tem morte. Por que as pessoas ficam ‘oh!’?”, diz a secretária.

O repórter, então, relembra a atriz da tortura que houve no período, e ela dispara: “Bom, mas sempre houve tortura. Meu Deus do Céu, Stalin, veja quantas mortes. Hitler... Não quero arrastar um cemitério de mortes nas minhas costas”. 

Antes, questionada sobre o fato de apoiar um presidente que tem como um de seus ídolos o torturador Brilhante Ustra, a atriz disse que não é hora de olhar para o passado. “Acredito que ele [Bolsonaro] era e continua sendo melhor opção para o País. Ele fez isso, fez aquilo, não quero ficar olhando para trás, se ficar olhando para retrovisor, estarei andando e cairei em um precipício. Tem olhar para frente, ser construtivo, amar o País.”

Questionada sobre o que a faria deixar o governo, a atriz diz que falta de confiança nas pessoas que estão ao redor dela. Nesta semana, a secretária viu a Casa Civil passar por cima dela e reconduzir Dante Mantovani à presidência da Funarte. O maestro havia sido demitido por Regina, quando ela assumiu a chefia da secretaria. Aos jornalistas, a secretária disse que “ficou muito surpresa”, que até então todas as nomeações eram comunicadas. “Algumas eu tinha sugerido, outras muitas foram sugeridas.”

Mantovani foi demitido no mesmo dia. De acordo com o G1, Regina ligou para a Casa Civil e reclamou. Neste mesmo dia, vazou um áudio em que a atriz reage à nomeação do maestro e diz achar que o governo estava tentando tirá-la do cargo. “Demorou para eu ser avisada”, disse à CNN. Ela, porém, ressaltou que segue no comando do órgão, que tem muitos projetos e pretende deixar um legado. 

“Sou uma pessoa que ama a cultura, ama o setor, apesar de saber que tem uma minoria que não gosta de mim, o setor de ama. A minoria é gritalhona; deixa ela pra lá.”

A atriz ressaltou que não está satisfeita com as cobranças externas. Disse que não tem experiência em política pública, que está aprendendo e que mal sabia o que é um DAS. A sigla se refere aos cargos de Direção e Assessoramento Superior, são as funções comissionadas que existem na esfera federal.