MULHERES
03/09/2019 15:25 -03 | Atualizado 03/09/2019 16:17 -03

'Fiquei viva para lutar por justiça', diz Barbara Penna, que sobreviveu a tentativa de feminicídio

Seis anos depois, ex-companheiro, acusado de atear fogo à mulher e ao apartamento da família, vai a júri popular. Resultado pode sair até quarta-feira (4).

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Há seis anos, Bárbara sobreviveu a uma tentativa de feminicídio em Porto Alegre (RS).

Passaram-se seis anos desde a noite do crime e recentemente todas as lembranças tornaram-se ainda mais fortes. “Com a aproximação do júri eu começo a reviver tudo. Não vai ser nada fácil ver o monstro que destruiu nossas vidas na minha frente”, diz Bárbara Penna, de 25 anos, em entrevista ao HuffPost Brasil. Nesta terça-feira (3), começa o julgamento de João Guatimozin Moojen Neto, de 28 anos, acusado de tentativa de feminicídio contra ela.

Em 7 de novembro de 2013, Bárbara, então com 19 anos, sofreu uma tentativa de feminicídio dentro de sua própria casa, em Porto Alegre (RS). Naquela noite, seu ex-companheiro colocou fogo no apartamento em que a jovem morava e depois a jogou da janela do prédio. Os dois filhos pequenos do casal morreram no incêndio, assim como um vizinho de 79 anos, que tentou ajudar.

De acordo com informações do Ministério Público do RS, o acusado responde por tentativa de homicídio qualificado (emprego de fogo e recurso que dificultou a defesa da vítima) de Bárbara e pelos três homicídios qualificados consumados, também com as mesmas qualificadoras. Três agravantes, em função de os crimes terem sido praticados contra a mulher, duas pessoas menores de 14 e uma maior de 60, podem aumentar a pena.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Ela guarda consigo a foto de seus dois filhos, mortos no dia do incêndio. 

Hoje, Bárbara continua em processo de recuperação. Ela sofreu graves queimaduras e passou por mais de 200 cirurgias – precisa realizar ainda ao menos outras sete. Fora isso, continua a luta que começou lá atrás e está certa de que mais um capítulo se encerrará em breve, com o resultado do júri.

“Eu sigo confiando na justiça e espero que faça jus ao nome. Quero que ele tenha condenação máxima. Para mim, é o mínimo perto de tudo que ele fez. Acredito que eu tenha sobrevivido para isso, eu coloquei isso na minha cabeça, que eu fiquei viva para lutar por justiça”, diz.

Tem feito mais do que isso desde então. Ela assumiu um protagonismo e virou ativista da defesa de mulheres e na briga pelo fim de casos como o seu.

Dados sobre a violência contra a mulher no Brasil

Apesar dos 13 anos da existência da Lei Maria da Penha e quatro anos da Lei do Feminicídio, é crescente o número de mulheres assassinadas no País. Segundo o Atlas da Violência de 2019, 4.963 brasileiras foram mortas em 2017, considerado o maior registro em dez anos.

A taxa de assassinato de mulheres negras cresceu quase 30%, enquanto a de mulheres não negras subiu 4,5%. Entre 2012 e 2017, aumentou 28,7% o número de assassinatos de mulheres na própria residência por arma de fogo.

Relatório mais recente da ONU detalha que os assassinatos de mulheres por parte dos seus companheiros fazem que o lar seja o “lugar mais perigoso” e que, sendo assim, ”é frequentemente a culminação de uma violência de longa duração que precisa ser combatida”.

Assim, o relatório conclui que a cada 6 horas uma mulher é vítima de feminicídio no mundo.

A Defensoria Pública, por meio do Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem), disponibiliza cartilhas com orientações de atendimentos à mulher vítima de violência, além de endereços de delegacias especializadas.

“Venho há tanto tempo lutando por uma sociedade mais justa e com mais respeito, mas nosso País ainda está longe disso e tento fazer minha parte, tento fazer o que não fizeram comigo, tento auxiliar essas mulheres [que vivem relacionamentos abusivos] também para que consigam ter um futuro com mais independência e longe desses homens agressores.”

Entre as medidas recentes, Bárbara criou um abaixo assinado em que pede alterações na Lei Maria da Penha. O intuito é aumentar a segurança de mulheres vítimas de violência doméstica no País.

“Peço a obrigatoriedade de cada estado ter uma Casa da Mulher Brasileira [centro de atendimento especializado para atender vítimas de violência doméstica] para auxiliar e, principalmente, salvar essas mulheres”, destaca, entre outros pedidos e projetos que fazem parte do abaixo assinado. E da vida que tem levado, com orgulho, nos últimos anos.

  • Cidade do México
    Cidade do México
    AP Photo/Eduardo Verdugo
    Mulheres ficam em pé em um trem lotado na Cidade do México. Foto de março de 2014.
  • Lima
    Lima
    AP Photo/Rodrigo Abd
    Uma bebê dorme no ombro de sua mãe em um ônibus em San Isidro, em Lima, no Peru. Foto tirada em 17 de julho de 2013.
  • Jakarta
    Jakarta
    AP Photo/Tatan Syuflana
    Pessoas viajam em cima de um trem lotado em Jakarta, na Indonésia. Foto de 29 de maio de 2013.