MULHERES
28/04/2019 13:32 -03 | Atualizado 01/05/2019 09:55 -03

Bárbara Paz: 'Não sabemos onde está o inimigo. Às vezes está do nosso lado'

Atriz lança nesta semana mini-doc que dirigiu com vítimas de Abdelmassih. Ao HuffPost, ela falou da desilusão com João de Deus, também acusado de abuso sexual por diversas mulheres.

Divulgação/TV Globo/Ramon Vasconcellos
Bárbara Paz dirige mini-doc com as vítimas reais de Roger Abdelmassih.

A série Assédio, que estreia na TV Globo na próxima sexta-feira (3), narra a união de mulheres contra o poderoso médico Roger Sadala, acusado de violentar suas pacientes. A personagem é livremente inspirada em livro sobre aquele que já foi o maior especialista em reprodução humana do Brasil: Roger Abdelmassih, condenado a 181 anos de prisão. Ele estuprou 37 pacientes. Enquanto os telespectadores poderão assistir à ficção todas as sextas-feiras, após o Globo Repórter, na internet um mini-doc com 6 episódios dirigidos pela atriz Bárbara Paz vai mostrar as vítimas reais do urologista —Assédio.doc.

Na trama, Paz interpreta Lorena, uma das vítimas de Roger Sadala. No ano passado, em uma reportagem para o Fantástico, a atriz conheceu mulheres que foram abusadas por Abdelmassih e propôs à emissora gravar um documentário com elas.

“Eu fui uma ouvinte. Elas estavam com vontade de falar, passaram muitos anos caladas. Uma foi abusada 40 anos atrás e ficou com isso guardado por muito tempo”, conta Paz ao HuffPost Brasil. “Achei justo e necessário documentar essas mulheres.” 

Paz já vem explorando a direção em programas do Canal Brasil e está finalizando documentário sobre seu ex-marido Hector Babenco, morto em 2016. Como estudou jornalismo, ela se sente muito à vontade em dirigir obras como essas.

Não é um documentário com nenhuma espécie de floreio, porque a gente já tem isso na ficção. É um complemento”, explica.

Os 6 episódios de Assédio.doc estarão disponíveis no Gshow a partir desta quarta-feira (1º). Para Bárbara Paz, a possibilidade de levar para milhares de pessoas as vozes dessas mulheres é um avanço. “A mulher está com mais coragem, a gente está mais disposta. Sempre se falou [sobre violência contra a mulher], mas talvez a gente não era escutada”, analisa. 

EVARISTO SA via Getty Images
João de Deus, preso em dezembro do ano passado. Bárbara Paz frequentava o centro espiritual dele.

João de Deus

Essa convergência de vozes femininas contra um algoz, contada por Assédio, foi vista recentemente na eclosão de centenas de denúncias contra o médium João de Deus, responsável por trabalhos de cura espiritual em Abadiânia (GO). As acusações de abuso sexual cometidas por ele foram um golpe para Bárbara Paz, que frequentava a Casa Dom Inácio de Loyola há 2 anos.

“Fiquei muito assustada... Como é que pode a fé e o bem ao lado do mal e ninguém perceber? Foi uma desilusão muito grande”, desabafa. 

Bárbara Paz começou a ir à Casa quando estava em luto, justamente após a morte de Babenco. “Me fez bem, duas mil pessoas emanando energia positiva”, recorda. “Eu ainda estou digerindo. Tinha uma pessoa muito doente lá [João]... Não sabemos onde está o inimigo, a maldade. Às vezes está do lado da gente.”

Divulgação/TV Globo/Ramon Vasconcellos
Amora Mautner e Maria Camargo nas gravações de Assédio.

Autoria Feminina

Assédio é uma constelação de mulheres. Foi escrita por Maria Camargo, que se inspirou em depoimentos do livro A Clínica: A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih, de Vicente Vilardaga. Na direção, Amora Mautner. E, entre as atrizes, Adriana Esteves, Mariana Lima, Paolla Oliveira. ”É uma história de muitas mulheres, contada com a delicadeza e a força da mulher”, resume Bárbara Paz.

A atriz comemora que a produção foi encabeçada por mulheres, o que ainda é incomum no Brasil. “Ainda temos uma quantidade pequena de mulheres na direção, na produção. E a mulher pode falar de tudo e tem muita vontade nessa área.”

Mas Paz está otimista com as novas oportunidades para elas. “O mais importante é que estamos aumentando o feminino no audiovisual”, conclui.