MULHERES
04/11/2019 21:13 -03 | Atualizado 04/11/2019 23:03 -03

A potência de ser uma bailarina negra e receber sapatilhas da cor de sua pele

Há 11 anos, a bailarina Ingrid Silva, que é integrante da Dance Theatre of Harlem, em Nova York, pintava seus sapatos de dança.

Reprodução/Instagram/Denise Rosa
Desde os 8 anos de idade é que Ingrid Silva, natural do Rio de Janeiro, entrou no universo da dança e se apaixonou pelo ballet.

Sim, elas chegaram. “Pelos últimos 11 anos, eu sempre pintei a minha sapatilha. E finalmente não vou ter mais que fazer isso. Finalmente”. Assim a bailarina brasileira, Ingrid Silva, que faz parte da companhia Dance Theatre of Harlem, em Nova York, nos EUA, pode admirar e usar pela primeira vez na vida ― e, consequentemente, em sua carreira ― sapatilhas da cor de sua pele.

″É uma sensação de dever cumprido, de revolução feita. Viva a diversidade no mundo da dança. E que avanço viu demoro mas chego (sic). A vitória não é somente minha e sim de muitas futuras bailarinas negras que virão por aí”, continuou ao escrever texto que foi compartilhado em suas redes sociais.

A publicação de Ingrid no Twitter logo viralizou e, até o momento, cerca de 104 mil usuários curtiram seu post. A pedido de um seguidor, em seguida, ela publicou um vídeo em que mostra algumas sapatilhas que ela mesma pintou.

Segundo a dançarina, cada pote de tinta usada para adaptar as sapatilhas custa US$ 12 dólares (o equivalente a R$ 48 reais). Sendo assim, durante 11 anos, a bailarina pode ter gastado mais de R$ 528 reais com este processo ― valor este que pode ser muito maior de acordo com o uso e customização de mais de um par de sapatilhas utilizados pela dançarina. Sem contar o tempo exigido para que a pintura fosse realizada e atingisse um resultado uniforme.

Foi logo aos 8 anosque Ingrid iniciou sua carreira no ballet. Ela fez parte do projeto “Dançando Para Não Dançar”, da Mangueira, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Depois, já com bolsa integral, estudou nas escolas de dança particulares Maria Olenewa e também no Centro de Movimento Debora Colker.

Aos 17 anos, integrou o tradicional Grupo Corpo. E foi logo depois de se formar no Ensino Médio, em 2013, que ela se mudou para Nova York e foi convidada para ser integrante do programa de treinamento profissional da companhia Dance Theatre Of Harlem, onde atua como profissional até hoje.

Recentemente, Ingrid esteve no Brasil. Entre apresentações e workshops de dança, ela participou do Encontro com Fátima Bernardes e deu uma entrevista à revista Ela, do jornal O Globo, o que a fez ganhar o título de ser a primeira bailarina negra e brasileira na capa de uma revista nacional. 

Companhia historicamente composta majoritariamente por dançarinos negros e não-brancos, a Dance Theatre of Harlem, é conhecida por incentivar o uso de acessórios que respeitem as cores dos corpos de cada dançarino presente ― a questão é não há grande diversidade nas cores de meias, collants e sapatilhas. 

Há poucos anos, empresas têxteis e marcas de sapatos e roupas de dança como a britânica Freed of London e a norte-americana Gaynor Minden (foto acima), começaram a fabricar outros tons de sapatilhas que não os tradicionalmente brancos, rosados ou perolados, entendidos como “nude”.

“Isso foi um processo de anos. Se você não usa a mesma marca, faz igual a mim, manda um e-mail e diz ‘eu uso a sapatilha, o que vocês podem fazer para me ajudar?’”, disse Ingrid em vídeos publicados nos stories de seu Instagram.

Ela ressaltou a importância e o significado de, após 11 anos, usar as sapatilhas que sempre quis e incentivou outras bailarinas a cobrarem as marcas. “As marcas têm que estar abertas à diversidade. É assim que o mundo é. Isso é uma grande vitória, não só para mim, mas para o nosso futuro na dança”. 

Futuro este que tem a missão de não priorizar apenas corpos brancos e promover e garantir ferramentas de trabalho ― neste caso, as sapatilhas ― para dançarinas como Ingrid Silva. Pintar as próprias sapatilhas com o seu tom de pele não é só uma questão de manter a fluidez de uma performance executada com maestria, por exemplo. Mas é a expressão de um esforço individual que vai além de só cuidar de seu instrumento de trabalho; é construir com as próprias mãos o pertencimento ao mundo que ele mesmo nega.